Luto! Lutas? Lutamos!?

Luto! Lutas? Lutamos!?

Olá, mafiosos leitores deste vasto minúsculo universo! Bom, levando em conta que isto aqui, querendo ou não, é um veículo midiático, me sinto responsável por expressar algumas palavrinhas a respeito das coisas que acabam ocupando muito espaço nos jornais e etc, portanto farei uma breve crônica esta semana.

Quero falar do incêndio da boate em Santa Maria, mais precisamente de Justiça. Os crimes são pagos diante da lei e os pecados diante de Deus (ou Deuses; ou Ninguém – para os leitores politeístas/agnósticos e ateus) e para cada pagamento uma pena. Mas acontece que na dita cidade hordas de furiosos universitário e jovens de toda estirpe cobrem os soluços dos parentes e amigos, que realmente perderam alguém, com dois gritos: luto e justiça.

Não acho que saibam o significado delas. Quando ouvi “luto” pela primeira vez foi quando vi uma velha de preto chorando, perguntei à minha mãe o porquê ela chorava, “Está de luto, meu filho”, “E Ela luta contra o quê?”, “Contra o futuro, o passado e o presente”. E assim eu tomo esse o significado verdadeiro da morte: ter que se acostumar a viver sem alguém, sabendo de todos os erros que levaram ao fim e se preparar contra eles o melhor possível. Estar de luto é encarar isso de frente e na própria pele.

Porém banalizaram bastante isso, a ponto de até mesmo o google ficar de luto. Será que o site sentirá tanta falta assim deles? Será que sabe ao menos quem eles eram além de um endereço de IP? Será que o site se sentirá aflito por todos aqueles que saem para dançar e beber em boates? Vocês sabem que não… E esses que gritam e protestam sabem que daqui a alguns anos vão esquecer esses mortos, sabem que os gritos vão se silenciar e só sobrarão soluços e choros dos que realmente têm uma lembrança e um fantasma para velar.

A minha teoria é que eles gostam de dançar e cantar diante das câmeras. O Quê acaba atraindo uma escumalha repórteres para cima dos parentes a fim de flagrarem todas as lágrimas para serem exibidas em horário nobre. Mas a cereja do bolo é outra: Justiça. Escrevem em cartazes, picham até isso no muro da boate, tudo para serem vistos. Mas querem mesmo é vingança. Um erro comum entre duas coisas paralelas, mas que têm objetivos distintos.

Se quisessem justiça pediriam mais do que a cabeça do dono do lugar, pediriam a cabeça dos pais que deixaram filhos menores de idade irem a esses lugares, do segurança que deixou entrar, do barman que vendeu bebida, muito provavelmente do cara que tinha droga, também do pedreiro que aceitou construir um lugar sem saída de emergência, do arquiteto que projetou assim, do engenheiro que fez uma armação vagabunda, do fiscal que deu o alvará de funcionamento, daqueles que mataram vária pessoas pisoteadas enquanto fugiam do fogo, das escolas que nunca se preocuparam em dar treinamento para casos como esse… Mas aí não teria uma vítima em específico, não teriam também uma figura malévola para expiar por todos os crimes.

Uma coisa interessante sobre julgamentos: O dano causado possui sempre duas intensidades, a de quem causa e a de quem sofre. Por exemplo, um amigo quebra meu relógio, para ele o dano que causou não passa de alguns reais que podem ser perdoados por não tê-lo feito com intensão, mas para mim é um relógio insubstituível, o primeiro que eu tive, ganho quando eu tinha 15 anos e que não trocaria por nada. Vê? Mas como pode ser um julgamento justo se um milhão de gralhas ficam crocitando e fazendo eco a dores que não são suas, aumentando uma dor que não lhes pertence?

Disse mais do que devia, escrevi mais do que queria. Mas o ponto disso tudo é que não nos cabe tomar parte em uma luta que é pessoal. Se eu vejo pais que perderam filhos, eu vejo dor e não há a necessidade de incomodá-los para vingar suas crianças e mostrar isso para todos. Estaríamos em melhor estado se clamássemos por mais diligência no cumprimento das leis que dizem respeito a nossa segurança e não à condenação de um cara que, apesar de merecer punição, não é um assassino por vontade.

