A lenda do rio dourado parte VIII – Por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Agora eu posso afirmar que estou satisfeito como as coisas se desenrolaram. Foi um longo caminho até aqui, mas a história está (quase) pronta. Foi um trabalho longo e penoso, mas é ótimo ver como tudo acabou. Se o texto não acabou do jeito que eu queria, pelo menos está melhor. Eu ainda vou ter que trabalhar nele para algumas revisões, mas é isso. Se você não viu a coisa por inteiro, cheque a minha seção nas categorias à direita da tela, ou pesquise o título no blog. Comentem, curtam, sigam, o que quer que vocês desejem. Boas tardes.

A lenda do rio dourado parte VIII

No dia seguinte, Marsahabal, ainda descontente com o serviço feito por Farzana (distraída, como sabemos, pelo irmão do amo), partiu para o seu trabalho. Estava distraído, pensando em Erúlia e em como ele poderia se encontrar com ela sem chamar a atenção do irmão. Com a mente assim, ia entrando no palácio quando os guardas o barraram. Por obséquio, ele não compreendeu. Conhecia muito bem a guarda do palácio, havendo inclusive passado muito tempo junto às guaritas com os soldados em seu tempo livre, conversando, bebendo e jogando. Mas eles ainda assim o pegaram, firmes, mas não de maneira cruel, e o levaram pela cidade. Por todo o caminho Marsahabal questionou qual era a razão de tudo aquilo, mas seus captores, impassíveis, não soltaram uma palavra sequer. Ele então começou a prestar atenção por onde os guardas o conduziam. Aos poucos percebeu que mudavam de direção, indo além do rio, mas seguindo as suas margens. Logo viu: era levado ao templo, onde também era comum ocorrerem os tribunais. Imaginou se Ashteri não estaria lá para prestar culto e o queria por perto. Ao chegarem à construção, mais imponente que o palácio do governador e até mesmo que a casa de Seraquinão, ele viu que ao redor do local onde eram realizados os julgamentos havia um pequeno ajuntamento de pessoas. Então, ao chegar perto o suficiente para distingui-las chocou-se: seu irmão estava entre elas. Os guardas agora o amarraram e o levaram perante o juiz. Então tudo ficou claro: ele era acusado de algo. Mas do quê? Além do adultério, não cometera nenhum crime, e ainda assim não fora pego em flagrante, de modo que não podia ser acusado.

Foi então que trouxeram à sua frente um pote. Ou mais precisamente, um vaso. Era belo, entalhado em madeira nobre e marfim, com belos desenhos representando aves e animais do campo. Valia pelo menos dois meses de trabalho. Foi quando Seraquinão deu um passo à frente e confirmou, respondendo ao magistrado, que aquele vaso era seu, o que foi confirmado pelo mercador que havia vendido o vaso e pelo escravo que acompanhara a compra. Pois esse era o mesmo vaso que Seraquinão havia dado a Farzana na véspera. Assim se sucedera: o comerciante havia instruído Farzana a esconder o vaso entre os pertences de seu amo, antes que este chegasse. Antes que ele saísse na manhã seguinte, dois empregados de Seraquinão noticiariam o roubo e Farzana deveria logra-los, afirmando que vira o seu amo entrar com um objeto escondido, escondendo-o no quarto. Quando eles descobriram o vaso, não foi difícil alcançar Marsahabal, que sempre tomara o caminho mais longo para o palácio e intercepta-lo.  

Ao ouvir todas as acusações, Marsahabal olhou para os olhos de Seraquinão. E viu. Viu um brilho quase maligno no fundo daqueles olhos. Um brilho de satisfação, de vingança. E então soube de tudo. Olhando o irmão com um olhar de ódio, começou a lançar impropérios, todos tão baixos que não podem ser registrados. Melhor seria se tivesse se mantido calado: a cólera só contribuiu para a sua imagem de culpado. Ele soube então que não havia jeito. A coisa fora bem arquitetada demais. Não poderia nem mesmo oferecer um álibi decente, pois era bem sabido que ele costumava chegar tarde em casa e que tinha acesso à residência de Seraquinão. No entanto, em meio ao seu ódio, quando estava prestes a ser arrastado para a execução ele teve uma ideia. Levantou-se, e perante a assembleia apelou à justiça dos deuses. Para provar sua inocência ele pularia no rio. Se ele afundasse, já era um homem morto mesmo, e não seria diferente de enfrentar a espada do carrasco. Mas se ele emergisse, a história seria outra. Não somente ele seria inocentado, como também seu acusador seria passível de morte por calúnia. E por mais doce que fosse a perspectiva de vingar-se do irmão, o maior prêmio era que com a morte de Seraquinão, todas as riquezas acumuladas por ele passariam para o parente mais próximo: ele. Lógico que uma parte iria para a viúva, mas como nada impediria a união dos dois, eles poderiam simplesmente se casar. Teve visões dele mesmo não precisando mais trabalhar um só dia na sua vida, com a mulher dos seus sonhos, até morrer em idade avançada.

