O Mármore do Inferno (ATON)

O Mármore do Inferno

Olha para a pedra fria do mármore,

rija, retangular…

Põe nela tua alma

e esculpe tua história.

Esmigalha-te no bater do martelo,

no lascar da broca.

Faz das batidas do teu coração

o propulsor da mão lasciva que quebra!

Arrebenta teus vértices,

destrói tuas superfícies planas,

transforma teu sangue, tuas lágrimas,

no pó que fazes do  mármore.

Sulca com afinco,

nos veios salientes da rocha,

teus mais vivos desejos.

Desfacela-te a miúde,

desfere cada golpe contra teu próprio ser,

como se fosse tua última chance de salvação.

Vê nesse frenesis o controle de teu caminho,

e lentamente conduze teu retorno ao pó.

Vê nesse teu sofrimento,

o baque dessa pedra que racha.

Deixa-te erudir pelas intempéries do tempo!

desgastar-te nas tempestades,

suaviza tuas curvas, tuas saliências ríspidas.

Deixa o quente e o frio arredondarem teus cantos,

Faz de ti tua magnum-opus,

aconchega-te no desconforto da criação,

e transforma cada trauma teu,

numa indelével marca no mármore.

Tortura tua alma presa na pedra fria,

e faz deste inferno,

um inferno digno de admiração.

Michelangelo_Moses

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J. C. da Silva (ATON)

J. C. da Silva

J. C. da Silva
tinha uma chave em mãos,
e duas portas iguais.
Nada mais.
Uma delas levava ao céu,
a outra ao inferno.
Era o destino de J. C. da Silva
abrir uma delas.
Cruel ideia…
a benção e a maldição
lado a lado, distintas apenas pela sorte,
pela ilusão.
Mas J. C. da Silva não sabia:
a chave abria ambos os caminhos.
E não havia destino algum.
Apenas a escolha. A cruel escolha.
Mas até toda essa história ser esclarecida,
mataram J. C. da Silva.
A chave se perdeu,
ou se perderam dela…
(faz diferença?)
E até hoje tudo tem dois lados indefinidos,
perdidos no meio termo,
de quem nunca foi capaz de transpassar o Hall de entrada
da vida.
E adianta escrever sobre isso?
Adianta refletir agora?
Talvez todos tenhamos essa mesma chave,
em algum lugar secreto,
e tudo que o J. C. queria,
era mostrar que o destino dele,
a qualquer homem serviria…

Medo (ATON)

Medo

Era uma pequena criança.
Com medos de criança.
Em seu pequeno mundo de criança.
E envolta desse mundo, construiu um muro.
Pobre ser, achava que se protegia.
Acontece que, em um belo dia,
a criança cresceu.
E seu pequeno espaço já não era suficiente.
Olhou por cima das paredes que o cercavam.
E viu:
seu mundinho, ser apenas uma ilha perdida num vasto oceano.
E viu:
pontes e mais pontes entre outras ilhas distantes.
Então percebeu:
era um pequeno adulto,
com medos de criança.
Percebeu que, cedo ou tarde,
todos temos que navegar.
Viver ali, como estava,
era inútil.
Viver não é preciso;
navegar é preciso.
Talvez já fosse tarde para isso.
Talvez não conseguisse ir tão longe, afinal.
Talvez morresse no meio do caminho.
Mas aquele mundinho de criança,
aquela ilhota de criança,
já não servia mais.
Ele cavou pelo muro um caminho.
Caiu na água.
e…
Talvez tenha nadado,
talvez tenha se afogado…
Agora era um grande adulto.
Com medos de criança.
Talvez tenha construído uma ponte.
Talvez ainda volte para lá.
Porque, no fim das contas,
todos os medos de adulto,
todos os medos do mundo,
são medos de criança.

Da amizade

Boas tardes. Alguns incidentes comigo e com Aton promoveram esse hiato entre as publicações, que se estende fazem duas semanas. De minha parte, peço perdão (novamente), embora as circunstâncias tenham sido extraordinárias de fato. Mas enfim, ao texto!

Boas tardes.