A lenda do rio dourado parte V – por Claus P. Neto

Boas Noites. Como meu caro colega, devo desculpar-me pela demora em entregar o texto, muito embora minhas razões não sejam tão plausíveis. A verdade é que devido a alguns eventos peculiares nesta tarde eu me esqueci de publicar o texto, mesmo que ele já estivesse escrito. Lamentável, confesso, e tentarei limpar minha consciência desse evento, mas isso demandará tempo, lágrimas e uma galinha chamada Joey. Fiquem com o texto. Não se esqueçam de nos curtir no facebook, espalhar pros seus conhecidos, comentar, blá, blá, blá, o de sempre. Boas Noites.

A lenda do rio dourado parte V

No dia seguinte, Marsahabal ainda estava absorto em como chegar a Erúlia. Não se importava mais com Farzana como antes: ela era como um prato de prata, que apesar de belo desgasta-se,  fica manchado e empalidece diante do ouro. Ela percebeu a diferença de tratamento. Passou a ouvir dele, antes tão cortês, palavras ásperas, e ordens de serviço mais pesado. Ele passou a não lhe dar atenção, pelo menos não como antes, e se ela tentava conseguir a antiga afeição ele a repelia, irritado. Para a escrava, isso era no mínimo desastroso. Não que tivesse afeto verdadeiro pelo patrão, mas sabia que enquanto estivesse nas suas graças, teria uma vida boa, pelo menos relativamente. Desde sempre soubera usar sua inteligência e sua beleza para conseguir o que queria, e ver que agora esses artifícios não mais estavam funcionando era preocupante. E de fato sua vida piorou substancialmente.

Tudo isso se devia à natureza de seu amo: se era capaz de se apegar e desapegar rapidamente, enquanto queria algo ficava obcecado por isso, e não via como ter o seu objeto de desejo: Erúlia. Seraquinão, apesar de distante, era cuidadoso com a esposa, e mesmo os servos que a acompanhavam eram de sua extrema confiança. Era difícil aproximar-se dela sem um bom pretexto, e se simulasse um novo encontro casual, isso seria visto como suspeito pelos escravos. Marsahabal, por mais que tentasse, não conseguia conceber um plano para se aproximar dela. Sabia que o irmão era muito mais esperto que ele, e seria difícil engodá-lo. Em casos como esse, geralmente consultava Farzana, mas tendo em vista as circunstâncias, sabia que não devia fazê-lo. Sua frustração só se equiparava ao seu desejo, e isso o consumia por dentro, de modo que seu humor, antes leve, tornou-se azedo, e uns chegavam a dizer que perdera a beleza, tal era a perturbação do seu semblante. Até o governador percebeu a mudança, e apesar das várias tentativas do poderoso da cidade para ajudá-lo, nada revelou, nem aceitou ajuda.  

Um dia, no entanto teve uma ideia. Após sair do palácio de Ashteri, foi à sua casa. Tomou uma placa de argila, escreveu com rapidez um recado, enrolou a argila ainda meio molhada num pano e correu ao mercado. Erúlia costumava voltar do bazar por volta daquela hora, e ele correu o máximo que pôde para ainda encontrá-la. Viu-a na saída do bazar, e apesar de sua pressa não pôde evitar e parou um pouco para olha-la melhor. Não sabia se era possível, mas ela estava ainda mais bonita que da última vez em que se viram. Seu vestido vermelho contrastava com a pele morena e os olhos dourados faiscavam contra o sol que morria atrás das colinas. Seu cabelo negro ondulava por sobre seus ombros, acabando no meio de suas costas, e vinha solto. Quando voltou a si, Marsahabal viu que estava sem os cridos, ou pelo menos não se podia vê-los. Já estava quase saindo quando ele a interceptou.