E Seraquinão também sabia disso. E apesar de todo o seu pulso firme e frieza, não pôde deixar de temer. Seu irmão, inebriado pela vitória quase ao seu alcance, dirigiu-se para o rio num estado quase que de transe. E após tomar fôlego, atirou-se às águas turbulentas e frias. No entanto, a sorte, que sempre havia sorrido para Marsahabal, virou as suas costas para ele, agora que ele mais precisava. O copeiro, extasiado por visões de Erúlia e de ouro esqueceu-se que era extremamente difícil nadar atado como estava. Além disso, também não contou com a correnteza. Esta, extremamente forte, o arrastou para um ponto afastado uns quarenta passos de onde pulara. Nesse ponto, havia um tronco podre, que havia caído quando o templo ainda estava sendo construído, a muitos anos. E lá, por puro azar, justo quando ele estava quase emergindo, ele enganchou o pé esquerdo em um dos galhos maiores. Desesperado, fez força, tentando se libertar. Se estivesse em água parada teria sido fácil se soltar. Mas a corrente empurrava o pé cada vez mais fundo na armadilha natural, e como estava amarrado, não pôde usar as mãos para se libertar. Debatendo-se, com a face a apenas quinze centímetros da superfície, ele gorgolejou, a água invadiu seus pulmões, e seu coração parou de bater. E Marsahabal, filho de Marseha ficou ali, ondulando ao bel prazer do rio.

 Satisfeita a justiça, cada um tomou seu rumo. Menos uma mulher. Erúlia, que havia ido escondida, ficou ali, a olhar o corpo do amante sob as águas por um bom tempo. Mas não chorou. Não lamentou. Depois de ficar ali por quase uma hora, suspirou e voltou para casa. Ficara sabendo do plano de seu marido por meio de uma de suas criadas, mas por causa dele, que insistira em passar toda a noite com ela, não pôde fazer nada. Dormira muito mal, pensando em mil jeitos diferentes de alertar Marsahabal, mas não conseguiu achar nenhum que pudesse funcionar. Resignada, rendeu-se ao sono, que foi turbulento devido ao asco e ao ódio que agora nutria pelo esposo. Chegou a pensar em matá-lo, mas não tinha a fibra para isso. E também, em sua mente pequena, consolou-se ao pensar se tudo isso não seria um mal entendido, que seria logo resolvido. Agora que vira que a maquinação de Seraquinão dera certo, nutria por ele um ódio ainda maior, misturado com a raiva de si mesma por não ter feito nada.

 Ao chegar ao palacete, encontrou uma mulher. Dava para ver que fora muito bonita um dia, tanto que ainda conservava uma boa parte da antiga beleza, mas que agora estava mais apagada. No entanto os olhos, verdes como esmeraldas, brilhavam com inteligência. Desgostou automaticamente dela, mesmo sem saber a razão. Isso porque ela era ninguém menos que Farzana. Quando Marsahabal morreu, seus bens, incluindo a escrava, passaram a ser de Seraquinão, que a libertou. Esse fora o combinado entre eles, quando arquitetaram a morte do servo de Ashteri. Ela gostaria de continuar na casa, mas Seraquinão insistiu que ela fosse como sua concubina ao seu palácio, e morasse lá. Apesar de seu gosto por independência, ela não poderia deixar de ser grata ao irmão de seu antigo dono, e como também se sentisse atraída por ele (apesar de sua feiura) ela consentiu.

Erúlia continuou andando até seu quarto, e após dispensar todos os empregados, trancou a porta. E só então chorou por Marsahabal. E assim o fez por toda a tarde, ao ponto de seu semblante estar irreconhecível na hora da refeição noturna, mesmo após ela lavar-se e maquiar-se com capricho. Viu também que Farzana estava à mesa, ao lado de seu marido. Não podia olhar para qualquer um dos dois sem revelar seu ódio. Para ela, foi o jantar mais miserável de toda a sua vida, e se deitou cedo em seu quarto, catatônica. Percebera que aquela mulher era a nova favorita do marido. Mas onde eles haviam se conhecido? Ao refletir nessa questão, ela lembrou-se, das conversas que tivera com Marsahabal, que ele tinha uma escrava. E depois de tudo, ligou os pontos: Fora com a ajuda dela que Seraquinão havia plantado a “prova” que matara seu amante. Seu marido havia matado o homem que ela amava; mais que isso, seu próprio irmão, por uma escrava. Claro, ela sabia que aquilo também tinha relação com o caso que tivera quando o comerciante viajara. Mas ainda assim, aquilo foi a gota d’água.

No meio da noite, após todos terem dormido, levantou-se. Agora que havia triunfado, Seraquinão havia relaxado a guarda sobre Erúlia, e não foi difícil para ela se esgueirar para fora de seu quarto, munida de um odre de óleo. Ela chegou ao salão de banquetes. Ali havia belas tapeçarias, adquiridas no mundo todo. Teve um relance piedade, ao ver a beleza delas. Mas aí lembrou-se de Marsahabal, e ao invocar sua memória, toda a compaixão desapareceu de seu coração. Untando as cortinas da saída principal com o óleo, bem como todas as peças da tapeçaria, pegou uma tocha, que ardia na parede, e ateou fogo a tudo. Ora, o palacete era feito de madeira de cedro do Líbano, e o fogo alastrou-se rapidamente. Dando-se subitamente conta do perigo das chamas, Erúlia correu para o jardim. No entanto, fora tola o suficiente para fechar as grossas cortinas da entrada antes de incendia-las, e ao passar seu vestido ardeu em chamas. Desesperada, tropeçou por sobre o odre de óleo, e então o fogo a lambeu com violência, fazendo-a gritar e debater-se até que, algum tempo depois, parou.

