Wasteland parte X_-_por Claus P. Neto

Bons dias a todos. Aviso que a seguir está uma parte que, apesar de não prevista anteriormente, creio que dará um rumo interessante à história. Também aviso que não é uma parte bonita, e que pode ficar ainda mais feia dependendo da imaginação do leitor. Não sei se consegui transmitir o terror que queria para esta parte, e se não o fiz, peço minhas sinceras desculpas. Sem mais,

Bons dias

Wasteland parte X_-_por Claus P. Neto

Não precisamos andar muito antes de chegar ao novo quartel general de Mach. A luz forte, contrastante com os corredores sinuosos e escuros, cegou-me por um momento. Quando ergui os olhos, já acostumados com a claridade, é que pude ver o quanto o meu adversário estivera ocupado em transformar o refeitório em um centro de comando. Computadores baratos se concentravam nos cantos do cômodo, interligados por uma miríade de fios que cobria o chão, praticamente formando um segundo piso. Não sei se aquilo era necessário,visto que os controles principais da nave estavam destruídos, mas nem reparei nesse detalhe. Na cozinha, de tipo industrial e feita para atender uma demanda de até 500 indivíduos por vez, estavam instalados os seguidores de Mach, todos em colchonetes baratos. A despensa, pelo que eu vi, havia sido usada para armazenar as poucas armas que a divisão dispunha, e na grande tela no centro, onde antes se passavam programas televisivos e recados gerais da nave, havia a imagem de uma série de câmeras, provavelmente portáteis, que haviam sido instaladas por toda a nave. Olhei, aturdido, quando um movimento na tela mostrou o grupo de prisioneiros que era a minha divisão ser arrastado por um corredor. Qual seria? Não havia como saber e nem tive tempo de perguntar, já que o guarda atrás de mim continuava me empurrando em direção ao fim do local. Em direção à víbora, como o chamávamos em meu batalhão.  Cinco mesas haviam sido empilhadas, de maneira alternada, de modo que quem falasse com ele tivesse que olhar para cima. Ele estava sentado em uma espécie de trono improvisado com uma cadeira grande e várias camadas de pano. Mas a despeito do porte pomposo e ridículo, sua figura ainda era ameaçadora.

Ele tinha um metro e dezesseis de altura, baixo até para o nosso padrão (a média da tripulação era um metro e vinte). Sua tez, morena como a de praticamente todos na nave, contrastava com os olhos: verdes, faiscantes e vivos, sempre em movimento, como se ele estivesse tentando capturar todos os detalhes ao seu redor. Era robusto e forte, embora não tanto quanto Krug, e seus cabelos, longos e negros, caíam sobre os seus ombros. Tinha uma expressão serena e até mesmo bela (ele era cobiçado por várias da divisão feminina), que mascarava a sua astúcia, a sua vivacidade e a sua ganância. Olhando em retrospecto, vejo que talvez tenha feito um mau retrato dele até agora, pelo simples fato de ele ser meu oponente. Não sei se posso afirmar que ele não era tão pérfido como dou a entender, mas os eventos futuros talvez esclareçam esse ponto. Cabe a quem está lendo decidir se o que ocorreu depois foi fruto de uma perversidade inata ou uma falta de escrúpulos para alcançar um objetivo que na verdade eu e ele sempre buscamos: poder.

Arrastaram Clito e eu até diante da plataforma, e com um golpe cruel atrás dos joelhos nos forçaram a agachar. Olhei com raiva e ódio o meu captor, e depois voltei o meu olhar para Mach, que permanecia impassível. Talvez a coisa mais terrível sobre ele era isto: era impossível saber o que se passava em sua cabeça; que plano, estrategema, ou ideia ele estava tendo. Aquele rosto sereno, me encarando de maneira sarcástica só aumentou minha ira, mas tentei, ao máximo, recobrar a calma. “É exatamente isso o que ele quer”, disse a mim mesmo. “Ele quer que você perca a calma, perca o controle, enquanto ele mantém uma aparência calma”. Engoli a raiva como um bolo amargo e encarei meu adversário, que abriu um sorriso sardônico quando seus olhos se encontraram com os meus. “Ora, ora”, começou ele, com sua voz mansa e levemente rouca e arranhada, “parece que você finalmente atendeu ao meu convite, tenente. Eu estive preocupado com o seu…atraso e resolvi mandar Krug para ver se estava tudo bem”. À menção de seu mais fiel criado, no entanto, o seu olhar vasculhou a sala e, não o encontrando, o seu sorriso derreteu. “Falando nisso, onde está ele Bhara?”, disse ao recruta que me havia escoltado, “eu dei ordens expressas para que ele me entregasse os prisioneiros pessoalmente”. O garoto ficou branco, sem saber o que responder diante daquele olhar faiscante. Adiantei-me, tentando disfarçar o nervosismo em minha voz: “O seu cachorrinho”, comecei, “tentou me morder. Eu tive que dar uma lição nele. Se você quiser encontrá-lo, ele deve estar descansando na enfermaria”. À menção do que ocorrera com Krug, uma sombra de ódio ameaçou passar por seu rosto, mas ele rapidamente recobrou a máscara de tranquilidade. “Interessante mesmo”, continuou ele, com o mesmo tom de voz, “pelo visto suas habilidades não foram afetadas por seu pequeno tombo tenente. Isso é reconfortante”. Depois se virou para o guarda que me acompanhara e disse-lhe, asperamente: “Vá à enfermaria e diga que o descanso acabou para Krug. Que eu ordeno que ele se apresente aqui, imediatamente, não importa o seu estado, entendeu?”. O rapaz engoliu em seco antes de soltar um “Sim, senhor” baixinho e sair pelo corredor escuro.