Ela abriu um sorriso radiante ao vê-lo, muito embora visse que estava desgastado, abatido. Após uma rápida troca de palavras, ela lhe contou que despachara os criados com as compras na frente, pois queria apreciar o mercado com um pouco mais de calma. Ele assentiu, e perguntou-lhe se ela tinha esse hábito, ao que ela respondeu que não. Ficou o moço então um pouco mais apreensivo, pois essa era uma situação desejável, da qual ele queria tirar proveito mais vezes. Não obstante, ele logo se recompôs, e entregou-lhe o recado, dizendo que queria que fosse entregue a Seraquinão, com os seus pedidos de desculpa por não poder entregá-lo pessoalmente, e avisando-a para não abri-lo, bem como para manter segredo: somente o seu irmão poderia lê-lo. Uma sombra de desapontamento passou pelo rosto da jovem, mas ela foi hábil em esconder o que sentia. Separaram-se. E ela, enquanto andava pelas ruas da cidade, não podia acreditar que sua sorte era assim tão ruim. Sabia (ou supunha) que tinha a atenção de Marsahabal, mas depois daquele encontro, em que ele aparentemente só havia se aproximado dela para usá-la como mensageira, a dúvida se apoderou dela. No entanto não foi só a dúvida, mas sim a curiosidade. Ela era ingênua demais para perceber a estranheza da situação, mas o modo como ele havia feito questão do sigilo do recado…aquilo lhe atiçara o desejo de saber o que havia no bilhete.

Claro, sabia que o esposo tinha negócios particulares com o irmão. No entanto, sempre supôs que não fosse nada sério, ou pelo menos nada que não pudesse sair das quatro paredes. Ver o quanto Marsahabal ficara apreensivo e nervoso ao lhe entregar a mensagem começou despertar suspeitas nela. Assim, escondeu a placa de argila e o pano nas dobras do vestido, e o mais rápido e discretamente que pôde foi ao seu quarto. O Sol já havia se posto e ela, depois de despachar os criados, acendeu uma lâmpada de bronze. Apesar de tola, Erúlia era letrada, ensinada pelo pai, mesmo que em segredo. . Rapidamente descobriu a placa de argila. Estava borrada em alguns pontos por não ter secado direito. Mas a mensagem era clara. Ela ficou olhando fixadamente para as linhas, lendo e relendo, embasbacada. E seu rosto abriu-se em um amplo sorriso. A mensagem dizia: “Erúlia, após nosso primeiro encontro não pude tirar a sua bela imagem de minha mente. Conheci várias mulheres de beleza que só se encontra em lendas, e ainda assim, a memória delas empalidece quando vejo seu rosto ou penso nele. Por favor, desejo muito encontrar-me com você. Avise-me como e quando e onde, e eu irei”. Ela então começou a pensar em como atender ao pedido do homem, com o coração cheio de alívio e alegria. O plano de Marsahabal havia funcionado. 

Continua…

Por Claus P. Neto

Diário de bordo de um irlandês perdido III (por Aton)

Olá! Espero que vocês estejam querendo me enforcar por este mortal atraso, pois caso contrário me decepcionaram muito, portanto curtam nossa página do face, sigam este blog e comentem tudo que pensarem e serão perdoados! Bom, infelizmente uma coisa que não se prevê nos prazos é o bloqueio criativo, mas é hoje que realmente começa tudo nesta história, então espero que este atraso seja compensado pelo texto. Aqui seguem as outras partes: parte I; parte II

Diário de bordo de um irlandês perdido

Parte III

Talvez seja março, embaixo de um arco-íris.

O maior arco-íris que já vi na minha vida paira sobre a minha cabeça. Parece uma verdadeira ponte no meio do céu limpo. Encontrei-o no final da tempestade. Mas os finais nunca são felizes ou tristes. Acontece que ali era o começo do arco, pois, se ao final dele, um homem pode encontrar um Gnomo e seu pote de ouro, onde eu estava era justamente o contrário e um bando de seres minúsculos escorregaram pelo céu e caíram no meu barco. Cada um roubou uma garrafa de bebida minha, menos a que tinha mijo, e desapareceram em seguida. Agora eu vou ter que seguir viagem forçadamente sóbrio. Mas antes devo escrever o que ocorreu na tempestade

O céu era tão negro e tão fechado que se perdia a noção dos dias dentro da tempestade. Uma confusão de ventos e ondas me jogaram de um lado para ou outro até que, por fim, perdi meu leme… Um esquife sem remos, sem vela e sem leme: um verdadeiro caixão! Pouca coisa podia ser vista lá dentro, mas os flashes soltados pelos relâmpagos iluminaram algo, algo enorme, maior do que qualquer navio. Eu acho que era um animal, talvez um dragão do mar, se isso for capaz de existir. Mas a “coisa” se movia cortando o mar como se estivesse cortando papel. E dois grandes chifres em forma de galhos saiam da sua cabeça e se elevavam acima do nível das águas.