Seraquinão e Farzana acordaram com os gritos dos escravos desesperados e deram-se conta do fogo, que já consumia boa parte da casa. Seu quarto era muito distante da saída, e não havia como eles a atingirem sem passar pelas chamas. Desesperados, eles tentaram em vão achar uma saída. Ao verem a inutilidade de tentar uma fuga, resignaram-se ao seu destino. Abraçaram-se, um ao lado do outro, e esperaram a morte juntos. A fumaça invadiu o aposento, tornando o ar irrespirável. Quando as labaredas vieram consumi-los, já os encontraram mortos.

O incêndio continuou durante toda a noite, e poucos dos que estavam na casa sobreviveram, e mesmo esses traziam marcas das queimaduras. E no meio da devastação, um evento singular aconteceu. Como já foi mencionado, o casarão ficava a beira das águas do rio. Acontece que por capricho, Seraquinão construiu parte dele em cima do rio, numa região sustentada por palafitas altas. E em um desses cômodos que ficavam acima do rio ele guardava o grosso de suas riquezas. Assim, quando o fogo consumiu o quarto, as fundações onde ele estava assentado também queimaram, já que o nível das águas era baixo. Assim, aos poucos as palafitas, lambidas pelo incêndio, cederam ao enorme peso do aposento, e a casa vomitou no rio seus enormes tesouros. Sempre houve muita especulação sobre o quanto Seraquinão era realmente rico. Uns diziam que ele tinha porões do tamanho de cavernas repletos de ouro e joias. Outros, que ele não era mais rico do que Ashteri, ou algum outro grande mercador. Naquele dia entretanto ficou-se sabendo que apesar de exageradas, as conjecturas dos que falavam de quartos cheios de ouro não estavam muito distantes da verdade. Vasos de ouro, moedas, esculturas grandes e pequenas, pratos, escudos, todo tipo de objeto de ouro podia ser encontrado ali. O volume de seu tesouro era tal que de sua casa o rio espalhou-o por vinte quilômetros, e o rio reluzia com a camada de ouro do fundo, que até hoje não saiu. Tal rio virou atração de todas as províncias da Babilônia, e deram-lhe o nome de Rio das águas douradas ou simplesmente Rio dourado. Apesar de tal opulência, ninguém jamais ousou tirar sequer uma moeda do tesouro do rio, pois diz-se que quem o fizer será maldito pelos deuses. Assim, é possível que ele se mantenha assim, a reluzir o ouro maldito de Seraquinão, até que venha o crepúsculo dos deuses.

Continua?

Por Claus P. Neto

Quem sabe uma vez – A aranha que subiu pela parede (Aton)

Bonum noctis! NÃO ENTRE EM PÂNICO, como disse o meu guia espiritual… Por que um conto é de mentira? Por que um tanto gigantesco de filosofia se perde entre os adultos quando está tão claro em contos infantis? Este é um tema sério, então leia bem atentamente, curta nossa página do facebook, siga o blog, comente, divulgue, dance macarena e não use drogas, muito bem? Vamos então… AH! mais uma coisa, use camisinha! Agora é sério, Passarei a escrever de segundas-feiras, devido a problemas de horário. Então até dia 25. Boa leitura!

A aranha que subiu pela parede

Quem sabe uma vez a Natureza não tenha gostado de biologia e decidiu pregar uma peça através dos aracnídeos. Eis um caso de um viúvo de uma Viúva-Negra, ou pelo menos era isso que acreditava. De boa vontade ele entregaria a vida ao amor, a vida que teria passado a seus filhos, e eles aos netos. Mas naquele dia, naquela hora, chovia como se o próprio céu soubesse de toda a desgraça antes que ela acontecesse, sem que pudesse fazer nada, então se desfazia em um pranto desesperado. As aranhas foram separadas pelo vento e sem saber como ele caiu e caiu e caiu… Moravam em uma muralha.

Mas o problema não era a altura gigantesca, e sim a pedra lisa e polida que formava a parede. Isso e a chuva profética que nunca deixou de atormentá-los. O curioso disso tudo, era que todos os macho vieram para um lado e as fêmeas para o outro, todos eternamente condenados a subirem e subirem, mas caírem quando a água vinha.

Não muito tempo se passara até que alguns simplesmente desistiam, soltavam-se, jogavam-se ou paravam de comer. e por muito pouco não se extinguiu a espécie. entretanto um restou. Um que persistia, não porque era o mais forte, não porque queria ser lembrado, mas porque valia a pena. Simplesmente valia a pena saber que cada dia dava um passo a mais, mesmo que no final escorregasse e tivesse que reiniciar a mesma tarefa. Valia a penar chegar cada vez mais perto da vida.

Mas os outros faziam troça “vai esfolas as pernas até serem tocos!”, “Porque você não voa em um pássaro?”, “Se cavar um túnel chega primeiro!”, “Se perder a cabeça é tão importante, eu te ajudo!”. Fizeram até uma musiquinha, mas como ela atraía predadores e espantava presas, deixavam pra cantá-la baixinho quando ele voltava.

