A meia-vida de Silmar Silvério Silva dos Santos – Parte II por Claus P. Neto

Olá, olá, olá. Bom, como prometido, sigo com a minha narrativa da intrigante vida (ou meia vida, como eu espero que fique claro no final) de Silmar Silvério Silva dos Santos. Espero que semana que vem eu consiga postar toda a parte final, que é consideravelmente extensa, e possa escrever outras coisas (se serão mais interessantes ou não, deixo isso ao seu critério, caro leitor). Se você não leu o começo da história, é só apertar aqui, ou olhar à esquerda e ir para a parte I. Enquanto isso. diga-me o que você pensa sobre esse texto! Comente, elogie, xingue, cuspa, o que você quiser. É importante pra mim receber feedback,  ora para alimentar o meu próprio ego, ora para eu ver aonde exatamente eu estou errando (e aí poder consertar meus textos e receber mais críticas positivas que inflarão ainda mais o meu ego quase argentino). Se você ainda não curtiu a nossa página do facebook, é só apertar aqui, não é nada de mais, só dois cliques e você já está ajudando a gente (sério pessoal, só dois cliques, até um macaco faz isso). Se você gosta de nossos textos, mande para amigos seus que gostam de literatura, se não gosta, mande para os seus desafetos: ajude-nos a crescer, por favor. Boas tardes.

A meia-vida de Silmar Silvério Silva dos Santos (parte II)

Sua adolescência não foi muito melhor. Atrasou-se mais dois anos e um mês. A razão, entretanto, não foi o açúcar (ou a falta dele, se você preferir). Foi muito, muito pior: O atraso foi causado por Mérilú, a garota mais bonita da cidade, que de doce não tinha muita coisa (ao menos em relação ao garoto).
Pode-se dizer, aliás, que para a maior parte dos meninos que a experimentaram, seu sabor era mais puxado para o apimentado, com um estranho gosto de mostarda e cravo-da-índia no final. Para Silmar, ela só teve um gosto amargo.
Nunca o pobre garoto teve coragem de chama-la para tomar sorvete (o protocolo básico de interesse afetivo na cidade), mas isso por alguns bons motivos:

1)Devido ao fato de não brincar muito com as outras crianças quando pequeno, tornara-se extremamente tímido e recluso;
2)Sua intolerância ao açúcar o obrigaria a desperdiçaro sorvete;
3)O mais importante: Mérilú frequentemente estava cercada de pessoas consideravelmente mais velhas (que ela e ele).
Tentou falar-lhe em apenas dois episódios: o do papagaio morto e a do purê de maçã. O primeiro, apesar de parecer interessante, não tem relevância nenhuma na história de Silmar, visto que ele mal conseguiu pronunciar dois grunhidos que, por uma estranha coincidência, equivalem às expresões: ‘Quero um pé de batatas’ e ‘Onde está a parafusadeira?’ na língua quíchua. O segundo, entretanto, foi crítico. Negativamente, é claro.
foi durante o seu primeiro pileque, onde tomou uma dose que só pode ser descrita como heróica de uísque para conferir a coragem necessária para cortejar a moça. O problema é que para entrar a valentia, necessariamente o bom senso teve que sair, e Silmar, meio zonzo, inadvertidamente comeu uma colher do purê de maçã que estava sobre a mesa. Não sei se comentei, mas o fato ocorreu em um churrasco onde cada um tinha que trazer algo. Lionel, infelizmente, havia esquecido da carne e pegou às pressas o purê que a mãe fizera na véspera pra não chegar de mãos abanando. A intolerância do rapaz infelizmente agia de maneira muito veloz, de modo que quando estava prestes a dizer ‘oi’ (dessa vez em bom português) veio a primeira contração. O bom senso entretanto, ainda não havia voltado, e ele (surpreendentemente) conseguiu manter o diálogo (ainda em português), até que veio a segunda pontada. O tolo garoto, mesmo que começando a perceber a proporção que coisa tomava, estava inebriado pela chance de falar com a sua diva, e ignorou a dor abdominal até a terceira. Aí ele finalmente acordou para a situação, mas já era tarde, e ele sucumbiu à força de seu intestino. Os resultados desse episódio: ele jurou nunca mais falar com Mérilú devido à vergonha, desenvolveu um horror quase irracional ao uísque, passou a evitar os poucos churrascos aos quais ele ainda era convidado (especialmente aqueles em que comparecia Lionel) e empestiou a casa do infeliz anfitrião por quase um mês, tempo no qual não saiu do quarto.
Ainda assim, acompanhou a trajetória de Mérilú de uma forma quase doentia: sabia de cor os nomes de todos os ex-namorados, ex-ficantes, ex-peguetes, etc. (que não eram poucos por sinal) até que ficou sabendo do caso da menina com Epaminondas (na época com 65 anos) e, desgostoso, finalmente a esqueceu. Mas já tinha sido feito o estrago, nessa perseguição mais o tempo em que tentou se aproximar dela perdeu dois anos, fora o mês em que se trancou no quarto. Cinco anos, um mês e cinco minutos.