Estava eu amarrado ao pequeno mastro para não ser lançado para fora. Desatei os nós, fiz um laço e tentei a sorte no próximo raio. Errei. O mundo parecia balançar e então cai no oceano mortífero. A coisa se virou e engoliu eu e meu barco, que, por milagre de uma vela rasgada, prendeu-se nos dentes enormes do bicho. Consegui reunir tudo de importante num baú (duas rodas se queijo, pão velho, o diário, a tinta e sete garrafas de bebida) e amarrei tudo num dente fora do alcance da língua.

A porcaria da boca enchia-se de água de tempos em tempos e sem aviso. Mas uma hora quando o oceano entrou, suas águas já não estavam negras, mas azul refletido de um céu claro e com Sol. Soltei tudo da presa da “coisa” e arremessei uma roda de queijo na úvula. Errei. tentei com a outra, errei. Por fim uma garrafa acabou acertando a hedionda bola de carne pendurada na entrada da gargante e eu fui expelido junto com o vômito do animal. E, por sorte, o monstro teve a delicadeza de fazer acima do mar.

Ele foi embora e  meu barco continua a seguir em frente sozinho, no entanto o horizonte parece diminu… F**** aquilo é uma cachoeira no meio do oceano!

Aton

A lenda do rio dourado parte IV – por Claus P. Neto

Boas tardes a todos.  Após algumas provações particularmente difíceis, sinto-me consideravelmente melhor e mais apto a continuar com meus textos e meu pedantismo.  Observando melhor, sinto que essa narrativa está indo num ritmo muito mais lento que o esperado/previsto, e eu temo que a coisa continue assim. Desse modo, peço a todos paciência. Quando eu ver que a coisa está chegando a um ponto muito cansativo eu vou tentar alternar com algum outro texto. Também vou começar a colocar posts mais longos que o usual, e peço novamente paciência. Creio que a história está em um ponto em que é impossível prosseguir sem ter lido pelo menos a parte III. Se você quiser, os links para as outras duas páginas estão no corpo da parte III. Por ora é só. Os meus recados de sempre, vocês já sabem quais são, mas não custa repetir: “Comentem o texto, curtam-nos no facebook, espalhem para os amigos, etc”. Agora já me vou, que um almoço decadente me chama, e posto a minha atual situação, não posso me dar ao luxo de escolher coisa melhor. Boas tardes.

A lenda do rio dourado parte IV – por Claus P.  Neto

Quando Marseha morreu, já avançado em anos, Seraquinão herdou e assumiu os negócios, ampliando-os. Muito embora não negligenciasse o irmão, devido à sua estreita relação com Ashteri, não gostava dele, e fez questão de alugar uma casa própria para ele na extremidade da cidade, bem longe de sua própria residência. Vendo também que a instável vida do irmão em relação às mulheres poderia atrapalhar as suas relações com o prefeito da cidade, desfavorecendo-o, tentou, sem sucesso, casa-lo. Um dia, no entanto, enquanto vasculhava um lote de escravos, chamou-lhe a atenção uma moça. Vinha das montanhas da Síria e chamava-se Farzana. Ela era uma moça encantadora, com tez clara contrastando com cabelos escuros e ondulados. Seu corpo era bem esculpido e seu rosto tinha formas perfeitamente alinhadas. Sua boca era carnuda e vermelha, seus olhos castanhos como madeira nobre e toda ela transpirava sensualidade. Sentiu-se imensamente atraído por ela, mas como temia pela estabilidade de sua casa, visto que já era casado com Erúlia no tempo, logo teve a ideia de presentear Marsahabal com ela. Certamente ele repararia nela e isso talvez diminuísse seu interesse por outras moças da região, algumas até casadas. O plano deu certo, e por um bom tempo Marsahabal não se interessou por nenhuma outra mulher. Viu-se logo que Farzana também era inteligente, e administrava a casa de Marsahabal com maestria, de modo que em pouco tempo ele lhe confiava tudo o que tinha, a despeito dela ser uma escrava.