Mas ele não ouvia. Comia e dormia pouco, apenas para aproveitar o máximo possível das pausas que a tempestade fazia. Até que em um dia, não caiu um pingo. Subia, sem se importar com nada, nem os buracos na parede, atalhos costumavam não dar em lugar algum. Subia, as pontas de seu exoesqueleto quitinoso já estavam quebradiças e desgastadas. Subia, e nenhuma maldita troça foi lançada aquele dia. Até que as nuvens se fecharam sob seus pés e finalmente ele estava em terra plana. O som dos gritos de frustração e morte não chegavam ali. Sorriu, não como quem vence, nem como quem vinga, mas como quem vê uma pequena peça pregada pela Natureza, então seguiu em frente.

MORAL: “Os obstáculos existem por algum motivo. Não estão ali para nos impedir de entrar. Eles existem para nos dar uma chance de mostrarmos as forças de nossas aspirações” (Randy Pausch).

Aton

A lenda do rio dourado parte VII – por Claus P. Neto

Boas noites a todos! Após o vexame da semana passada, eis-me aqui de novo! Sei que todos vocês sentiram uma falta imensa minha e de meus textos, mas eu sei que o Aton fez um bom serviço. De uma maneira ou de outra, devo anunciar com alegria que esse conto está ACABANDO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Enfim, depois de SETE semanas escrevendo ele, finalmente ele está chegando na reta final. Creio que foi a coisa mais longa que eu já escrevi. Sério. Mas é gratificante saber que a coisa está tomando forma e que está saindo (mais ou menos) como você idealizou o projeto, talvez até melhor. Agradeço a paciência de todos. Mais de uma pessoa me perguntou onde que dava pra ver os outros capítulos, e apesar de eu ainda frisar que vocês podem fuçar na minha seção, eu acredito que vou disponibilizar o PDF, com a história revisada, em breve. De um jeito ou de outro, agradeço a todos. Seria muito mais legal se “todos” fosse um número maior, então espalhe ao mundo como eu sou um autor incrível e legal (ou incrivelmente legal, como queiram). Boas Noites.

A lenda do rio dourado parte VII

E assim se passaram os meses. Os amantes ainda se encontravam e aproveitavam os últimos dias antes de Seraquinão voltar. Aconteceu no entanto que o mercador, nas últimas milhas de sua viagem, encontrou-se com um barqueiro à margem do rio, chamado Nadabe. Ora, os dois eram antigos companheiros de estrada, na época em que o comerciante viajava a serviço do pai. Mais que isso: eram amigos, já que Nadabe fora salvo de bandidos por Seraquinão, que liderara um pequeno grupo de mercenários para dentro do acampamento inimigo e os dispersou, cortando a mão do captor do barqueiro quando este, percebendo a derrota iminente, ia matar o prisioneiro. Esse gesto acarretou na viagem menos lucrativa na vida dos dois, já que os mercenários consumiram quase todo o capital do mercador, e a mais memorável. Isso remonta a um tempo em que o feio era mais gentil e importava-se menos com dinheiro, mas ambos mantinham a estima. Abraçaram-se às margens, e depois de uma longa conversa, Nadabe sugeriu levar Seraquinão, bem como uma boa parte da carga à cidade, e o marido de Erúlia embarcou. Mesmo com o peso das riquezas trazidas do Egito, o navio era veloz, e seguindo a correnteza chegou dois dias antes do previsto.

Seraquinão entrou em casa, batendo o pó de suas roupas e após um banquete com Nadabe como convidado de honra, deu pela falta da esposa durante o banquete, pois esta, pensando que aquele era o último dia em que poderia se encontrar com Marsahabal, ficou até mais tarde com o amante. Qual não foi sua surpresa então quando chegou em casa e a viu toda iluminada, perfumada de incenso, redecorada e com música tocando na sala onde o marido recebia os convidados. Entrou em desespero. Sabia que o arguto marido saberia do que se tratava, e que daria por sua falta se houvesse um jantar. Além disso, o salão era o cômodo logo após o pátio, de maneira que não havia como passar despercebida. Não houve outra solução a não ser tomar fôlego e entrar. Seraquinão, ao vê-la, ordenou que subisse e se arrumasse, pois tinha um hóspede de honra e queria que se conhecessem quando ela estivesse mais apresentável. De cabeça baixa, subiu e se arrumou. Apesar de sua beleza natural, sua mente estava muito ocupada e confusa, e não se embelezou com o esmero usual.

O seu esposo, no entanto, não falou nada a ela a respeito, mesmo após a refeição. Naquela noite ele cumpriu o seu dever conjugal, e foi tão atencioso no processo que chegou a chocar Erúlia. Ela acreditava que ele, tão logo os convidados saíssem, a rodearia de perguntas, ou até mesmo a espancaria, até saber a verdade. O fato é que ele nem mesmo levantou a voz contra ela, ou foi ríspido. O fato é que ele sempre fora cortês com ela, mas nunca ao ponto de se importar com ela, e agora que estava acontecendo, Erúlia não sabia o que pensar. Várias ideias de o que poderia estar acontecendo passaram por sua cabeça, e ela por fim escolheu justamente a mais tola: acreditar que havia enganado o marido.

