Wasteland parte II – por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. A proveito para desejar aos nossos queridos três leitores e aos ratos do porão de onde escrevo essa história uma feliz páscoa. Não, sem mensagens aqui sobre o evento ou o que ele significa, etc. Eu simplesmente não estou com humor para isso. O que eu desejo? Que vocês apreciem o texto. Tem sido delicioso ver a história que eu imaginei a tanto tempo ganhar vida, as imagens da minha cabeça saltando para a tela. Espero que vocês gostem também.  Continuem acompanhando, a coisa só está começando. Eu sei que a estória ainda está meio devagar, mas paciência. Boas surpresas estão por vir nas próximas semanas.

Boas tardes.

Wasteland parte II – por Claus P. Neto

Vi a luz. Estranhei depois de tanta escuridão, mas eu a vi. Tentei me levantar: em vão. Meu corpo não me obedecia. Tentei abrir os olhos. Nada também. Fiquei então deitado, olhando aquela luz distante, mas forte como 100 estrelas. “Estranho” – pensei – “Parece que se aproxima”. E se aproximava. Não posso dizer se era rápido ou devagar, a impressão era que o tempo e a distância não importavam. Mas estava cada vez mais perto, sua luminosidade ficando cada vez mais intensa. Comecei a ouvir vozes. Tive a impressão de ter escutado Medeia ralhar com as crianças, mas não consegui distinguir o som, e em breve não era só a voz dela que eu ouvia, mas centenas delas, como em um imenso coral sem maestro. À medida que a luz vinha ao meu encontro as vozes foram ficando mais altas, mais altas, ao ponto de eu instintivamente querer tapar meus ouvidos. Naturalmente meu corpo ainda não respondia, e tudo foi ficando alto, alto, alto, ao ponto de eu querer gritar de dor, mas a minha voz também não saía. Não sei bem quanto tempo se passou assim, mas eventualmente ou o volume da gritaria diminuiu ou eu me acostumei a ele. Comecei a prestar atenção ao que cada voz dizia, e ao focar em cada uma, uma imagem se formava diante de mim: ora era uma discussão com um colega no serviço, ora era eu no quartel, suando sob a supervisão do comandante que gritava, ora era a risada de um antigo amigo de infância; era enfim um retrato da minha vida. No começo foi difícil focalizar em cada voz, mas aos poucos foi ficando mais fácil, até que eu não precisava mais me concentrar no som. O resultado foi um verdadeiro caleidoscópio, as cenas de minha própria vida girando e girando, cada vez mais rápido. Sentia que estava andando rapidamente por um túnel feito com as minhas memórias, a luz sempre à minha frente. Continuei (não havia mais o que fazer), por um tempo longo, muito longo. Comecei a sentir o frio, que alastrava começando pelos meus dedos e se espalhando por todo o meu corpo, até que só o meu coração parecia ter calor. A luz estava perto agora, tão perto que eu podia tocá-la se esticasse o braço (o que eu não podia).

Mas então senti um sacolejo. Tudo ao meu redor tremeu, as imagens ruindo como as paredes de um casebre em um terremoto. Senti de novo. O frio começou a recuar, junto com o túnel (ou seria comigo?), a luz se afastando agora de uma maneira veloz. As imagens que caiam passavam tão rápido que formavam apenas um borrão. Outro solavanco, desta vez mais forte. Fui recuando cada vez mais rápido até me afastei de todo da luz e tudo ficou escuro de novo. Fiquei um tempo assim, mas aos poucos senti que todo o meu corpo formigava, pinicando como minúsculas agulhas. Experimentei mover o braço, e para meu alívio ele respondeu, ainda que debilmente. Ouvi vozes, quase as mesmas que escutei antes de perder a consciência, falando com ânimo visível. Seria por conta do meu braço que se mexera? Agora não estava mais escuro e uma luminosidade batia em meus olhos, incomodando. Pensei em um primeiro momento que era a primeira luz, mas essa era visivelmente diferente, menos etérea e menos fria. Tentei abrir os olhos, o que foi um erro: uma lâmpada forte estava contra o meu rosto e machucou meus olhos. Ouvi uma voz do meu lado direito: “Calma. Não precisa se levantar agora, fique deitado. Você passou por muita coisa”. Tentei articular alguma coisa, mas a minha boca estava seca, e a saliva grossa me impedia de falar. Aquela voz me era familiar e havia nela um tom de preocupação naquela voz, como se fosse de alguém que me tivesse por caro. Seria a de Clito? Respirei fundo, apesar da dor em minhas costelas, e fiquei tranquilo. Sabia que estava seguro, pelo menos por enquanto. Relaxei, sentindo-me de repente cansado. Não demorou até que eu entrasse em um sono profundo, sem sonhos, imagens, vozes ou luzes.