Eventos recentes me deixaram inclinado a escrever sobre amizade. Sim, clichê e dramático. Mas acontece que escrevo o que sinto. Preciso disso para fazer meu trabalho com gosto. E acontece que nessas últimas semanas, situações singulares ocorreram entre eu e pessoas de minha amizade. Briguei com umas. Reconciliei-me com outras. Encontrei velhos amigos que há tempos não via e vi amigos próximos se afastarem paulatinamente. Eventos normais na vida de uma pessoa, sem dúvida, mas o fato de que isso me ocorreu em um intervalo de tempo tão curto me colocou a refletir. O que se perde (se é que se perde)? O que se ganha (se é que se ganha)? Foi esse o tipo de pensamento que girou na cabeça desse autor recentemente. Daí minha necessidade de escrever nisso. Espero sua compreensão quanto ao clichê. Nesse caso, ele é um mal necessário, pelo menos para mim.

Muito se escreveu já sobre o assunto. Não tanto quanto sobre o amor (ou o que se pensa dele, já que a maior parte das descrições corresponde à paixão), mas ainda assim, é uma relação humana tão primordial que é quase impossível ser original sobre ela. O que posso dizer é a minha ótica, a minha experiência, que não é muito extensa, devo admitir. Mas se faz necessário, se faz necessário… Comecemos. Um amigo vale mais pelo quanto você chora com ele do que o quanto você ri com ele. É importante compartilhar a alegria, o riso, ou ele perde boa parte do seu valor, mas o pranto é algo íntimo, secreto. Ter alguém com quem repartir dor é de maior valor do que ter alguém com quem repartir um sorriso. Amigos para o riso, creia em mim, não serão tão raros em sua vida, nem tão caros. É fácil compartilhar sua alegria com alguém, mas suas lágrimas? Não. Não suas lágrimas. Não confunda o que acabo de colocar com chorar por um amigo. Apesar de valioso, é inevitável. Nunca vi uma relação próxima entre duas pessoas que não machucasse de vez em quando.

Aliás, outra coisa que ouvi e que procurei guardar sobre o tema: é possível avaliar uma amizade por seus altos e baixos. Não brinquei quando afirmei que é inevitável machucar-se ao se aproximar de alguém. Mas é evitável voltar a se aproximar. É preciso força para fazer as pazes e voltar do ponto onde tudo parou. Não afirmo aqui que amigos necessariamente vivem em guerra entre si e sempre dão a volta por cima (embora se ouça falar de coisas assim). Afirmo que a amizade, apesar de bálsamo, é também desafio. Em certo ponto, vai doer. É necessário altruísmo, sacrifício, caráter para suportar tudo. Como tudo na vida, tem um preço e como tudo de bom na vida, o preço é alto. O que se deve lembrar é que vale a pena pagar, mas isso só você pode decidir.

Amizade afasta o peso da solidão. Traz luz a uma alma escura. Faz você respirar melhor. Faz você viver mais e com mais saúde, se não de corpo, de alma. É possivelmente (e tenho fé nisso) a chave da própria sobrevivência humana. É amor em si mesma. Não paixão (antes que os caros leitores me interpretem errado), amor, na sua mais pura definição: “(…) é paciente, é benigno. Não inveja, nem se vangloria, nem se ensoberbece. Não se porta incovenientemente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita o mal. Não se alegra na injustiça, mas tem gozo na verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta“.

Nessas linhas, sou obrigado a olhar para mim mesmo e encarar a realidade que, em vários aspectos, não tenho sido um amigo bom. Embora eu possa enumerar infinitas desculpas para esse meu comportamento, no fim, tenho somente a mim mesmo para culpar. Espero mudar a tempo. Aliás, espero mudar. Mas a você, caro leitor, uma pequena nota: seja o amigo que você gostaria de ter ao seu lado. Cultive suas amizades, regue, adube regularmente. Resguarde-se do exagero, mas esteja sempre disponível. Não tenha medo de se abrir com quem você sabe que tem amizade genuína. Não tenha medo de escutar. Aprenda com o outro, mas mais importante: aprenda com você mesmo. Espero que você, caro leitor, encontre um amigo genuíno, se é que já não o achou. Eu sei que achei alguns. Espero que eles tenham achado um em mim mesmo.