Continua…

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Pela própria vida (por Aton)

Pessoal, muito obrigado por todos os acessos dessa última semana que nos colocaram na 1ª página do google por algumas horas xD. Vou continuar com a saga do Prometeu, que ainda não tem nome. Espero que não se incomodem com sangue, logo logo chega a parte político-filosófica da história e a violência diminui. Espero que estejam gostando. Este é o terceiro Post a respeito dessa história, quem não conhece pode conferir os textos passados nas categorias do lado esquerdo do site.

Pela própria vida

Uma gota de suor desprendeu-se dos cabelos e desceu pela nunca, arrepiando o corpo desprotegido de Prometeu. Ele acordou assustado, já era dia e não estava sentindo dor… E isso era algo fora do comum: Sua torturadora nunca atrasara um minuto. Deu-se conta, então, da mão liberta: havia uma pele fina e enrugada que a recobria, aparentava ter uns sessenta anos, o Sol queimava-a e ele deixou que esse pequeno incômodo fosse um momento de deleite. Riu tão alto quanto pôde, mas seu lado direito doeu como se ainda estivesse ferido… Então compreendeu que sua maldição estava sendo quebrada, que a partir de agora todo dano que sofresse poderia ser letal.

O grito frustrado da ave que surgia no horizonte cortou seus pensamentos. Havia naquele piar o mesmo tom de incredulidade com que ele acordara. Apoiou a mão na algema para que a águia não percebesse o ocorrido e ficou observando a figura aumentar lentamente. Ele sorria, não conseguia se conter. O animal se aproximou diminuindo lentamente sua velocidade para poder agarrar melhor o corpo do prisioneiro, mas, rápida como uma guilhotina, a mão de Prometeu agarrou o pescoço do pássaro e bateu o corpo do animal contra o rochedo uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Aquelas pedras faziam parte do próprio monte Olimpo e jamais poderiam ser destruídas. Outro pio seria dado pelo animal se a força dos dedos não estivesse fechando sua garganta.

Os ossos da besta eram duros como a montanha, e isso o fez sorrir. Foram tantos anos servindo de alimento para aquela criatura, que o corpo dela havia incorporado a própria rigidez da alma de Prometeu, mas estava na hora retomar o poder que fora dele. Na sexta vez tentou fazer com que a cabeça acertasse a pedra, porém o animal conseguiu acertar uma das garras no abdômen, fazendo com que uma tira de pele, carne e gordura fosse arrancada. A nova sensação de dor o fez hesitar e a águia escapou. Ele pôs o dedo na ferida e sentiu o sangue escorrer. Não era mais o sangue denso, escuro, viscoso dos seus dias de glória… Aquele era aguado, pálido… Não sabia ele que assim também era o sangue da maioria das pessoas.

A ira monumental que surgia parecia acelerar o pensamento. Viu a ave ganhar altura e mergulhar como um míssil em sua direção. Sua mente voltava a trabalhar, sorriu: ele iria vencer. Calculou a trajetória do animal e percebeu que, apesar de tudo, ela mirava o seu fígado. Esperou pacientemente os poucos segundos que o separavam da vitória; das garras mortíferas. No último instante lançou o braço para a direita e torceu o corpo para o outro lado, de forma que seu braço entrepôs o caminho da morte, e com toda raiva contida arremessou a ave novamente contra o rochedo. A besta ficou atordoada e caiu, mas a mão de Prometeu alcançou o pescoço do animal.

Sem hesitar, levou-o a boca e seus dentes pela primeira vez em muito tempo puderam cortar algo. O Líquido grosso desceu pela garganta como ferro derretido, queimava mas essa era o preço do poder: queimaria as palavras e as fomes, para depois fazê-los ressurgir ainda mais fortes. A águia já não mais sentia os membros quando percebeu o que ocorria e, com um misto de satisfação e decepção, agradeceu o fim daquela vida parasita. Prometeu sentia-se estranho, nascera Titã, fora amaldiçoado como humano e agora tornava-se Herói, não de um povo ou de uma lenda, mas de sua própria vida. O sangue ia descendo e os dentes se afundavam cada vez mais, até que encontraram a medula.