Ele voltou o seu olhar para mim, analisando o meu rosto cortado minuciosamente. Depois voltou a olhar o lugar, bebendo cada detalhe. Alguns instantes depois, Krug apareceu com Bhara, arrastando o seu corpo gigante com dificuldade pelo salão recoberto de fios. Sua perna inchara ainda mais, e a carne estava com uma cor mista entre verde e roxo. Não estava mais pálido, mas ainda segurava a bolsa de sangue, e estava empapado em suor. Ao ver o estado deplorável de seu subordinado, uma expressão sinistra sombreou o rosto de Mach. Então ele voltou seu olhar para Clito, que continuava a encarar o chão. “Sabe Aspines”, continuou ele, “A pequena incursão que eu ordenei contra a sua divisão teve a pequena ajuda de um grande amigo seu. Pode adivinhar quem é?”, acrescentou com um sorriso maligno, “Talvez a coisa não tenha ido tão longe quanto traição aberta, mas para todos os efeitos deu na mesma. Você deveria escolher suas sentinelas com mais cuidado tenente. A última que capturamos estava ferrada no sono”. De repente a expressão culpada de Clito fez todo o sentido. Foi um baque mais forte que qualquer uma das pancadas de Krug. Eu não podia acreditar que ele dormira em serviço, pondo em risco toda a divisão. Lancei-lhe um olhar colérico, que ele não respondeu. A humilhação era pior para ele do que a captura em si, e ele virou o rosto. Mach riu com puro deleite, vendo que conseguira me jogar contra meu melhor amigo.

“Espero que você concorde”, continuou ele, “que dormir em serviço é passível de uma punição séria”. Ele fez um gesto com a cabeça, e dois recrutas apanharam Clito, que nem se deu ao luxo de resistir. Uma mesa foi puxada para o centro do cômodo e colocaram o meu amigo sobre ela, segurando-o firme pelos braços e pernas. Toda a minha raiva se dissipou, naquele instante, ao ver o que Mach ia fazer. Levantei-me e corri instintivamente em direção à mesa, mas Bhara me acertou novamente com o bastão, e segurou-me firme contra o chão. “O comum é a pena de morte”, prosseguiu Mach, “mas apesar de você aleijar o meu melhor soldado, eu serei misericordioso e justo. Uma perna por outra. Não é justo, Aspines?”. Contorci-me, tentando chegar para junto de meu companheiro, mas o recruta me segurava com força. Outro soldado, o que escoltara Clito, apanhou um bastão, trazendo-o da despensa. A lâmina estava enferrujada, torta, e uma camada de gelo a recobria, dando a ela um aspecto maligno. Krug sorria com aberto prazer. O recruta se aproximou de Clito, colocando a terrível arma na altura de seu joelho, segurando-a com firmeza com as duas mãos. A um aceno da cabeça de Mach, ele ergueu a arma e golpeou com toda a força. Posso dizer que foi assim pelo som gutural e horrível que meu amigo soltou, bem como pela barulho cacofônico do sangue jorrando em torrentes e dos aplausos e gritos frenéticos dos seguidores de Mach. Eu mesmo desviei o olhar.

Continua…

por Claus P. Neto

Anúncios

Cinerus H. Luper – O Cartomante II (aton)

Boas noites e desculpem essas horas de atraso. Já aproveitem também para desculpas o texto longo, mas eu pretendo fazê-los mais curtos e de forma que terminem em um dia. Bom… Boa leitura!

O cartomante

parte II

Encontrado com uma estaca no coração e os números: “I, X, XIII, O, XII”, o “O” certamente deve ser a carta “O louco”, que não tem número. As digitais não puderam ser recolhidas devido ao estado das mãos do assassino, notoriamente calejadas e de canhota dominante.

Na manhã seguinte fui ter com o padre da Igreja que agora já era o elo de SEIS crimes. Robusto. Aperto de mão com uma distância maior do que um metro e submisso (de palma voltada para cima) – infância na roça, talvez um pai opressor ou uma mãe excessivamente protetora Cumprimentou-me com a mão direita – leve inclinação no trapézio, inflamação? – Caspas apenas no ombro direito – por que não no esquerdo? Se ele, ou alguém, as tivesse limpado faria em ambos. Então sua cabeça ficou inclinada para o lado direito, segurada pela mão destra, enquanto a esquerda estava ocupada. Ambidestro? – Unhas recentemente cortadas.