Continua…

Por Claus P. Neto

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Sangue Romano (Aton)

pessoal, desculpa o atraso, mas realmente não deu. E como eu estou com pressa não vou dizer mais nada! Boa leitura

Sangue Romano

 

No senado fora assassinado,
vinte e três vezes esfaqueado;
uma ambição destruída;
uma paixão partida.
Oh sangue por Roma derramado,
De César e De Remo, lado a lado,
no hercúleo chão desarmado,
O quanto de ti é maldição,
e mais quanto, ainda, derramar-te-ão?
Contigo caíra não somente a dor,
mas o império sonho de um dia transpor
o reino ideal na terra…
porém tu, sangue, o caos acerra.
A nós essa herança condenaste,
de nunca eliminar este divino contraste:
Fazer-nos viver para morrer em desgaste,
nadando no mar das eras,
na memória curta das quimeras.
A espada caiu, a coroa caiu… tu caíste,
apenas para dar sede a um outro homem triste
que de ti se alimentara, e por ti matara
até que sangrara
Obs: inspirado no movimento simbolista

Wasteland parte I – Por Claus P. Neto

Boas Noites a todos. O que vou lhes apresentar hoje à noite é na verdade fruto de um devaneio passado, um passado não tão distante assim. A ideia é uma mistura de vários outros sonhos, reflexões, etc. que eu tive ao longo dos anos, mas que estavam desconexas, sem um pano de fundo comum. Daí surgiu o embrião daquele que é o texto de hoje, resultado de uma observação que deu todo o contexto para aquela massa rebelde de pensamentos e colocou-os em linha. A minha intenção na verdade era somente colocar a estória aqui quando ele estivesse mais desenvolvida, mas voltei atrás, para a sua alegria (ou não).  Esse é apenas um trecho do conto que na verdade é o tema central de uma história que eu pretendo expandir. Quando (e se ) ela  estiver pronta, esse texto não estará no começo, mas emaranhado em seu ventre. Assim, boa parte do contexto que eu imaginei terá que ser descoberto aos poucos, dentro do próprio conto, sem maiores explanações. Espero que isso dê certo. Se não der, deixem-me saber! A aba de comentários está aí pra isso. Espero que gostem. Boas Noites.