Rilhando os dentes entre os discos ósseos que ligavam a cabeça daquele ser ao restante do corpo, o crânio do animal foi se separando até que a carcaça caiu montanha abaixo e mergulhando no rio Styx, que ao pé dela passava. Prometeu sorriu com a barba escurecida pelo sangue. Olhou para o crânio, olhou para o bico do animal. Aquele bicou era mais resistente do que qualquer coisa que Hefesto poderia algum dia forjar. Já era de tarde e ele pôs-se ao trabalho de martelar a nova ferramente contra a algema que prendia sua mão direita. Logo mais estaria livre.

A meia-vida de Silmar Silvério Silva dos Santos – Parte I por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Estava eu entediado em uma bela segunda feira à noite quando essa estória caiu na minha cabeça como um piano de desenho animado antigo. O lápis olhou o papel, o papel olhou o lápis e os dois chegaram a um consenso, e eu vi que isso era bom. A minha ideia era a de alternar poesia e prosa a cada semana, mas me vejo compelido a postar esse conto em partes por três ou quatro semanas seguidas (vide o ‘Parte I’ do título). E isso por alguns nobres motivos:

  1. O conto ficaria muito grande para colocar em um único post;
  2. Eu ainda não terminei de trabalhar nele ainda;
  3. Vai me comprar o tempo necessário para trabalhar em meu projeto paralelo, que eu quero que esteja relativamente adiantado antes  que eu o poste;

Espero que vocês aproveitem. Não esqueçam de comentar, e se vocês ainda não curtiram nossa página do facebook, essa é uma excelente oportunidade. É só clicar aqui. Boas tardes.

A meia-vida de Silmar Silvério Silva dos Santos

Silmar Silvério Silva dos Santos viveu e morreu na bela e pequena cidade de Bocaiunaí, tão pequena que no mapa mereceu a menção de apenas um pequeno pontinho, que a maioria dos grandes geógrafos interpreta como como a marca do alfinete que pregou o mapa na parede. Curiosamente, Silmar também morreu no dia em que nasceu (29 de fevereiro), praticamente à mesma hora, com um adiantamento de apenas cinco minutos, que foi o tempo que ele enrolou antes de sair da barriga da mãe.

Teve uma infância peculiar, devido principalmente à sua raríssima intolerância a sacarose, o que lhe privou de todo e qualquer doce típico às crianças daquela época. Isso lhe gerou alguns incômodos: por exemplo, nunca entendeu direito porque não era bem-vindo na casa da avó paterna, a principal doceira da cidade (há quem diga que é porque o garoto não se parecia com Gilberto, filho da dita cuja, mas sim com Epaminondas, o galã da cidade, mas isso nunca foi provado).  Também não ficou sabendo o porquê em seu aniversário quase nenhuma criança da cidade ia (descobriu depois que era porque não havia bolo com sorvete ou brigadeiro). Mas o detalhe mais peculiar de todos: A falta de doces o atrasou ainda mais que os cinco minutos que ele esperou antes de resolver nascer. Ora, sem doces, nunca teve a energia característica dos garotos normais, e sem energia não só não brincava de pega-pega, esconde-esconde, etc. como também seu corpo teve mais dificuldade para crescer, demorando mais três anos para atingir o estado biológico da adolescência, o que marcava o segundo atraso grave de sua quase meia-vida. Assim, eram três anos e cinco minutos perdidos. Desastroso.

Continua…

O Herói de ferro e sangue (por Aton)

Pessoal, aqui começa o segundo “capítulo” que eu havia prometido a respeito da história do Prometeu, cujo nome ainda não sei. Caso você não tenha lido, procure o post de nome “Do fogo vieste”, pode ser que goste… Ou não?! Quero deixar muito claro que, apesar de citar inúmeros elementos da mitologia clássica, a história de Prometeu possui inúmeras versões distintas e, portanto, estou apenas criando uma versão minha desvinculada das outras e, por isso mesmo, muitas coisas não poderão ser usadas como fonte para nada.

O Herói de ferro e sangue

Viu a ave sumir no horizonte. O corpo se recuperava lentamente e, a medida que a maldição fazia efeito, ele tomava consciência… Prometeu sentia-se cansado, como se as mitoses aceleradas que ocorriam com ele, neste momento, fossem apenas uma ilusão de tempo e ocorressem em velocidade normal, sendo ele forçado a manter-se acordado durante todo o processo, o que fazia horas parecerem anos, até que, por pura exaustão, ele desmaiasse. Mas hoje não podia permitir isso: Aquela águia havia se alimentado de um um titã durante milênios, feito suficientemente épico para que ela se tornasse um animal lendário, ou seja, a existência dela havia se tornado uma realidade paralela aos mundos humano e divino, de forma que passara a possuir uma consciência plena limitada por um cérebro de passarinho. Percebera isso ao fitar os olhos da besta.