Por fim, o padre tinha o Álibi de ter ficado as noites em claro estudando na biblioteca do seminário, o que fazia sentido. Apesar de isso não ser o suficiente para impedir que o MPF o indiciasse. Afinal, parece que todas as vítimas foram vistas no confessionário pouco antes do óbito. Mas simplesmente não havia qualquer sinal do tarô, ou coisa que servisse.

Mas uma coisa boa de ser um detetive consultor é não ter que lidar com absolutamente nada da burocracia. Assim, me sobra um enorme tempo livre para realmente investigar. Assim, após uma rápida olhada nos mapas da cidade, caminhei por todas as áreas de campo ou pasto com a esperança de encontrar um solo que fosse parecido com o que estava no sapato da sexta vítima. É certo que, pelas vestimentas urbanas dos que foram mortos, não deveria ser algum lugar muito afastado da cidade, o que excluiu uma bom campo de pesquisa.

Encontrei uma casa com um gramado descuidado, cheio de falhas e sem qualquer trilha para levar até a porta. Obviamente uma residência sem endereço e, portanto, livre de qualquer busca que os caros investigadores possam ter feito pelo computador. Ali morava uma mulher conhecida como cigana.

Ela era careca – cabelo raspado, disfarçado com maquiagem – aperto de mão duplo – perfil político – verruga no nariz – novamente maquiagem – unhas quebradiças e finas – problemas cardíacos – corpo flácido disfarçado sob vestidos e panos de seda – dera a luz cinco ou seis vezes? – joias caras desbotadas, sem aliança – abandonara o marido? – Pés descalços, porém limpos – ela não mora aqui! – rosto e garganta inchados – alcoolismo e tabagismo?

Após uma leve pressão, a mulher confessou que atendera todos os seis mortos, tirara a sorte nas cartas, que era uma fraude e que não matara ninguém. Uma mentira redentora e uma verdade desesperada podem ser difíceis de distinguir, mas ela era destra e de dedos finos, incompatíveis com as marcas deixadas pelo assassino. Ainda sim, faltava a peça central do enigma. Tive que levá-la sob custódia, apesar de que, sem um mandato, isso seria “ilegal”.

Aparentemente, as vítimas descobriram-na devido a um panfleto colado em um poste próximo à igreja. Porém, ao conferirem a informação, alguém já o havia arrancado, deixando apenas os cantos do papel. Um rasgo grosso dedos lagos diagonalmente da esquerda superior à direita inferior canhoto! O Assassino esteve aqui as mascas do puxão deixadas no papel ainda eram visíveis ele esteve aqui não mais do que algumas horas!

Pelas câmeras de segurança de um estabelecimento próximo pode-se ver que um dos seminaristas da paróquia havia arrancado a propaganda. Ombros retos e peitoral largo teve treinamento físicopostura perfeitamente ereta e séria treinamento militar? punhos cerrados e passos de oitenta centímetros ou mais senso de moral fanático.

Após algumas perguntas, descobriu-se que frequentemente ele tomava confissões no lugar do Padre. De forma que as vítimas devem ter conversado com o seminarista. Este surtou, e os matou. “E o faria de novo”. 

Wasteland parte IX_-_por Claus P. Neto

Bons dias a todos. Peço perdão pela ausência de um texto ontem, uma falha gerada por uma correria desgraçada aqui em casa envolvendo um gato, um peixe, dois websites altamente suspeitos e um centro de tortura disfarçado em nossa cidade. No entanto, essa sequência de eventos teve um desfecho interessante: posto hoje um texto de ficção científica no que coincide com o dia da toalha e do orgulho nerd, celebrando um dos maiores gênios do gênero e inspiração para minha pessoa, Douglas Noel Adams. Aproveitem o texto para celebrar essa data (ou não) e para todos os efeitos, feliz dia da toalha!

Bons dias

Wasteland parte IX_-_por Claus P. Neto

De repente ouvi um estrondo. No reflexo, levantei-me rápido demais e bati a cabeça no teto do módulo.  O meu recente ferimento na cabeça se abriu, e a dor se apossou de mim, de modo que nem pude respirar direito. Saí do módulo xingando baixo, e me pus de pé, respirando fundo. O ruído viera do outro lado do dormitório. O que deve ter me alertado foi o silêncio: um estrondo daqueles deveria ter posto meus comandados, já veteranos de guerra e acostumados a situações de perigo, de pé e com armas na mão. Lentamente retirei os meus dois bastões e acoplei-os ao antebraço do exoesqueleto, testando a movimentação automática. Fechei o capacete da armadura e fui em direção à fonte do barulho. Meus passos chegavam a ecoar no cômodo grande e escuro. Foi quando eu me toquei que deveria ter acendido a luz do capacete. Parei, consternado com a minha própria falta de senso. “Se fosse em uma campanha real, Aspines”, pensei, “você não se embrenharia em terreno desconhecido e sem nenhum meio de se orientar. Ainda mais no escuro”. O interruptor estava muito longe. Tive que me contentar em acender a lâmpada de meu exoesqueleto. Foi quando eu ouvi um ruído baixinho à minha direita. Vinha de um dos módulos. Foi quando eu percebi, aterrorizado, que era um de meus soldados, amarrado em com uma mordaça caída em volta de seu pescoço, preso em seu próprio módulo de dormir, gritando por ajuda.