 

Por Claus P. Neto

 

Nós Psicopatas (ATON)

Nós Psicopatas

Não sem emoções.
Mas doentes da alma
na alma
de alma.
Essa coisica que a ciência não comprovou
ou que a razão não sanou.
Pela alma matamos e morremos;
sonhamos e decepcionamos;
pela alma crescemos e infantilizamos.
Somos loucos, porque não…!?
Por ela até mesmo escrevemos.
trabalhamos, construímos,
guerreamos, destruímos,
amamos, encantamos,
odiamos, indiferentes…
Sim, patologia da alma
na alma
de alma
a… alma
Antes fosse meramente a mente,
não seria endêmico de todos nós.
E se por ela somos tão inconstantes, incompetentes,
não seria aquele que, então,
tão coloquialmente,
chamamos de “o psicopata”,
o único são da alma?
E é engraçado pensar,
que viver seria melhorá-la,
e, por isso mesmo, piorá-la,
tanto quanto mais lúcidos, mais loucos
tanto quanto mais se sente, menos se entende.
Sem graça serão os dias de nossa prole,
o dia em que nos curarem da alma,
e não mais poderem morrer de amor, de dor
morrer deles mesmos.
Uma vida que não seria feliz,
embora não seria triste,
mas apenas vida, e nenhum adjetivo a mais.

Hiperbórea III (ATON)

   Hiperbórea

parte III

     -Ah… pessoas – riu o Agente 42 – A ONU, A G.S.S., todos, do mais simples cidadão ao mais poderoso magnata, tentando adiar o inadiável, controlar o incontrolável – riu – patético. Diga logo, homem, minha missão aqui.

     Impassível, o Homem Fardado continuou do ponto que havia parado, como se não houvesse sido interrompido.

     -Foram descobertos genes relacionados ao dom de liderança e a tendências bélicas. Porém, a forma de hereditariedade tem sido muito questionada. Inicialmente esta base era uma central de super computadores, trançando a linha de parentesco dos maiores generais da história, estudando suas descendências. No final da guerra fria, alguns países adotaram um sistema da vigilância genética, hoje já estendido por uma boa parte da América, Europa, alguns países da Ásia e Oceania. Desde então recebemos pessoas que apresentam indícios e os mantemos ocupados, protegendo a paz, de certa forma. Senhores, quero que conheçam a cidade que nossos prisioneiros construíram: Hiperbórea.

     Apertou um botão sobre sua mesa e uma tela surgiu em uma parede vaga ao lado. Digitou algo no computador e dezenas de imagens captadas por câmeras começaram a ser reproduzidas: casas de madeira, pequenas hortas, uma grande praça com inúmeras pessoas vestidas todas iguais. Lembraria algum lugar onírico do passado se não fossem as lâmpadas pálidas no teto e os tubos de ventilação com grades mais espeças que um homem.

     -Hiperbórea tem um dos maiores sistemas de vigilância do mundo. É, de certa forma uma prisão, mas é tão grande quanto Minerva. Ela se situa logo a oeste, sendo alimentada pelos mesmos geradores que aqui. Há um ecossistema artificial controlado por nós, ainda em fase de adaptação. Florestas e até mesmo rios podem ser encontrados lá. Os prisioneiros só têm acesso à tecnologia que conseguirem produzir. Fornecemos três vezes ao mês livros seletos. Clássicos e alguns volumes de medicina, nada que ofereça perigo. Fora isso, todo resto é por conta deles.

     As imagens que seguiam eram impressionantes: ruas de pedra, algumas bicicletas de madeira, idosos jogando xadrez ou contando histórias para crianças, lembrava uma vila medieval “moderna”, extremamente organizada.

     -Eles têm um avanço moderado sem tecnologia acessível. Mas mês passado um homem escapou. Semana passada foram outros dois. Verificamos cada metro desse lugar e nada encontramos. Esta é a sua missão, descobrir como, para onde foram, se sobreviveriam na Antártica, por que fugiram e reportar as falhas no sistema. Para isso, Agente 42, você será um prisioneiro infiltrado. Temos pressa.

     -E quais são meus assuntos aqui? – continuou o Doutor ainda sério.

     -Dr. Schwarzer. Considerado o maior polímata da atualidade. Creio que o senhor conheceu o Dr. Denker?

     -Edward Denker? Foi meu professor na faculdade em Berlim. Um dos poucos a não me discriminar pela minha descendência brasileira… Morreu sete ou oito anos atrás…

     -Na verdade, três dias atrás. Foi um dos primeiros recrutas. Mas só veio nove anos atrás, pois ainda não haviamos completado o laboratório de pesquisas. Este é o testamento dele

     Jogou um papel com umas duas linhas escritas, uma assinatura e uma impressão digital. O Dr. Schwarzer leu em vós alta: “Em caso de morte, deixo tudo (minha pesquisa e meus bens daqui) para meu grande discípulo: Marco Aurélio Carvalho Schwarzer”. Havia uma cópia, abaixo, do mesmo enunciado, em inglês e outra em alemão.