 Wasteland parte I – Por Claus P. Neto

Acordei com a dor. E abri os meus olhos. A princípio não vi nada, nada além daquelas malditas estrelas que flutuavam diante da minha visão, dançando junto com a minha dor de cabeça. Sentia o chão frio, molhado, debaixo de mim. O piso metálico não era nada confortável, especialmente por conta dos cacos de vidro espalhados aqui e ali, mas o conforto deixara de ser importante pra mim já fazia muito tempo. A reação instintiva, fruto do treinamento intensivo, foi já verificar o corpo. Eu estava coberto de cortes e hematomas, incluindo um ferimento bem feio na nuca, cujo sangue já coagulara formando um crosta, mas não tinha nenhum osso quebrado, o que já era alguma coisa. Tentei me levantar, mas nos primeiros instantes meus músculos estavam rígidos e fracos, e não me obedeceram. Enfim me levantei. Pensei de cara que tinha perdido muito sangue, mas bastou um olhar para baixo para ver que a poça vermelha, já seca, não era muito grande. Graças a Deus. Há quanto tempo eu estava ali? Tentei me lembrar, mas o esforço fez a minha cabeça martelar, e eu caí, prostrado. Algum objeto de metal caiu com um estrondo ao longe. E então eu me lembrei. A rebelião. A batalha. A fuga. A explosão. Tudo me voltou à mente como uma torrente, e com isso veio uma onda de dor que me fez vomitar. Lembrei de tudo. Eu estava descendo da ponte de comando quando ocorreu a explosão. Lembrei-me de cair da escada, lançado pelo impacto, para depois bater a cabeça e perder os sentidos. Lembrei de tudo. Tentei correr para ver se os outros estavam bem, mas apesar de poder me levantar, o esforço ainda era muito para mim. Sentei-me então em uma viga metálica que caíra ali perto e tentei reorganizar as minhas ideias. Eu estava em uma nave roubada. a Coligação veio e atacou a nave durante a manobra de fuga. Eu não sabia onde estava, se haviam outros sobreviventes à bordo, se a nave fora ocupada, ou quantos dias haviam passado desde a captura da mesma por mim e pelos outros rebeldes. Fiquei parado, respirando com dificuldade, cada inspiração era um lampejo de dor que percorria meu corpo. Foi quando eu ouvi: passos leves, mas perfeitamente audíveis vinham em minha direção. Seriam tropas da Coligação? Um dos meus antigos companheiros? Pensei em me esconder ou voltar ao chão e me fingir de morto (não seria muito difícil) mas eu estava tão cansado…tão abatido. Resolvi bater de frente com quem aparecesse, amigo ou inimigo. Respirei fundo. Pelos passos era possível ver que era só um que vinha em minha direção. Estava chegando perto. Olhei para o fundo do corredor onde eu estava, esperando. Por fim apareceu um rosto. Melhor ainda: um rosto amigo. Quase ri de tanto alívio ao reconhecer um de meus parceiros de luta, mas a dor me impediu disso. Tentei também chama-lo, mas descobri que minha voz não saía. Tentei acenar para ele, mas caí no processo. Então ele se virou e me reconheceu. Abriu um sorriso, misto com uma expressão de pura surpresa, mas que passou para preocupação ao ver meu estado. Rapidamente sumiu pelo corredor de onde tinha vindo. Com o juízo abalado, não pude entender que ele tinha corrido para buscar ajuda, e no desespero instintivo tentei ir atrás dele. Tentei me levantar rapidamente, o que me deixou zonzo, e tombei contra a parede, batendo novamente a cabeça. Isso abriu um novo corte e o sangue jorrou. Praguejando, avancei, mas a apenas alguns metros escorreguei em uma poça d’água, que havia vazado de uma das tubulações quebradas. Caí com força, e uma dor intensa se espalhou pelo meu braço braço esquerdo. O meu novo ferimento na cabeça estava formando uma crosta de sangue na frente de meu olho direito, e eu me senti ainda mais fraco com a nova hemorragia. Ainda assim, fui me arrastando, usando o braço bom, esfolando minha mão nos cacos de vidro. Continuei. Continuei. Senti minha visão embaçar e luzes voltaram a brilhar, girando diante de meu olho. Nesse ponto nem sei se continuei a me arrastar ou não. Só sei que o mundo se encheu de cores e começou a rodar e rodar. Eu já não sentia nada. Nem a dor, nem o chão sob mim. Tive a impressão de escutar vozes falando, mas era como se elas estivessem distantes, mais ou menos como quando você está submerso e tenta ouvir o que se fala na superfície. Distingui trechos como:”…não sei…”, “…o…é grave…”, “vam…carrega-lo no…”. Tive a impressão também de ver vultos se aproximando. Vultos negros, contrastando com aquele borrão de cores que era o que eu enxergava. Aqueles vultos se aproximavam cada vez mais, até que chegaram tão perto que tudo ficou escuro. E então eu apaguei de novo.

Continua…

Por Claus P. Neto

Palavras (por aton)

Halaiyow!!! Adiantei essa postagem para as 23:59 apenas para lhes desejar um feliz dia de são Patrício: o padre sequestrado por piratas irlandeses que sobreviveu e cristianizou os Celtas, permitindo o domínio efetivo de Roma! Muito bem, decidi adotar a intertextualidade e como há poucos poemas aqui, vou trabalhar com alguns durante as próximas semanas. Farei essas alternância de gêneros até nosso “acervo” mafio-cultural estar suficientemente rico. Então curtam, sigam, comentem, divulguem e, por favor, deem sinal de vida.

 

Palavras

Palavras são vento:
empurram navios,
inflam balões,
cantam canções
de sonhos vazios.