Foi quando eu percebi que algo, algo grande, se arremessava contra mim. A despeito de estar desnorteado e ferido, meus reflexos ainda eram os mesmos, e eu escapei da carga de meu agressor com um pulo ágil para frente, ao mesmo tempo em que colocava os bastões em posição ofensiva, as lâminas cortantes prontas para agir. Virei-me e atingi o meu adversário com os bastões na altura dos joelhos, fazendo-o soltar um grito de dor quando as terríveis armas dilaceraram a carne, fazendo seu sangue jorrar. No entanto, ele não estava sozinho, e recebi uma pancada em minhas costas, fazendo-me cair. Volte-me rapidamente para cima e bloqueei um novo golpe de meu agressor. Chutei-o com toda a força, ouvindo com prazer a sua coxa estalar sob a pressão de minha armadura. Nesse ponto, outros três se juntaram e começaram a golpear-me de todas as direções. Defendi-me como pude, bloqueando, cortando, chutando e lançando rajadas de fogo pelo lança chamas. Mas mais e mais inimigos se acumulavam ao meu redor e em pouco tempo nem mesmo a força extra de minha armadura era suficiente para conter o peso daquela massa viva sobre mim. Um golpe forte quebrou o visor de meu capacete, cortando meu rosto. Um novo golpe foi desferido em meu braço esquerdo, no ponto onde se conectavam os circuitos do braço mecânico, e logo mais cortaram o cabo principal localizado no pescoço. Com isso, o exoesqueleto deixou de responder, me prendendo dentro dele devido ao peso, incapaz de responder os ataques daquela turba furiosa.

Eles continuariam a me espancar co os bastões, não fosse por uma voz profunda que berrou aos meus agressores: “Deixem-no, ele não vai a lugar algum nesse exoesqueleto, seus imbecis. Agora venham e me ajudem com essa perna maldita! E depois vão e tratem dos outros. Eu avisei que esse aí ia dar mais trabalho”. Relutantemente, eles obedeceram, não sem antes cuspir em mim, indo ao encontro do que havia me atacado primeiro. Não podia ver muito por conta da escuridão e por não poder mover livremente a cabeça.

Esforcei-me por ouvir o que meus atacantes falavam, mas o capacete também atrapalhava a minha audição. Os cortes em meu rosto ardiam como fogo. Ri, pensando na ironia de ver Clito e perceber que teria um rosto tão desfigurado quanto o dele. Automaticamente pensei nele. Nele, em Rike, em Zooz, em todos os da minha divisão. Será que algum havia conseguido escapar? Imaginei que Mach estava por trás de tudo isso, mas infelizmente não podia ter certeza. Mesmo com a nave pulando aleatoriamente pelo hiper espaço era possível que as tropas da Coligação nos houvessem seguido. Além disso, apesar de Clito haver me dito que a nave fora vasculhada sempre era possível que um remanescente dos vespas brancas ainda estivessem escondidos. Foi só quando acenderam a luz, depois do que me pareceu uma eternidade, que eu tive certeza. Piscando fortemente por conta da claridade súbita, fiquei encarando o teto, até que um rosto maciço e gordo bloqueou a luz. “Bem Aspines”, falou Krug, “parece que você me deve uma perna nova. Espero que esteja melhor para ver o chefe”, acrescentou o brutamontes com uma expressão de ódio estampada no rosto.