O fato é que ela não conhecia Seraquinão. Se o conhecesse, saberia que estava pronto para dar um bote certeiro, a qualquer instante. Algo que ele aprendera no comércio: Não deixe que a vítima saiba que você a tem na mira. Diversas vezes aparentara-se fraco frente a um concorrente, induzindo-o a um mal negócio e englobando-o, ou fez empréstimos mirabolantes a pequenas estandes de venda só para depois comprá-las a um preço ridículo. Uma vida em esquemas como esse o tornou um mestre dessa arte, e aí não seria diferente. Na verdade ele já suspeitava que isso aconteceria caso ele se fosse. Com o pouco que conhecia do caráter da esposa sabia que ela era dada a pequenos prazeres e se impressionava rapidamente com tudo o que fosse belo. Com homens não seria diferente. E mais: sabia também que não dava a ela a atenção que ela precisava. Em parte isso ocorreu por causa dos negócios, que tragavam boa parte de seu tempo, seus pensamentos, e enfim, do seu coração. Mas a outra parte era a própria tolice dela. Não havia nada nela que o satisfizesse, pois não se importava tanto com a aparência como pela mente da pessoa. Ele desejava uma parceira inteligente, culta, não necessariamente uma bonita, e rapidamente perdeu por ela todo interesse. O irônico é que ela, procurando um homem de beleza, também decepcionara-se com ele.

Apesar disso, ele já começava a maquinar. Por mais que não desse atenção à mulher, valorizava o status que ela lhe dava: ela tornou-se para ele um objeto, belo, mas que só servia para exposição. E como qualquer mercador, ele valorizava seus objetos, e não deixaria o ladrão se safar facilmente. No entanto, não tinha nenhuma ideia de com quem a mulher o traíra, nem como faria para pegá-lo. E encheu-se de angústia. No meio dessa angústia, porém, lembrou-se de algo, ou melhor, alguém: Farzana. Apesar de desejar se vingar por outros meios, sua carne também tinha voz. Aos poucos, pensou, nada seria mais justo do que devolver a Erúlia o par de chifres. Assim, em um horário em que sabia que seu irmão estava de serviço no palácio, foi à sua casa.

Chegando lá, foi recebido por ela e tomou um choque. Ela estava muito mais envelhecida, ligeiramente curvada e com os olhos sem o antigo brilho. Ainda conservava a antiga beleza, ou parte dela, mas tudo agora era diferente: era mais apagado, menos vivo. Quando ela estendeu a mão para fechar a porta atrás dele ele viu outra coisa: hematomas. Isso significava que o irmão andava batendo nela. Ela respondeu-lhe que seu amo não estava, mas ele, inventando uma desculpa qualquer, insistiu em ficar. A verdade é que ele não sabia exatamente como chegaria às vias de fato com ela. Não poderia força-la, pois isso acarretaria em um escândalo muito grande, e ele não podia se dar ao luxo de denegrir assim sua imagem. Teria então que seduzi-la, mas nunca fora bom com as mulheres, como seu irmão, e não sabia o que lhe falar. No entanto, consternado com o estado da moça, teve pena em seu coração e um verdadeiro interesse por ela surgiu. Começou a fazer perguntas banais, respondidas de forma seca, mas educada. Aos poucos, no entanto, foi guiando a conversa para o assunto que desejava. Ao perceber aonde a conversa ia, Farzana parou com o serviço. Olhou pela janela para ver se não havia ninguém e fechou as cortinas. Então confessou o que estava se passando com ela, sem no entanto falar sobre a moça do mercado. Não foi preciso: Seraquinão logo juntou os pontos, e apesar de não ter certeza, viu que a troca repentina de favorita de seu irmão coincidia muito convenientemente com a sua viagem. Confortou a escrava, e mais tarde deitaram-se juntos. Entretanto, ele não tinha provas contra a esposa, nem contra o irmão.

Então, sem nem pensar por onde ia, passou pelo palácio quando algo lhe chamou a atenção. Ele viu uma pequena barraca, ao lado do palácio, que vendia pequenas cerâmicas. Foi quando se lembrou: Erúlia, ao entrar na casa, escondeu um pequeno pote entre as dobras da roupa, tão desajeitadamente que não foi possível esconder. Ao conversar com o vendedor (que era um conhecido seu), descobriu que em todo o período em que estivera fora uma moça bonita saía do palácio e comprava uma de suas peças. Aí ele teve certeza. Ao chegar em casa, entrou no quarto de Erúlia, que estava vazio (ela havia ido a um jantar em uma das casas nobres da cidade). Após algum tempo, ele achou-as: todas as peças que marcavam os encontros de Erúlia e Marsahabal. Eram ao todo 56 peças. Irado com a certeza de ter sido traído pelo próprio irmão, ele trancou-se no quarto, e só a memória de Farzana o reconfortava.

Ela sim era alguém que ele teria amado. Sabia ler, era prática, boa com números e problemas e conhecia de cor várias histórias, de vários lugares. Havia entre eles uma química excelente: em pouco tempo, se falavam como íntimos. Foi então que Seraquinão teve uma ideia. Saiu às pressas ao mercado, antes que ele fechasse, e comprou um novo pote, levando um servo como testemunha. Depois dispensou-o e correu à casa de Marsahabal, antes que ele chegasse. E após presentear Farzana com o pote, explicou o seu plano. 