Aconteceu, no entanto, que um dia Erúlia estava com seus servos no mercado. Apesar de seu marido ser imensamente rico e não poupar em luxos e presentes com ela, ela mesma gostava de sair às ruas, comprar suas próprias coisas, escapar de casa. Mal sabia ela que boa parte do que pegava era vendido pelo esposo, que poderia com facilidade dar-lhe algo melhor, mas Seraquinão, apenas por delicadeza, nunca o mencionava, deixando-a acreditar que era capaz de fazer boas pechinchas. Erúlia era uma bela moça, muito mais nova que Seraquinão, no entanto tola e fútil, sem nada do tato e da astúcia do cônjuge. O marido perdeu o interesse romântico provocado pela sua beleza em pouco tempo devido à sua personalidade fraca, e se continuava casado com ela, era porque os negócios com o sogro eram muito lucrativos para o mercador. Assim, Erúlia gostava dessas escapadas, que a algum tempo eram a única forma de escapar da monotonia da casa, já que o marido não prestava atenção a ela ou aos seus deveres conjugais.

Estando então ela no bazar, acabou encontrando-se com Marsahabal. Conhecia o cunhado, muito embora apenas de vista, já que todas as vezes que ele os visitava era para discutir com Seraquinão a respeito de assuntos particulares, e aparentemente seu esposo fazia questão de que não se encontrassem. Passaram um pelo outro, e após uma rápida troca de amabilidades, cada qual seguiu seu caminho. Foi então que Erúlia percebeu, entre outras coisas, o quanto ele era belo. Nunca o vira senão de relance, mas agora via de forma direta que a sua beleza, que pelos comentários das fofoqueiras era lendárias, não decepcionava a reputação que a precedia. Não pôde deixar de compará-lo ao irmão, não só em aparências como também em atitude. Mesmo em um curto cumprimento, ele conseguiu ser mais que polido: transmitiu empatia, amabilidade, doçura. Imediatamente ficou fascinada, mas tratou de seguir seu caminho, e naquele dia não comprou nada.

Marsahabal também reparara em sua cunhada. Apesar de estar fascinado com Farzana, nunca fora de se apegar muito tempo a uma mulher só, e Erúlia, apesar de menos inteligente e sensual, era definitivamente mais bonita. E mesmo temendo o que seu irmão poderia fazer, também o detestava, e começou a planejar. 

Continua…

Por Claus P. Neto

Diário de bordo de um irlandês perdido II (por Aton)

Saudações, devoradores de livros! Há três esclarecimentos para serem feitos a respeito deste conto: 1)A personagem principal possui algumas ideias “tortuosas” que não devem servir de exemplo para ninguém, ok? É só que alguém que viveu a maior parte da vida no mar e viu coisas abomináveis nem sempre é uma flor de pessoa…; 2)O tempo em que se passa a história. Os relatos dizem que houveram expedições em busca da Hy Brazil do sec III ao XIX, e contando que os Celtas surgiram por volta de 2000 a.c., há um pequeno intervalo de 3800 anos onde poderia se situar este conto, portanto resolvi não escolher nenhum, ou melhor, todos… vocês verão costumes de uma época misturados com tecnologias de outra e etc… 3) Como muitos meses, regiões, países e povos trocaram de nome durante todo esse tempo, decidi misturar esses nomes também, mas seguindo tendendo para as nomenclaturas atuais. Na hora vocês saberão 😉

Bom, a leitura é rápida e fácil, de forma que terá sempre uma pequena recapitulação, uma descrição da viagem e uma passagem da vida da personagem, sendo bem simples de se situar. Mas eu aconselho ler todas as partes. Parte I

Diário de bordo de um irlandês perdido

Parte II

Creio que seja metade de fevereiro, ainda no meio do nada.