Fora ele então quem se lançara contra mim pouco antes, só para ter o seu joelho rasgado por meu bastão. A uma ordem seca dele, dois recrutas me retiraram do exoesqueleto. Tentei resistir, mas a luta anterior somada aos ferimentos não me permitiram fazer muita coisa, especialmente contra dois. Quando saí da armadura, pude ver o estrago que meu golpe desferira no cão de Mach. Ele recebera uma atadura de emergência e segurava uma bolsa de transfusão de sangue e estava pálido por conta do sangramento. Sua perna também estava imobilizada, e ele contava com a ajuda de um dos seus comandados para se manter em pé. Fora um corte feio, que teria decepado a perna de uma pessoa mais fraca. Mas mesmo com a constituição vigorosa e os músculos de aço dele, o estrago foi tamanho que ele precisaria de uma perna mecânica pelo resto da vida. Vi também outros três ou quatro feridos da divisão dele, incluindo aquele cuja perna eu quebrei, recebendo tratamento dos companheiros. Os dois que me seguravam me aproximaram de seu chefe, de modo que meu rosto ficou a poucos centímetros do dele. Ele desferiu então uma pancada forte, justo no ponto onde minha costela trincara, me fazendo contorcer de dor. “Sabe”, continuou ele, “Uma perna mecânica é difícil de achar, mesmo numa nave como esta”. Ele desferiu outro soco, dessa vez na embocadura do estômago. “E sabe o que mais? Mesmo com uma dessas eu nunca mais vou poder lutar”, e bateu de novo, “ou correr”, outro golpe, “ou fazer qualquer outra coisa aqui nesta nave”, disse acompanhado de uma cacetada em minha cabeça que quase me fez perder os sentidos.  “Devia ter pensado duas vezes antes de avançar pra cima de mim”, falei, quase em delírio. Ele contorceu ainda mais o rosto com ódio, fazendo que ia me acertar novamente, mas de repente mudou desistiu da ideia. “Sorte sua o chefe te querer inteiro. Eu não sei o que ele poderia querer com um merda como você, mas tenha certeza que se ele mudar de ideia, eu serei o primeiro a acatar as ordens dele sobre o seu… tratamento especial”, falou com uma voz entrecortada. “Amarrem-no junto com os outros e joguem água nos que desmaiaram. Levem todos para o local combinado, mas tomem o tenente e mandem ele pro Mach, junto com o amigo feio dele. E dois de vocês, me levem para a enfermaria. Preciso deitar um pouco”. Pouco depois eu estava com as mãos algemadas às minhas costas, olhando Krug arrastar o corpanzil pela porta, junto com dois infelizes recrutas. Olhei ao meu redor, só para ver os rostos desolados de meus soldados ao verem seu líder preso com eles. Todos estavam amordaçados, e eu não pude me comunicar com nenhum deles. Vi então o quanto minha divisão estava escassa: Apenas quarenta dos 120 que se juntaram à rebelião estavam ali, amarrados. Logo os comandados de Krug nos levantaram e conduziram-nos, de modo rude, pelos corredores escuros. Depois de várias voltas, fui separado do grupo e conduzido por outro caminho, em direção ao refeitório, onde supostamente estava Mach. Olhei para o lado e vi Clito andando lado a lado comigo, empurrado por um jovem com talvez a metade de sua idade. Ele não retribuiu o meu olhar, focando no chão, com uma expressão completamente miserável. Tentei falar-lhe, mas o guarda atrás me mim acertou-me com a ponta do bastão mal quando abri a boca. Seguimos então em silêncio, os passos de nossos pés descalços, enquanto íamos ao encontro de meu pior inimigo.

Continua…

Por Claus P. Neto

Cinerus H. Luper – O cartomante (Aton)

boa noite! A programação me dizia para lançar uma crônica hoje. Porém vou lhes trazer um novo conto. A ideia é fazer microcontos com a mesma personagem, de modo que a história não seja a mesma, embora envolva os mesmos aspectos. Assim apresento-lhes Cinerus H. Luper. Boa leitura. Ps: Pretendo trabalhar com ele uma vez por mês, mas como a introdução ficou meio extensa, dividi em dois capítulos o caso de hoje

O caso do Cartomante

parte I

Que me seja perdoado ser o segundo detetive consultor, que eu saiba. Mas conquanto o primeiro a muito repousa em paz, tomo-lhe a ideia e sigo com as demonstrações que a ciência da dedução traz em diversos segmentos da vida, principalmente em crimes. Assim, quem vos fala atende pelo nome de Cinerus H. Luper. Aqui estão algumas linhas de um dos casos mais interessantes que já tive.

Na época, estava consultando para o MPF sobre a possibilidade de um assassino em massa numa cidade interiorana. Fui contatado quando havia apenas cinco mortos. O trabalho que a polícia havia feito até então foi descobrir que todos eles frequentavam a mesma Igreja, porém em horários inconstantes. Além da pista trivial do crime: cinco números romanos pintados com sangue sobre o peito das vítimas.

Contudo, eram números aleatórios que variavam de um a dezenove, dependendo do corpo. Apesar do XIII repetir-se em todos. O curioso, entretanto, eram o “VIIII” e o “XVIIII”, que, normalmente, deveriam ser escritos “VIX” e “XIX”. Embora, na idade média, algumas representações góticas também foram escritas com o “I” repetido quatro vezes. Portanto nosso assassino tinha alguma influência medieval

Com efeito, nessa época surgiram muitas especulações a respeito do XIII como um símbolo do mau agouro, do infortúnio, da morte! Ora, o que reúne aproximadamente vinte elementos, criado entre os séculos XI e XV, no qual o décimo terceiro elemento é a morte? Precisamente um baralho simples de tarô com 22 cartas, a baralho dos “arcanos maiores”.