Continua…

Por Claus P. Neto

Quem sabe uma vez – O gigante e a formiga (Aton)

Olá! Eu ia iniciar hoje outro conto, mas eu percebi que, trabalhando com apenas dois autores, a quantidade de estilos diferentes envolvidos para gostos distintos é baixa, de forma que o melhor seria diversificar os gêneros e os assuntos o quanto possível em uma equipe reduzida. Assim, vou iniciar um “quadro” chamado quem sabe uma vez , que trará 5 fábulas para vocês (uma por semana), comentem o que acharam, curtam nossa página no face e sigam nosso blog para receber atualizações direto na sua caixa de email

O gigante e a formiga

   Quem sabe uma vez um temível gigante morava em uma montanha. Tudo ao redor dela era desprovido de vida, pois a criatura consumira ou espantara tudo e todos que podiam viver ali por perto. Porém um dia a besta acorda com uma coceira no braço e avista uma formiga andando sobre sua pele:

  -Quem?! Você irá morrer! – Bradou o gigante
  -Uma formiga qualquer. Não tenho medo de você, tenho outros problemas para resolver.
  -Eu sou o seu maior problema! – Assim, o gigante desceu sua mão em um tapa sobre a pequenina. Mas a pele calosa e rachada do gigante não chegou a tocar a formiga, que se escondia entre as fissuras dos dedos duros como pedra da colossal mão que repetidamente descia.
  -Você não pode me matar. Sou pequena demais por fora e você pequeno demais por dentro para descobrir como – O gigante bateu mais vezes, mas tudo que conseguia era machucar-se.
  -Eu quero esta montanha – Ela disse – Construirei aqui meu formigueiro, por isso desista e vá embora.
  -NUNCA!!! – O gigante se sacudiu e se debateu contra as pedras da montanha. Arranhou-se por todos os lados e quase caiu mais de uma vez. Mas quando parou, não ouviu nada, então riu um riso grutal tão alto e tão temeroso que mais parecia um rugido.
Então a criatura foi dormir em sua caverna no topo da montanha. Porém quando estava quase roncando uma coceira no nariz o despertou. Assim, de hora em hora uma nova coceira surgia e o gigante não dormia.
  -Cadê você, sua covarde! Vou arrancar sua cabeça, moer as pernas e comer o resto! – Ele lançava ameaças enquanto rolava pelo chão, batia conta as paredes, socava-se e coçava-se. Sua cabeça sangrava de uma tropeçada, seus braços e pernas roxos de pancadas e um olho inchado por ter acertado uma rocha quando rolava.
  “Não tenho medo de você” ele ouvia como um sussurro trazido pelo vento “Nunca mais irá descansar! Formigas não dormem e eu serei sua tormenta até o fim”.
  Dias se passaram nessa luta cega, até que o colosso estivesse com os olhos tão inchados de sono e de pancadas que ele enfiou os dedos no ouvido e estourou os próprios tímpanos em um ataque de loucura. Mas era tarde demais, ele alucinava. Então correu… e caiu montanha a baixo. Então a formiga tinha vencido.
Moral: “Eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura” (Fernando Pessoa)
Aton

Diário de bordo de um irlandês perdido IV (por Aton)

Bonne Nuit, mafiosos! Quando alguém começa a escrever alguma coisa, tem sempre uma ideia ou um objetivo que a move. Algo que ela quer provar, ou simplesmente refletir. Quando imaginei este conto, eu queria proporcionar uma reflexão sobre o papel que a morte e o fim das coisas têm no caminho da existência, tendo como plano de fundo a cultura celta/druida. Mas acontece que essa cultura é pouco conhecida até pelos historiadores e eu quebrei a cara, então só me sobrou mesmo a reflexão, que eu vou fazer agora. Espero que gostem. Se não conhecem a história, é só procurar ali em cima. Curtam nossa página no face, inscrevam-se no blog para receberem diretamente no e-mail nossas atualizações mais para baixo.

Diário de bordo de um irlandês perdido

Parte IV

Em casa, não importa quando

Comecei esta viagem com um esquife de fuga roubado do meu próprio navio, mas piratas nunca fogem, tanto que essa pequena embarcação nem remos tinha. Deixei meus homens para traz e segui para ter meu ouro, minha bebida e minha paz. Eu fugi para a ilha dos mortos, da festa eterna, Hy Braesil como minha mãe falava. Por que perseguir o fim, quando era mais simples esperar por ele? Bom, quando se é um “Rei” e pode ter tudo que quiser (apesar de ter que pilhar), você acaba percebendo coisas que não podem ser compradas, roubadas ou encontradas por acaso. Eu queria um abraço do meu pai e um beijo da minha mãe, e para descobrir isso tive que morrer como criança, como jovem, como adulto. Coisas tão próximas que eu sempre soube, mas não tinha coragem de assumir e fui preenchendo com tudo que podia. Mas o vazio não sumia. Eu queria encontrar a morte e viver para saber se isso realmente tinha cura.

Não tem. Porque eu encontrei no fundo daquela cachoeira a vida que eu desperdicei. Mas não uma vida que tinha acabado. Foi preciso que eu navegasse por aquele mar infernal para eu entender que na verdade navegava o meu coração: que sempre flui com suas tempestades e seus monstros, mas flui. Você pode ser engolido, vomitado, roubado ou afogado no meio desse percurso, mas de qualquer forma você vai chegar em uma resposta e ela te assustará, provavelmente. Não importa se é um pequeno bote ou uma enorme galé de guerra, se é só você ou uma tripulação, o final será sempre assustador, mas será sempre cômico… Como alguém que sobreviveu a tantas batalhas irá perder no fim para um bocado de água?