Um pequeno (grande) desabafo_-_por Claus P. Neto

Boas noites. Como semana passada, tentarei ser breve aqui. Há, entretanto, uma singular diferença dessa semana para a anterior: eu tenho algo sobre o que falar. O atraso do texto foi produto de circunstâncias externas (que deram a este humilde autor uma ótima desculpa). Na verdade, eu nem queria escrever sobre o assunto a seguir, por achar que em boa parte ele já virou notícia velha, mas de novo, circunstâncias (as quais eu acredito que ficarão melhor ocultas) contribuíram para esse desabafo. Faz bem pouco tempo, um vídeo de um assalto que terminou mal para o meliante virou a nova febre da internet brasileira. Nesse ínterim, foi notável ver como a opinião pública se dividiu a respeito do acontecido. Até onde eu pude acompanhar, a maior parte das pessoas achou, no mínimo, justa a ação policial que resultou na internação do assaltante. E sabe o quê? Concordo. Aliás, vou colocar aqui um parênteses, antes de continuar. Por princípio, defendo que toda vida tem um valor sagrado. Em hipótese alguma creio que teria sido bem feito se o ladrão morresse em decorrência dos tiros. Aliás, creio que mesmo os que mais ardentemente deixaram claro nas redes sociais o seu desprezo pelo infrator não teriam coragem de vê-lo perecer (quem dirá puxar eles mesmos o gatilho). O que toda essa situção trouxe à tona, é que o Brasil, em termos de segurança pública, está virando um verdadeiro pesadelo. É incrível como de uns tempos para cá trocamos o temor de, nos anos de chumbo, ser arrastados por nossas convicções políticas e passamos  ter pavor de ser abordado na rua. Até hoje, tenho um medo violento de usar meu celular (um aparelho semi-paleolítico que possui apenas as opções chamada, mensagem, calculadora e calendário) na rua. E porquê? Porque hoje, isso é comum. E o que é pior. Não há justiça. Cheguei ao cúmulo de ouvir de oficiais da PM detalhes de criminosos como apelidos, descrição física e até mesmo de vida pessoal dado ao grande número de vezes em que foram presos…e soltos logo em seguida. Há tanta violência nas ruas, e tãos poucos os casos em que se cumpre algo próximo do justo, que praticamente não há reação mais natural do que aplaudir um policial que, em um caso raro, conseguiu impedir que um vagabundo covarde tomasse o que era de outra pessoa só pelo fato de possuir uma arma de fogo. E antes que algum indivíduo tente advogar pelo referido covarde, já deixo claro aqui: se você acredita que violência vem pela falta de oportunidades, convido-o a pegar o computador, notebook, tablet ou smartphone de onde você lê esse texto e doá-lo gentilmente ao primeiro assaltante sem oportunidade que cruzar seu caminho, de modo que pelo menos com o dinheiro da venda ele tenha “uma oportunidade igual à sua”. Meu amigo, criminalidade ou pobreza não advém de oportunidade ou sua falta. A síndrome do coitadinho não vai ajudar ninguém a sair do buraco de lama em que ele está enfiado ou de impedir que ele tome por força covarde o que é, por direito, de outro: um celular, dinheiro, um ente querido ou sua própria vida. O fato é: aplaudimos demonstrações de justiça feita porque, no dia-a-dia, convivemos com uma realidade deprimente de crime impune. Todos gostaríamos que, em um momento como o que passou o motorista da moto, tivéssemos um PM disposto a intervir em nossa causa. Todos nós gostaríamos de poder andar nas ruas em paz. De sair de casa sabendo que, quando voltarmos, ela estará inteira. Ou então que, mesmo que quaisquer destas coisas ocorresse, fôssemos justiçados por um governo que em tese, tem o dever de nos proteger. E enquanto isso, esse mesmo estado passa a mão na cabeça daqueles que nos põe sob o signo do medo: tanto aqueles que nos abordam na rua com armas à mão, quanto aqueles que, de terno e gravata, sugam vorazmente o dinheiro de nosso hospital, de nossa escola, de nossa segurança, de nossas vidas, e ainda legislam contra aqueles que, com coragem, tentam fazer cumprir algum tipo de justiça. Gostaria que nessas duas esferas, eupudesse viver tranquilo. Mas tudo não passa de um sonho distante, que some faceiro e diáfano diante de meus olhos assim que eu acordo.

Boas noites.

Por Claus P. Neto