Havia pouco para ser dedutível, todas as cenas dos homicídios anteriores já haviam sido limpadas e as fotos focavam demais na forma como as pessoas haviam morrido, esquecendo que o importante era o motivo pelo qual isso ocorrera.

Com um pequeno auxílio da internet reuni algumas peças: a jogada básica do tarô, conhecida como “cruz celta”, envolve a disposição de cinco cartas. Cada corpo possuía cinco números. Até então, tudo só indicava que o criminoso era inexperiente tanto na leitura da sorte, quanto no assassinato. Até que veio a sexta vítima.

Homem, quarenta anos, casado – Não possuía a marca de sol da aliança, o que indica que a tirava para trair a esposa durante o dia, talvez em finais de sema ou viagens? – Vestido socialmente, mas com sapatos sujos de terra e grama – traços de um campo ou pasto? – Dedos e dentes amarelados – envolvimento com drogas – Lábios rachados e problemas com caspa – estresse – Rico – muito rico pelo relógio, mas casou-se pobre pela aliança – Católico. Então tudo fez sentido. Mais do que qualquer coisa, esse homem era um pecadorComo também frequentava a mesma Igreja que os demais.

Wasteland parte VIII_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes a todos. Peço desculpas a todos pelo extenso número de postagens sobre o mesmo conto. Acontece que, devido a problemas com a minha agenda, estou sendo forçado a escrever menos, infelizmente, de forma que os posts ficam mais curto e, portanto, aumentam em número. Sei que às vezes é chato esperar uma semana e ler um micro fragmento de texto, a impressão que dá (pelo menos pra mim) é que quebra o fluxo narrativo. Não sei quanto a vocês, mas em todo caso a aba de comentários está aí pra isso. Obrigado, e aproveitem.

Boas tardes.

Wasteland parte VIII_-_Por Claus P. Neto

Clito me ajudou a levantar. Depois, voltei ao painel de controle e após uma pesquisa rápida no catálogo do arsenal, escolhi dois exoesqueletos de neoaço de camada dupla com capacidade de aumentar em duas vezes e meia a capacidade de carregamento e propulsores de salto de três metros, e dois conjuntos de bastões modelo Gungnir. Esses eram os mais recentes, e ninguém em meu batalhão havia usado um. Eram bastões multiuso de 5 Kg cada, com acoplagem para disparar granadas, lâminas laterais retráteis para efeito cortante, um pequeno lança-chamas que podia converter-se em solda e capacidade de se acoplar ao exoesqueleto, facilitando seu manuseio.   Além desses, escolhi cinco granadas de fragmentação e três de concussão. Após a seleção, o cômodo inteiro começou a zumbir com o barulho dos braços mecânicos tirando os equipamentos das prateleiras e depositando-os na “clareira” formada pelas galerias. Em cinco minutos, Clito e eu estávamos equipados com o melhor que o exército já havia produzido, provavelmente os primeiros da ala negra das vespas a fazê-lo em muitos anos. “Se ao menos tivéssemos acesso a esse tipo de armas”, pensei, “quantos bons homens ainda não estariam vivos? Essa revolução imbecil poderia nem chegar a estourar”. Cerrei os pulsos, irritado com o pensamento. A Coligação sempre favorecera a ala branca, ou pelo menos desde que eu me lembro. A ala com dinheiro. Um bando de mimados que nunca viram uma arma na vida e que descartam equipamento como se não fossem nada. Um bastão recauchutado em estado mediano era disputado a unhas e dentes dentro do batalhão. Eu me lembro que para ganhar os meus, tive que limpar o quartel praticamente sozinho por dois meses, fora entregar um presente particularmente caro para o meu superior. Enquanto isso, os vespas brancas trocavam de armas todo ano, sempre recebendo versões melhores, mais potentes, que só chegariam a nós depois de muitos anos.