Você não perde… Mas também não ganha, você continua. No final daquela cachoeira eu me afoguei, mas acordei na orla da praia da minha querida cidade natal com esse diário ao meu lado. Dizem por ai que um Águas Negras III se ergue. Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma pode crescer. Sou velho já, permaneci aqui ao lado dos ossos dos meus pais. Meu ouro, minha bebida e minha paz talvez não possam ser vistos a olhos tolos, mas eles estão sempre comigo no fim desse estranho arco-íris.

Recorto essas quatro páginas que descreveram praticamente a minha história (ou o que importa dela) e jogo no mar para qualquer um encontrar. Aquele mapa que eu disse no começo já se perdeu, mas fica aqui minha dica para qualquer um que ainda queira encontrar Hy Braesil: o sangue nunca morre, adormece. Bom, vou indo que algumas crianças aqui da minha vila sempre vem essa hora ouvir histórias sobre o mundo, talvez você um dia possa contar as mesmas coisas para as suas? Adeus, e que a verdade seja dita, seguir o coração não é coisa fácil.

fim

A lenda do rio dourado parte VI – por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Não sei quanto a vocês, mas eu estou cansado desta história. Sério. Se continuo com ela é por pura teimosia. No entanto, eu acho que daqui a três semanas eu estarei colocando nela o último ponto final, e então poderei descansar. Lógico, eu já sabia que o texto iria demorar para ser escrito, mas é que nesse espaço de seis semanas aconteceu muita coisa…e quando essas três semanas (previstas) passarem, muito mais terá acontecido. É estranho pensar em um autor que cansa da própria história, mas toda escrita é como um mergulho: você toma fôlego e vai para o fundo da água, e chega um ponto em que você não aguenta mais e tem que voltar à tona. Mas eu espero, sinceramente, que em breve meu fôlego fique mais forte e eu possa mergulhar cada vez mais fundo, por cada vez mais tempo. Enquanto isso não acontece, fale para os seus amigos (ou conhecidos que você tem em alta estima, mas não chegam a ser amigos) do blog. Temos MUITO poucos seguidores, e isso é desestimulante, pra falar o mínimo. Ajudem a gente, por favor. Também comentem, se quiserem, mas lembrem-se de dar um desconto para o escritor (lembrando que comentários negativos poderão ser deletados e/ou passíveis de vingança cruel). Aliás, se você não começou a ler a história desde o começo, não colocarei os links te redirecionando pelos seguintes motivos:

  1. Isso seria desnecessariamente longo e complicado, já que os links têm que ser todos aprovados, um a um
  2. É muito simples você ler tudo na sequência,  basta abrir a minha seção (não escrevo nada além dessa história faz seis semanas seguidas) e procurar
  3. Eu não estou a fim de fazer isso

Boas Noites.

A lenda do rio dourado parte VI

Não foi difícil para Erúlia entrar em contato com Marsahabal por meio de recados, mas encontrar-se efetivamente seria muito mais complicado. Por mais que Seraquinão não se interessasse por sua esposa, tendo sua mente voltada mais para os negócios, tratava-a com cuidado e esmero, e não seria fácil engodá-lo. A oportunidade, entretanto, logo surgiu, e os dois rapidamente se aproveitaram dela. Seraquinão era um homem que gostava de participar ativamente dos seus negócios, em parte por manter sua cabeça ocupada e em parte por não ter muitos empregados de sua confiança, de modo que não era do seu agrado deixa-los tratar de todos os seus assuntos. Apesar disso, desde a morte do seu pai não viajava a negócios, preso por suas responsabilidades na cidade. No entanto, um dos seus criados, Ezmir, que cuidava das suas caravanas para o Egito, ficou doente antes de partir para comprar grãos. Sem ter como repô-lo na viagem, deixou-o cuidando de suas coisas na cidade, onde a sua enfermidade não atrapalharia em suas funções, e preparou-se para ele mesmo partir. Erúlia foi rápida em descobrir isso e logo mandou uma mensagem a Marsahabal. Nos idos de … Seraquinão partiu com a caravana, ainda com um atraso por ter que deixar em ordem seus assuntos. Ainda assim, havia o problema do lugar. Mesmo com o mercador fora, os dois não poderiam se encontrar em seu palacete por conta dos escravos fofoqueiros. O jeito aparentemente era se encontrar na casa de Marsahabal, mas Farzana, ainda que momentaneamente desprezada, continuava tomando conta da casa, e era tão ou mais esperta que Seraquinão. Além disso,via de regra Marsahabal não poderia deixar o palácio ao seu bel prazer, pelo menos não por muito tempo, caso seu empregador o chamasse. Ele, entretanto, resolveu o problema. Nas horas em que não estava servindo o prefeito, ou conversando com ele, Marsahabal costumava passear pelo seu palácio. Em pouco tempo, conhecia-o melhor que o dono, cada cômodo e corredor. Assim, marcaram de se encontrar no palácio. Erúlia diria que iria ao mercado e Marsahabal se encontraria com ela no portão. Ora, não seria problema ela entrar, já que era conhecida do governador, mas isso levantaria muitas suspeitas, e assim que Seraquinão voltasse de viajem ele descobriria. Assim, ela iria disfarçada e Marsahabal convenceria os guardas a deixa-la passar. Ora, ele conhecia os guardas quase tão bem quanto o palácio, e não foi difícil, à hora combinada, fazê-la entrar. Andaram pelos corredores de mármore do palácio, contemplando a beleza de sua arquitetura. Nas paredes, em toda a volta havia esculturas em baixo relevo contando a história da região, e conta-se que se podia aprender mais sobre a cidade olhando-as do que consultando os registros oficiais.