Ele sabia que esse dia chegaria, esperara por ele durante todo esse tempo: do surgimento do primeiro neandertal até hoje, Fora cerca de dois milhões e meio de anos sofrendo dia após dia, aguardando lentamente o momento em que sua fuga seria possível; em que aquela ave já não pudesse ser morta por deuses ou mortais, apenas por Heróis, aqueles cuja determinação para superar um obstáculo é infinita. Coisa que ele, mesmo sendo um titã, ou talvez justamente por isso, era perfeitamente capaz de conquistar. Mataria aquela águia e retornaria ao Olimpo para livrar definitivamente o homem.

Respirou profundamente e encarou as suas mãos algemadas acima da da cabeça. Hefesto as havia algemado tão firme que, se não fosse pela maldição, os dedos já teriam necrosado a muito tempo. Cada algema possuía 4cm de espessura, elas se interligavam por um elo grosso e dele saia uma corrente que entrava no coração da montanha, reaparecendo novamente para prender a algema que prendia as duas pernas de uma vez, se estendendo por toda a canela. Como ainda era noite, seu lado direito não havia regenerado por completo, logo, podia apenas movimentar melhor o braço esquerdo, apesar de sentir nisso alguma dor irrelevante para o momento.

Lentamente começou a rodar a mão esquerda. Seu pulso rilhava contra o ferro que impiedosamente entrava na pele fina, contando-lhe os vasos, cerrando-lhe os ossos, desfiando-lhe os músculos do braço. O sangue relutava em sair e ele tinha pouco tempo até que lhe fossem sugadas todas as energias. Não vendo outra alternativa, puxou vagarosamente o braço para baixo enquanto a algema arrancava os tecidos do osso, deslocando alguns dedos e quebrando o dedão. Não sentia dor ali, os nervos já haviam sido cortados completamente. Sentiu a pressão ceder e o membro cair sem vida ao lado do corpo. Antes de perder a consciência, viu que a pele havia virado do avesso e nela estavam grudados pedaços de carne, enquanto ela se prendia às pontas dos dedos. A cartilagem amarelada começou a tingir-se de vermelho e ele adormeceu.

Aton

Vasos (Por Claus P. Neto)

Bom, de novo voltamos à poesia. É meio irônico, pois apesar de eu não conseguir ler poemas facilmente, sinto-me confortável quando escrevo em forma de versos. Esse aqui é um espécime recente, ainda está fresco, portanto espero que apeteça-lhes o paladar, caros leitores. Eu sempre falo isso, mas em todo caso, repito: comentem, deem sugestões, dicas, críticas ou opiniões, a escolha é sua.  Uma boa  tarde e um feliz feriado a vocês (ou não).

Vasos

Vasos vazios
Vasos quebrados
Abandonados
Por entre os baixios

Na corrente do rio
Vêem tudo passar
Mas sem mergulhar
Têm o olhar vazio

Sempre perdem o fio
O tecido, a teia
Não têm uma ideia,
Não soltam um pio

Vasos de couro
Que nunca esperam,
O esterco que levam
Poderia ser ouro

Por Claus P. Neto

Uma chuva de novembro (por Aton)

Pessoal, primeiro quero comunicar que decidi continuar aquela ideia do Prometeu e vou postar mais textos como aquele, de forma a criar uma linha cronológica de uma história inteira que irá ser semanalmente postada aqui e ,quem sabe um dia, juntar tudo e formar um livro? Mas hoje fica aqui uma crônica, pois ainda estou acertando uns detalhes.

Uma chuva de novembro

Andava eu sozinho. Já eram duas horas da tarde e chovia fino, de forma que as nuvens no céu não impediam a entrada do Sol. Andava eu sozinho com um guarda-chuva extra-largo, desses que são capazes de servir até de para-quedas, quando dobro a esquina e vejo um casal encolhido sob um guarda-chuva que talvez tivesse um terço do tamanho do meu, talvez fosse até menor que uma sombrinha, tinham aparência simples… Pensei que, de nós todos, fosse eu o com mais sorte ali.