Depois disso, saímos para o corredor. Com o apoio do exoesqueleto era bem mais fácil andar, muito embora minha respiração ainda ardesse. Fechei e lacrei a porta atrás de mim, colocando a minha biometria como a única disponível. Isso queria dizer que o arsenal era todo meu: a qualquer tentativa de invasão as portas se trancariam por um período randômico de tempo, depois do qual eu deveria liberar seu acesso ou bloqueá-lo de vez. Andamos pelo labirinto de corredores. O silêncio era tamanho que chegava a ser assustador. Não cruzamos com ninguém, até que chegamos à camada dos dormitórios. Assim que chegamos lá, um garoto franzino, de aspecto afilado, saltou agilmente da viga de onde estava sentado, a dois metros do chão. Assim que se levantou, abriu um sorriso de orelha a orelha. “Tenente! Graças a Deus! Quando eu te vi no chão perto da ponte eu…”. Gargalhei, atrapalhando a narração do garoto. “Bom te ver também Rike. Vejo que não perdeu a energia”. “Não senhor”, afirmou o rapaz, “se bem que eu ficaria bem melhor se o cara feia aí do seu lado voltasse ao posto e me deixasse dormir de vez. Já é o terceiro turno de vigia que eu cubro o turno de vigia dele pra que ele pudesse te visitar”. Clito riu do comentário ácido do rapaz. “Ah! Mas foi bom ter um homem de verdade para cuidar do nosso amado líder”, falou enquanto me dava um tapinha nas costas, “especialmente depois que o Krug apareceu”. O sorriso de canto de boca de Rike derreteu, e seu rosto ficou pálido ao ouvir a menção do nome. “Então é verdade? Mach tomou a nave?”. Clito também parou de rir. “Sim moleque, ele tomou. Como eu já tinha te avisado nos últimos três dias”. O garoto olhou pra mim, a expressão de preocupação ainda maior. “Ele…não fez nada com o senhor, fez?”. Engoli o medo, colocando um falso sorriso de tranquilidade no rosto. “Não Rike, não fez. Clito estava lá. E além disso, parece que Mach está tomando um pouco de fôlego antes de aplicar qualquer plano em cima da gente. Por enquanto estamos bem”. O alívio lentamente se espalhou sobre o rosto dele. Era importante que ninguém entrasse em pânico, mesmo na situação em que estávamos. Forcei u pouco mais o sorriso. “Bom, de um jeito ou de outro eu preciso de um bom descanso. E pelo visto você também Rike. Volte pro beliche, o Clito te cobre”. Antes que meu amigo pudesse protestar, entrei no dormitório. Andei por entre os corredores até achar uma cápsula vazia. Aparentemente somente Rike estava acordado àquela hora.  Coloquei a minha mão sobre o leitor biométrico ao lado do leito, e após um curto bipe a cápsula se abriu. Nem tirei o exoesqueleto: entrei nela e deitei-me, as mãos cruzadas sobre o peito. Tudo o que me ocorrera nos últimos dias me deixara exausto.  Não demorou até que eu fechasse os olhos e dormisse um sono sem sonhos.

Continua…

Por Claus P. Neto

Máfia das letras (Aton)

Felicitações. tomei a liberdade de escrever como surgiu este nosso singelo blog na crônica de hoje. Na verdade, essa era uma ideia tão óbvia que eu não sei como ainda não fora feita! É um texto mais burocrático, muito menos reflexivo e mais narrativo. Tentarei deixá-lo amigável, mas é um relato meio cansativo, mas vital. Enfim, Boa leitura!

Máfia das letras

Num ponto um pouco menos apagado do mapa, próximo ao quinto dos infernos, mas antes de onde judas perdera as botas, fica a cidade de Urubá (nome meramente descritivo). Na verdade, pode-se dizer que ela, bem como seus habitantes, têm a personalidade de um lanche, desses feitos com pão francês amanhecido, queijo e a carne do almoço da semana passada. Pois é… Lá eu e Claus moramos. O começo de tudo foi alguns anos atrás quando nos conhecemos em uma escola que parecia ter uma ideia promissora de ensino, que no fim mostrou-se tão boa quanto a cidade.

Ainda que o pão que moldava as cabeças dos nossos colegas fossem mais novos, a carne era velha. Não obstante as conversas eram engraçadas, embora tão produtivas quanto essas minhas comparações culinárias. Enfim, um dia tomando banho eu me perguntava o significado da minha ignorância, e do resto dos urubaenses, quando eu cheguei a uma estranha conclusão. Grandes centros urbanos costumam ter uma média de inteligência mais elevada, Por Quê? Simples, a comunicação presente no dia-a-dia dos metropolitanos é centenas de vezes mais intensa.

A quantidade de informação contida nos anúncios, nas placas, nas vestimentas diversificadas das pessoas, et cetera, torna os habitantes de grandes cidades leitores e escritores (verbais ou não) de forma inconsciente. Não é preciso dizer que a grande parte dos meus colegas mal leram outras coisas além dos livros obrigados pelas escolas (e, às vezes, nem isso). Entretanto, eram a elite intelectual de Urubá. Mas como então mudar a cabeça dos meus conterrâneos? Criando um espaço de cinco minutos de leitura diária.

Antigamente, na época do romantismo, grandes livros foram escritos através de folhetins, ganharam uma respeitável audiência e com uma linguagem complexa. Por que não reviver isso na era digital? Não foi necessário nem dez segundos de toda essa explicação e o Claus já topava. Apesar do nosso 1º post ter sido no dia 02/11/2012, já vinhamos discutindo a ideia desde agosto. Fizemos desenhos e tudo para programar a página inicial, porém, para nossa alegria, o wordpress já possuía uma bela ferramenta de customização que poupou muito tempo.

A ideia era escrever livros de verdade, mas a equipe reduzida , o enorme tempo gasto e o desgaste, realmente foram pedras maiores do que esperávamos. Quase tivemos mais membros, mas não deu certo. Ainda muitos planos dormem na gaveta, esperando a oportunidade de dias mais calmos e mais mafiosos para a família.