Não escrevo a três dias, sendo este o meu oitavo dia de viagem e meu segundo relato. Para compensar a primeira semana sem nenhuma mísera brisa, fui abençoado com um vento infernalmente forte que me manteve acordado (e sóbrio) por duas noites tentando controlar o balanço desta coisinha minúscula com a qual eu navego para que eu não fosse arremessado para fora. Mas o vento virou tão bruscamente na última noite que me  rasgou a maldita da vela. Navego sem remos e sem vela… Parei para escrever pois uma tempestade se aproxima, ou eu me aproximo dela… Parece que alguma corrente me empurra para frente, apesar de nunca ter visto uma na superfície do oceano… Não quero molhar este diário, portanto escrevo antes que a chuva chegue.

Aquelas nuvens negras no horizonte se parecem exatamente com as que eu vi quando percorri este caminho oito anos atrás. Têm o mesmo formato: o de dois dragões enrolados ao redor de montanhas elevadas soprando rajadas de fogo negro que se cruzam. aqueles eram dragões celtasQuando passei por aqui oito anos atrás, ou foram dez? Talvez doze… Quando passei aqui, era membro de um navio chamado Caçador de sonhoscapitaneado por um corsário que se intitulava “rei das águas negras”, mas que podia facilmente ser confundido com um bardo. As águas negras, distantes ou de monstros é como ele chamava o oceano aberto e sem dono. Ele enganava os tolos reis “do continente” falando de terras além mar com as quais ele comerciava e cantava canções que ele mesmo compunha sobre monstros inexistentes e outras mentias. Mas tudo que fazia era ser um “pirata-real” gastando todo dinheiro das coroas que o financiavam com prostitutas e bebidas. Quando tínhamos que retornar ao continente, saqueávamos tudo que podíamos e revendíamos para os reis de verdade… Era uma vida boa.

Servi ao “Águas negras” desde os meus doze anos, quando meu pai morreu. Mas aquele dia em que se acovardou e fugiu da ilha dos mortos, Hy Braesilmatei-o… Nunca me esquecerei dele acenando na praia dourada, com meu punhal ainda fundo no peito, enquanto a tripulação me amarrava e tornava a fugir. Quando navegamos para trás pela primeira vez, seguimos este caminho, que eu agora faço nesta porcaria de esquife, por quase três meses… Mas a volta durou para mim apenas uma noite. Acordei ainda amarrado no mastro principal, enquanto todo o restante da tripulação jazia em putrefação por todo lado e o sangue seco pintava o Caçador de sonhosque estava docemente amarrado no porto de minha cidade natal. Desde então sou eu o  rei Águas negras II. Pelo menos era  até alguns dias atrás…

Infelizmente não tive o dom de fazer canções para fazer com que os continentais me entregassem seu ouro e suas mulheres de boa  vontade, porém muitos bêbados, maltrapilhos, oportunistas, ladrões e assassinos quiseram ajudar o capitão que foi capaz de retornar da morte e lutar sozinho contra uma tripulação fantasma, vencer sem ajuda um motim e ainda retornar com um navio de ouro! Outra vez ouvi dizer ainda que eu era filho do próprio inferno… Desmentir não me ajudaria muito, não é? Chuva!

Aton

A lenda do rio dourado parte III – por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Passei por alguns contratempos que me impediram de escrever essa semana, mas a essa altura a história já estava bem adiantada, de modo que vocês nada têm a temer. Tentarei dar prosseguimento à narrativa até ela acabar de modo direto, mas a história pode ficar longa, se as minhas previsões (e as de minha cartomante) estão corretas, para que ela chegue no ponto em que eu quero sem ficar rasa demais. Hoje a lenda efetivamente começa (perdão por não tê-lo feito semana passada, mas eu não vi como poderia amarrar tudo, a lenda e a história de sua descoberta de maneira eficiente). Se você não leu as duas primeiras partes, é altamente recomendável que você as leia, muito embora elas sejam um álibi para dar mais sabor à trama principal. Você pode acessa-las nos links a seguir: Parte I, Parte II. Aproveitem pra comentar, se quiserem, e curtir a nossa página do facebook (é só clicar na opção curtir na caixinha cheia de carinhas lindas à sua esquerda). Boas tardes.