Andaram, em passo rápido até atingirem um arco, com um grande leão dourado esculpido acima, passaram por ele e após passarem por duas portas trancadas viraram à esquerda, entrando na área leste do palácio, a mais antiga. Quem construíra a mansão na verdade foi o bisavô de Ashteri, e desde a época de seu avô aquela área não era muito usada, até que veio a ficar praticamente abandonada. Andaram por mais alguns cômodos, cheios de poeira, até atingirem a parte mais baixa da construção. Ali estava limpo e sem poeira, pois Marsahabal havia limpado o lugar, colocando também velas e tochas para a iluminação. Eles estavam agora praticamente no subterrâneo, e com as portas fechadas ninguém poderia ouvi-los. E ali consumaram sua paixão, e assim foi o primeiro de muitos dos seus encontros.

Por meses a fio procederam dessa maneira, e a cada vez os amantes se tornavam mais próximos, mais íntimos. Era a primeira vez que ambos se interessavam tanto por uma pessoa que não fosse eles mesmos. Erúlia mantinha-se alerta para notícias de seu marido, que chegaria mais tarde do que o previsto por ter desviado sua rota original para barganhar com beduínos da Arábia. Enquanto isso, os dois aproveitavam o tempo ao máximo, ao ponto de serem imprudentes quanto ao tempo que passavam juntos. Os escravos da casa de Erúlia suspeitavam de alguma coisa em seu comportamento, mas não tinham como ligar os pontos e relaciona-la a Marsahabal. Além disso ela era um membro da elite, e o modo como passava seu tempo livre não era motivo de questionamento. Com ele, a história era diferente: tinha um serviço a fazer, e durante o período em que estiveram juntos o desempenhara mal, atrasando-se ou faltando por completo ao chamado de Ashteri, e ficando distante, distraído quando estava servindo o governador. Este, apesar de insatisfeito, já sabia como era a vida amorosa do seu copeiro, e em nome de sua amizade com ele tolerou sem perguntar. Mas Farzana era um caso diferente.

A pobre síria estava arrasada. Não que sentisse algo por seu senhor em si. Claro, ele era lindo, e havia a atração física, mas o que a escrava realmente sentia é que perdera de vez o favor de seu mestre. Já antes dos amantes se encontrarem de fato ela sentira a diferença no tratamento, mas ao menos ele ainda às vezes se deitava com ela, muito embora fosse muito mais rude do que de costume, e lhe dava alguma atenção. Agora ele só vinha para casa para dormir e comer e em sua opinião ela não passava da empregada que mantinha a casa limpa. Passado o deslumbramento com a escrava, Marsahabal notava cada defeito na casa. Ela era eficiente e poucas vezes vacilava em serviço, mas era só uma e mesmo que Marsahabal morasse sozinho, tinha uma casa relativamente grande. Pela primeira vez desde que a recebeu de presente, bateu nela, quando ela o interrogou sobre onde ficava até tão tarde. Conhecendo o amo, ela rapidamente ligou os pontos: ele tinha uma nova favorita. Mas ela, enérgica e acostumada a lutar pelo que queria, não deixou os eventos acontecerem por si mesmos, e logo começou a procurar a amante de seu senhor. Em pouco tempo, sua busca teve resultados.

Ela sabia que apesar de Marsahabal ter um serviço leve, ele tinha que ficar no palácio todo o dia, sempre à disposição do governador. Assim, ou os encontros eram muito rápidos e breves em algum ponto próximo ou aconteciam dentro do próprio palácio. Contratou uma amiga sua para cuidar da casa para ela, usando algumas de suas economias (sendo ela a administradora, não era difícil para ela desviar dinheiro de seu senhor, ainda que em pequena quantidade) e partiu para a mansão do senhor da cidade. Escondendo-se na multidão que se movimentava ao redor, percebeu que mais ou menos à terceira hora depois do nascer do Sol ele apareceu no portão e logo uma moça, coberta com um véu, entrou com ele. Em pouco tempo conversava com os guardas e convenceu-os, usando seus métodos, a contar sobre o casal, e apesar de não descobrir a identidade da moça, conseguiu deles os hábitos dos amantes, descobrindo que horas se encontravam e que horas se separavam. Também descobriu algo muito interessante. A mulher, toda vez que saía, comprava em uma barraca encostada no muro do palácio, um pequeno pote de cerâmica. Nesse ponto Erúlia revelou sua tolice. Como sua desculpa era ir ao mercado, pensou em comprar algo de lá todo encontro. No entanto, talvez pela sensação de segurança, logo parou de comprar coisas variadas e mecanicamente pegava as vasilhas na tenda perto da casa do governador. Farzana no entanto não conseguiu do vendedor (que estava sendo muito beneficiado pelos encontros proibidos) o nome da mulher, e mesmo sabendo quando ela saía, não podia segui-la, pois Marsahabal ia junto com ela, e seria arriscado não só ser identificada como também chegar depois dele em casa. Assim, resignada, mas ainda com esperança, voltou para casa.

Infelizmente para ela, a moça que ela contratara não era tão diligente, e quando ele voltou, espancou-a de novo pelo serviço mal feito, mesmo sem ficar surpreso por isso, dada a natureza eficiente de Farzana.

Continua…

Por Claus P. Neto