Faltou explicar como o nome surgiu. Começou com “projeto W” no meu caderno de notas e depois, pelo menos, uns vite outros nomes (que na verdade representaram a maior parte dos três meses que ficamos discutindo sobre como começar). Mas um belo dia um professor começou a reclamar do abuso de radares nas ruas, comparando o serviço de trânsito a uma máfia. Quase instantaneamente o nome formou-se na mente, e não foi necessário nem um segundo a mais para sabermos que esse era o nome.E aqui estamos.

 

Wasteland parte VII_-_por Claus P. Neto

Wasteland parte VII_-_por Claus P. Neto

Entrei no imenso galpão, os som de meus pés descalços ecoando contra o chão de aço frio. O arsenal era imenso, desenhado para abastecer exércitos em campanha, o que condizia com o modelo da espaçonave, projetada para ser a base de regimentos inteiros. O teto, mais alto do que a porta, devia ter em torno de dez metros de altura, com andares e mais andares de prateleiras de aço contendo armas. Esses andares se organizavam de tal modo que circundavam todo o aposento, deixando apenas um espaço vazio no centro de dois por dois metros, no meio do qual estava o painel de controle, por onde se podia escolher a arma ou equipamento desejado. Entre o chão e o primeiro andar havia um vão de dois metros e meio, para que os veículos e os equipamentos maiores pudessem ser acomodados com folga. Passei por andarilhos anti-ar, grandes escudos móveis que podiam disparar ondas de concussão para destruir mísseis e naves menores, veículos Kremer, capazes de alcançar 500Km/h em linha reta, pequenos módulos de voo, entre vários outros equipamentos de guerra. Apesar da quantidade e do ótimo estado dos veículos, tanto eu como Clito não nos deixamos impressionar, indo direto para o painel de controle.

Subi a plataforma onde estava o console e novamente apresentei minhas digitais. Após esse procedimento, o controle do arsenal era todo meu. Clito se aproximou de mim, receoso: “É melhor pegarmos logo o melhor equipamento que pudermos e sair. Não é seguro com os homens de Mach circulando”. Olhei pra ele com uma expressão zombeteira, dando uma risada leve. “Com medo, Clito? Eu esperava mais de você”. Ele franziu o cenho, a preocupação aumenta pela provocação ácida. “Há alguns segundos atrás você estava preocupado que eles tivessem tomado o arsenal, e agora você relaxa? Temos que nos apressar!”. Compreendi a ansiedade de meu companheiro. Ele ainda não superara bem o fato de não ter se assegurado do arsenal antes, o que poderia ser desastroso. Continuei, tentando tranquiliza-lo: “Sim, mas eles não tomaram o arsenal. Agora nós o temos nas mãos. O sistema do arsenal é completamente separado do resto da nave, e mesmo que não o fosse, a ponte de comando está destruída. Não tem como ele saber que assumimos controle. E eu não vim aqui só pra pegar algumas armas pequenas e um exoesqueleto novo”. Virei em direção ao console e calmamente digitei a sequência de comandos, até que a tela ficou completamente preta. Agora vinha a parte complicada. Respirei fundo. Não podia haver erros dessa vez.

Comecei a digitar furiosamente, uma linha de código após a outra, ao mesmo tempo em que contava o tempo mentalmente. “Quarenta e cinco, quarenta e quatro…”, o tempo estava acabando muito rápido. Não ia dar tempo. Aumentei a velocidade, mesmo preocupado com possíveis erros. Continuei, o tempo se esvaindo. Meus dedos já doíam e meu braço começava a contrair sozinho. Irritado, ignorei a dor, concentrando-me no tempo. “Dez, nove…”, continuei furiosamente. Minha visão começou a embaçar de novo. A costela quebrada agora parecia arder. Lágrimas involuntárias vieram, não me permitindo ver nada; “…oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois…”. No último segundo, apertei o último caractere e um pequeno e amigável bipe foi emitido pela máquina. Enxuguei as lágrimas, irritado com o fato de Clito estar vendo. A onda de fraqueza me assaltou de novo, e meu amigo teve que me segurar para que eu não caísse. Ele me ajudou a sentar, olhando-me com um misto de perplexidade e preocupação. “Você fez o que acho que você fez?”. Dei uma risada, apesar da costela. “Sim cara de retalho, eu fiz”. Agora gargalhava de puro alívio. Dera certo. Dera certo. Ele continuou me encarando embasbacado. “Você é maluco?! Podia ter matado todo mundo!”. Encarei-o de volta, com um sorriso maroto no rosto. “Mas não matei, não é? Agora pegue as armas e os exos e me leva pro dormitório. Sinto que posso dormir por dias, depois dessa”. Dei outra risada, satisfeito. Dera certo.

Continua…

Por Claus P. Neto