 Não era… Observei-os: Ele era de estatura média, ombros retos, mas cabeça curva, usava óculos com aros, tinha cabelos que já começavam a ficar grisalhos e sua pele parecia fina, entretanto seu olhar para a parceira era tão sincero, não como quem vê o Sol pela primeira vez, e sim como que vê a realidade, os defeitos e as qualidades sem ignorar nada, como se, naquele gesto insignificante de olhar, dissesse “Eu sei quem você é, não perdoo seus erros, nem a endeuso por suas qualidades, mas eu a reconheço como mulher, admiro suas escolhas e, enquanto for assim, estarei aqui”.

Ela usava uma touca e roupas brancas, talvez fosse cozinheira de alguma marmitaria ali perto, tinha ombros igualmente retos, era mais baixa, porém sua cabeça se mantinha erguida. Devolvia o olhar com igual intensidade, falando alguma coisa que a minha audição não era capaz de ouvir, como se estivesse assumindo tudo que tivera vivido e desmascarasse qualquer pensamento que o parceiro poderia ter, escancarava a realidade e dela nada exigia se não que ela fosse exatamente o que era, sem hipocrisias, mentiras enganações… Ela se entregava ao homem que parecia ser seu marido, não como quem se entrega perdidamente, e sim como quem sabe que ninguém pode ajudar efetivamente ninguém e que, portanto, o valor honesto de uma companhia é supremo, apesar de não ser vital. Pareciam ser livres do romantismo, mesmo este estar envolvendo-os.

Ambos aparentavam ter por volta dos quarenta anos e carregavam as marcas de uma vida que nunca fora fácil, embora expressassem uma felicidade erudita resignada a uma existência que não era a mais digna; a uma razão que não ara a mais brilhante; a uma alegria que não era a mais extrema…. Existiam unicamente para aquilo que faziam, pensavam unicamente naquilo que a situação exigia, alegravam-se com qualquer coisa e nada mais era necessário para serem humanos… Havia ali uma contradição tão agressiva a tudo que eu acreditava, como aqueles dois podiam ter tão simplesmente chegado a tal conforto psicológico sem todo o trabalho de uma vida de estudos levada ao máximo da exigência da capacidade, coisas que me são tão sagradas?

Era muito simples… Encontraram o lugar que lhes era reservado no mundo e, ali, encaixavam-se perfeitamente, tão perfeitamente que nem a chuva, nem o sofrimento, nem o mundo, nem eu podíamos fazer qualquer diferença, uma vez que aquele era o espaço deles em qualquer realidade, eles eram um absoluto que se repetiria, não importando os fatos; eles sempre estiveram, estão e estarão naquele pequeno espaço abaixo de um guarda-chuva, de um guarda-almas que os colocava em uma vitrine, como uma obra de arte, diante de mim…

Meu guarda-chuva passou a menos de um metro deles. Não perceberam a minha presença. Fui embora… Repensei, por aqueles poucos segundos senti que alguma coisa neste universo estava certa, e remoí o sentimento de vazio sem conseguir encarar o espaço limpo a minha volta que eu mesmo, cuidadosamente, escolhi quando comprara o maior dos guarda-chuvas da loja. Concentrei a minha vista nos meu passos e segui sabendo que nem toda minha consciência, ou meu futuro, ou qualquer coisa que eu me orgulhasse de ter, seriam uma moeda nobre o suficiente para comprar o meu lugar no mundo… Tem sido um trabalho difícil viver preenchendo todo esse espaço, mas vocês dois, seja lá onde estiverem agora, são meu combustível! Obrigado por me mostrarem que clichês podem existir realmente, espero um dia ainda encontrá-los, mesmo que seja no absoluto.

Um microconto (por Claus P. Neto)

Bom dia, noite, tarde ou o raio que o parta. Enfim, semana passada eu compartilhei um pequeno poema, então decidi hoje me voltar para a prosa. O texto é pequeno (acho que esse comentário vai ser maior que o texto), mas tenho um motivo muito nobre pra faze-los perderem o seu tempo para ver um conteúdo tão ralo: hoje começaremos também a publicar nossos textos via Facebook (http://www.facebook.com/MafiaDasLetras?ref=ts&fref=ts), o que exige um formato menor, já que praticamente ninguém tem paciência de ler posts muito longos. Prometo que será a última vez que farei isso. Como sempre, sinta-se livre para comentar o que você achou desse material medíocre.

Sobre o desprezo

Menosprezava o garoto. Xingava, diminuía, falava pelas costas, jogava pedra, jogava bosta no pobre rapaz. Mas no íntimo da moça, aqueles olhos da cor do céu, onde ela cuspia, haviam-na cativado, instantaneamente, irreversivelmnte, definitivamente.

por Claus P. Neto