A lenda do rio dourado parte III

A história contida nas placas era essa:

As bodas de Seraquinão, filho de Marseha, com Erúlia, filha de Queurin, foram comemoradas ao ano 22 do reinado de Hamurabi. Após a suntuosa cerimônia, diz-se que os noivos entraram numa balsa de cedro, ricamente decorada com linho fino com detalhes em ouro e desceram o Tigre, cortando toda a província da babilônia desde a cidade natal da noiva, Ursak, no extremo norte do império, até Barkel, ao sul, onde morava Seraquinão. Ora, Seraquinão e Queurin eram dois dos mais ricos comerciantes do império, homens muito prósperos e que mais de uma vez já haviam sido parceiros em negócios. A aliança, assim, era proveitosa para ambas as partes como um símbolo de amizades entre os dois negociantes. O comércio entre as duas casas aumentou e ambas encheram-se de grande riqueza. É contado que nunca houve em toda Babilônia, com a exceção do rei, homem mais rico que Seraquinão, que negociava tanto entre as províncias locais como por toda a extensão do Indo, Egito, Cuxe, Palestina, a terra dos Hititas e várias outras regiões distantes. Comerciava desde especiarias a animais exóticos, de cedro do Líbano a algodão da Índia, de sacas de trigo a jarros cheios de vinho: se podia ser vendido, ele comerciava. Sua casa era uma das mais esplendorosas da região, conhecida por seus jardins, suas fontes e principalmente pela sua sacada, à beira do Tigre, que cortava a cidade, que o permitia ver uma das vistas mais bonitas da mesma. Sua riqueza somente se comparava à sua deformidade, pois quando criança comenta-se que puxou uma panela com água quente em seu rosto, e somente devido a Galamel, o melhor médico da província, é que ele conseguiu sobreviver. Compensava a feiura, entretanto, com inteligência e sagacidade incomparáveis, e diz-se que nunca houve um problema matemático proposto a ele que ele não tivesse resolvido. Além de culto era esperto e inescrupuloso, e desde pequeno se valia de sua esperteza para conseguir o que queria.

O pai, também comerciante, logo percebeu o talento do rapaz e o colocou para trabalhar cedo. Embora sua aparência fosse desagradável à maioria dos clientes, seu carisma logo os conquistava, e as vendas começaram a aumentar. Em pouco tempo, o palacete e a riqueza da família já eram maiores que os do governador da cidade. Como a cidade prosperou com o sucesso de Seraquinão e Marseha, logo a eminente autoridade afeiçoou-se à família, e os negócios só melhoraram. A amizade cresceu tanto que o governador, Ashteri, consentiu em empregar o filho mais moço de Marseha, Marsahabal, como copeiro. Isso não era pequena coisa, nem mesmo algo indigno, pelo menos para o pai, dado o caráter do rapaz.

Marsahabal sempre foi o favorito da mãe, juntamente com todos da cidade. Tinha o mesmo carisma que o irmão, embora não tivesse a mesma inteligência ou olho para os negócios. No entanto, aliado ao seu jeito com pessoas estava uma beleza rara: Marsahabal era um dos rapazes mais cortejados (e cortejadores) da cidade devido à sua boa aparência. A discrepância em relação ao seu irmão somente realçava a sua própria beleza, e todos o admiravam. No entanto, invejando o sucesso do irmão, e de luto com a morte da mãe (que morrera quando este tinha 16 anos), o rapaz se atirou de vez a um estilo de vida devasso, entregue a bebedeiras e meretrizes. Este podia ser sustentado facilmente pelo pai, visto a sua crescente riqueza, mas trazia embaraço e desonra à família, coisa que o patriarca nunca aceitou. Desse modo, um emprego como criado na casa do governador era não somente um castigo, mas também uma lição ao ocioso garoto sobre o valor do trabalho. Havia também uma outra vantagem, desta vez para o lado do governador: era preferível que um rapaz de uma casa amiga o servisse do que um escravo, o que diminuía as chances de assassinato, já que ele não era um líder muito bem visto pelo povo ou por outras casas nobres. Ainda assim, o carisma de Marsahabal mais a sua beleza fizeram com que este caísse nas graças de Ashteri e de sua mulher, em especial dessa última, de modo que os homens se tornaram amigos e confidentes.