Palavras são o momento
por onde voam emoções,
por onde dançam dragões;
quando se quebra a promessa,
quando a vida na morte se expressa.

Palavras são um mero instrumento:
a espada da guerra;
as garras da fera;
o coração que erra;
o Sol de uma nova era.

Sim, palavras são vento,
que sopram da alma:
mar de ternura e tormento;
que ao fogo provoca, ou acalma.

Aton

Obs: Poema inspirado na máxima “Palavras são vento” da Obra “Crônicas de gelo e fogo” de G. R. R. Martin

A lenda do rio dourado – COMPLETA

Boas noites a todos. É com grande satisfação que apresento a vocês o condensado do meu último conto, “A lenda do rio dourado” que estará disponível para download em formato .pdf. Aqui eu peço um favor: ESPALHEM essa história. Sério. A gente precisa muito de mais leitores (sei que estou parecendo desesperado e dramático, mas a verdade é que a gente precisa mesmo). Espalhe do jeito que você quiser: redes sociais, sites de compartilhamento, etc. Também deixo claro aqui que o conteúdo é livre, ou seja: vocês podem ler, repassar, copiar, colar, etc. à vontade, SEM ME PAGAR UM CENTAVO. Acho justo. Nunca escrevi o texto com outro objetivo. Só peço que vocês mantenham o crédito, por favor. E acima de tudo: espero que vocês gostem.

Boas noites.

Download aqui: A lenda do rio dourado

Por Claus P. Neto

As vaidades da vida Humana (por Aton)

Olá, pois que são 00:00 de segunda! Pontualíssimo! Bom pra quem quiser saber de onde foram tiradas as frase”morais” das últimas fábulas: Pensador e WebFrases. Bom, escrever é como fazer uísque: o tempo de fermentação de uma boa ideia é diretamente proporcional ao seu preço e à sua ressaca! Assim, a última fábula que seria hoje ficará para outro dia, poque ela é digna de um “Gold Label”, mas minhas habilidades mal cobrem um “Red”… Assim, deleitem-se com mais um poeminha… AH, curtam, sigam, comentem e evitem herpes

As vaidades da vida Humana

Solo rico e forte
onde há vida, pois, morte
regado pelo sangue,
que o tempo de todos exangue
 
Mas do qual nasce o fruto vil
pela piedade do céu anil
da lágrima-chuva gentil
 
Chuva esta que esconde o dia,
a luz que feliz ardia,
que prontamente a mente seca,
contentando-a à vida merreca…
 
Mas na tempestade não há paz,
dessa que só a luz traz,
onde, indignada, a honra jaz.

Aton

Ps: o título do poema foi inspirado no quadro chamado “as vaidades da vida humana” (1645) de Harmen Steenwyck .

Pega ladrão – por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Como o calor está insuportavelmente preguiçoso, decidi entrar na onda e não colocar o texto que seria o dessa semana (e que na verdade seria escrito hoje). Apesar de tudo, a ideia não morreu, e semana que vem vocês poderão conferir o resultado. Há ainda outro motivo  para eu decidir colocar um texto mais velho: esse texto mais velho faz renascer das cinzas a minha categoria de poemas, que estava abandonada às moscas por um longo, longo tempo. Eu sei que 99% de vocês não gostam de poesia. Eu pessoalmente também não a aprecio muito. Mas depois de quase dez semanas empacado em um texto só eu precisava variar a minha próxima publicação. Espero que gostem (eu particularmente não gosto). Boas tardes.

Pega Ladrão

Pega ladrão! Pega ladrão!
Pega a maldita, desalmada, insensível
Que fez proeza impossível
De roubar meu coração
Aproveitou-se da minha alma
Inquieta como a maré
E com uma calma
Grande me fez de mané

Pega ladrão! Prende ladrão!
Pega o bandido que corrupto,
Cruel e resoluto
Me corta a chance de ganhar meu ganha pão
Vivendo com zero embaraço
Na poltrona na cadeira
Sempre me faz de palhaço
Vem e me leva o dinheiro da carteira

Pega ladrão! Vende o ladrão!
Com a notícia ou programa sempre quente
Vem roubar a minha mente
Minha imaginação
Pois faz apenas
O que os grandes querem ver
Amordaçam a duras penas
O cara que quer livre ser

por Claus P. Neto