Isso estreitou ainda mais os laços da família com o poderoso, e não raro Marsahabal era o responsável pela comunicação entre os dois grupos. Isso não era bem visto por Seraquinão, que ironicamente invejava a beleza do irmão, que por sua vez cobiçava seu dinheiro e sucesso. No entanto isso melhorava o relacionamento entre as casas, e portanto os lucros, de modo que seu pai, antes desgostoso do filho mais moço, agora o tinha quase como favorito. 

Continua…

Por Claus P. Neto

Diário de bordo de um irlandês perdido I (por Aton)

Olá, criaturas da madrugada que ficam desde a meia noite atualizando nossa página para ver um novo texto surgir! Vocês poderiam assinar o nosso blog ali embaixo para receber atualizações direto no seu e-mail, além de curtir  nossa Fanpage do facebook… Mas eu sei que querem ser os primeiros a ler, porém é muito importante que façam isso para que a nossa máfia cresça!

Bom, segue hoje um novo conto meu a respeito de um mito pouco conhecido, mas muito interessante: O mito de Hy Brazil. Claro que com muita invenção de minha parte. Espero que gostem. Este conto estará dividido em algumas partes, talvez quatro ou cinco. Talvez um pouco menores que o normal, mas MUITO mais dinâmicos. Comentem o que acharam, isso também é importante.

Diário de bordo de um irlandês perdido

Parte I

Algum dia de fevereiro, no meio do nada.

Cinco malditos dias sem vento. Céu limpo durante todo esse tempo. Não avancei mais de dez metros.

Infelizmente só encontrei essa porcaria de diário hoje, mas é a única companhia que pareço ter neste maldito esquife sem remos! Malditos sejam esses porcos do mar! Enfim, não tenho nada melhor do que fazer além de aguardar a morte, então vou escrever uma parte da minha vida, só pra satisfazer esse meu ego meio celta, meio druida e meio uísque.

Por trás do espelho da morte

há de alguém ter a sorte

de poder navegar para trás

e redimir-se em ouro, bebida e paz!”

Lia esses versos com a ganância de um gnomo sobre seu tesouro. Era jovem, meu pai acabara de falecer e minha única herança eram esses versos, tão porcamente gravados ao lado de uma pequena ilha em um mapa tão antigo que era desenhado sobre couro desbotado de ovelha! Ao leste da ilha um grande abismo negro cortava tudo de norte a sul com uma legenda em letras amigáveis no meio da escuridão: “Fim do mundo”.

“Hy Braesil!” pensei. Era a terra do senhor dos mortos, do último druida, do uísque sem ressaca, das festas eternas, do prazer, da luxúria e de todo o resto que esses religiosos dirão que é ruim, ruim não, mau. Mas esse lugar me pertence! Minha mãe sempre me contava estórias do povo de Avalon… Meu povo, aquele que desapareceu para sempre nas névoas. Meu pai era celta, minha mãe druida e eu era só um ajudante de carpinteiro de navios. Mas ela costumava dizer que “o sangue não morre, adormece”, algo que eu demorei muito para entender… assim como demorei para entender o que eram estorias de criança e o que era história.

Quando herdei esse mapa, logo parti como parte de uma tripulação de “aventureiros” em um navio de exploradores. Mas eram só sanguessugas de algum rei do continente, gastando todo o ouro que lhes era dado com bebidas e vagabundas a meio mundo de distância dali. Porém sanguessugas com sorte… Há quem diga que Hy Braesil não possui lugar fixo e que vaga pelo mundo a procura de almas penadas. Outros acreditam que ela atrai aqueles que a procuram até lá. O fato é que ela sempre desaparece quando um navio se aproxima…

No entanto ela apareceu para nós, isso foi a uns oito anos? Ela apareceu e aquele covarde deu meia volta. Ele navegou para trás com medo da “Ilha dos mortos” e então estávamos nela! Uma ilha feita de ouro, com o cheiro de álcool mais forte que eu já senti, uma música tão boa e tão alta que a quilômetros da praia ouvíamos e também um calor que parecia impossível usar roupas alí. Mas aquele… Vento!!! Tenho que ir.

Aton.