Wasteland Finale I

Boas noites a todos. Minha esperança de acabar esta história ainda hoje foi completamente frustrada por nada menos que a própria história. À medida em que eu escrevia a parte final de Wasteland, percebi que ela pedia pra ser contada um pouco mais. Tive que ceder, não tenho o hábito de discutir com o meu trabalho. De um jeito ou de outro, o conto está acabando. Ele só teve um último hausto de ar, nada mais. Pelo menos por enquanto. Já não tenho certeza se irei terminá-lo semana que vem, mas essa esperança estúpida está me acossando de novo. Veremos se ela está certa.

Boa leitura e boas noites.

Wasteland Finale I

Aos poucos os meus soldados foram se agrupando perto da cratera recém-aberta. O último grupo a chegar foi o de Clito, com os dois da cabina mais os cinco que ficaram de resgata-los, já que eles não tinham armas e estavam em menor número que os seus captores. Fizemos a contagem e todos, felizmente, estavam lá. Um ou dois tinham ferimentos leves e outros estavam manchados de sangue, mas esses eram os únicos vestígios de luta. Como previsto, os soldados de Mach nem tiveram tempo de reação tamanha a sua surpresa. Os poucos que não se apoderaram dos bastões ainda tinham as pesadas chaves em mãos, de modo que todos estávamos razoavelmente bem armados. Afinal, já havíamos entrado em batalha com muito menos que isso, e estávamos todos ali. Os recrutas me olharam com expectativa, esperando as ordens. Não pude conter um sorriso. Estávamos extenuados, feridos e fracos, mas estávamos juntos de novo, como uma equipe, contra um inimigo comum. Éramos de novo a divisão campeã da ala negra das vespas. Abri o cortejo, passando agilmente pelo buraco e virando à esquerda, com todos os outros me seguindo. Foi só quando eu olhei para trás que eu percebi que a unidade estava muito atrasada. Foi quando me deu um estalo: Clito! Era lógico que a perna o fazia mais devagar, mesmo com os companheiros ajudando, e a divisão não iria deixa-lo para trás. Censurei-me pela falta de tato e reduzi o passo, deixando que me alcançassem. Ao mesmo tempo uma preocupação passou por minha cabeça. Para o plano dar certo, era necessária a rapidez, para atingirmos a sala de máquinas e o arsenal sem ser pegos. Como as coisas estavam, havia uma grande chance de Mach nos achar antes que pudéssemos escapar. Além do mais, eu ainda teria que checar se a parte crucial do plano estava como previsto…

Com um grande peso, chamei Ryke e lhe expliquei a situação. Entreguei-lhe um comunicador usado antes pela guarda, e expliquei-lhe onde deveria ir e o que fazer. Ele assentiu com a cabeça, e depois de uma última recomendação de cuidado ele saiu correndo e rapidamente o perdemos de vista. Seguimos todos pelo corredor até uma bifurcação, com uma escada à direita descendo. Parei a companhia por um momento e apurei os ouvidos, tentando captar qualquer som de perseguição ou movimento. Não ouvi nada. Satisfeito, e muito mais aliviado, desci a escadaria escura. Foi difícil para todos nós no escuro, mas após pouco tempo chegamos ao seu fim. Segui cuidadosamente, sentindo o chão frio vibrar levemente sob meus pés. À medida que avançávamos, a vibração aumentou, indicando que estávamos na direção certa. Não andamos mais do que vinte passos até chegar a outra grande porta, no mesmo estilo e proporções que a do arsenal. Coloquei minha mão no ponto-chave metálico enquanto o sistema fazia a minha biometria, fazendo a porta zunir. Cinco segundos depois se ouviu um grande estalo e eu empurrei a porta gentilmente. Estávamos finalmente entrando na sala de máquinas. Ordenei que cerrassem o pórtico assim que todos nós havíamos entrado. Todos me olharam com dúvida, perguntando se não era melhor colocar uma pequena guarda junto à escada para emboscar possíveis inimigos. Assegurei-lhes que era perfeitamente seguro, conquanto a porta estivesse cerrada, mas ainda assim o olhar de dúvida permaneceu. Foi quando eu lembrei que Ryke ainda estava lá fora. A porta, com várias camadas de metal, não permitia que os comunicadores funcionassem a distâncias muito longas, e o ruído interno não nos permitiria ouvi-lo chamando do lado de fora. Murmurei baixinho, já que não podia estabelecer contato com ele (visto que o ruído revelaria a sua posição, caso estivesse escondido), nem arriscar outro do grupo para assegurar se ele estava bem. Mas o ruído da sala também poderia comprometer a nossa posição, já que, até onde eu estava ciente, ninguém sabia que estávamos lá. Caso alguma patrulha ouvisse o ruído estranhamente alto, teríamos de lutar cada palmo de terreno para escapar… Pensando rápido, chamei Kyo, Cley, Adris, Dekan e Akim, ordenando que todos pegassem bastões e armassem as lâminas retráteis. Entreguei a minha pesada chave a Clito, dizendo que até eu voltar ele estava no comando, ao mesmo tempo em que pegava dois bastões eu mesmo. Todos me olharam com surpresa ao ver que eu ficaria de sentinela, mas o sentimento de respeito foi maior e ninguém questionou. Colocamo-nos à sombra da escadaria, totalmente imóveis, e a porta se fechou.

Agarrei o comunicador e coloquei-o no volume mínimo, apertando-o contra o ouvido. Ordenei que todos apurassem os ouvidos e me informassem se houvesse qualquer movimentação estranha, já que eu estaria focando no rádio. E ficamos assim por muito tempo. Não sei dizer quanto foi exatamente, mas me pareceram horas. Apavorávamo-nos com qualquer ruído, imaginando inimigos invisíveis se aproximando. Meus músculos, já fatigados, não demoraram a contrair, mas pouco eu podia fazer para mudar de posição sem ser visto. Tive que contrair bem os lábios e aguentar firme. Estava começando a me preocupar com Ryke. O lugar onde ele tinha que ir não ficava distante, e ele sabia o ponto de encontro. Ou havia sido capturado, o que era péssimo, ou significava que as patrulhas estavam sendo feitas em peso, o que era igualmente ruim. Àquela altura do campeonato Mach realmente já deveria ter mobilizado suas forças para investigar o que ocorrera na fábrica, se é que já não o sabia. Mas se os seus números fossem tais ao ponto de impedir a movimentação de um batedor experiente como Ryke, a fuga se veria comprometida. A verdade é que eu não sabia exatamente quantos da tropa de Mach haviam sobrevivido. A minha divisão, que abriu o ataque, teve muito mais baixas que a dele, mas eu não sabia com exatidão quantos do lado de meu oponente haviam morrido. Se soubesse com exatidão que a proporção de números não era tão grande, talvez tivesse tentado arriscar um ataque direto, enquanto os agentes dele ainda estivessem confusos. Afinal de contas, o seu melhor agente, Krug, estava fora de combate… mas são apenas suposições vagas, não há como saber o que teria ocorrido.

Quando eu estava prestes a ir eu mesmo arriscar um resgate de Ryke, o comunicador zumbiu levemente, e após apertar o botão ouvi a voz do recruta: “Na escuta, tenente? Senhor, na escuta?”. “Sim estou na escuta”, respondi, “reporte sua posição, câmbio”. “Estou a apenas alguns passos do local de encontro, senhor. Tudo ocorreu tranquilamente. O senhor tem que saber…”. “Você irá reportar assim que chegar ao local combinado”, cortei-o, um tanto secamente, “por ora, chegue aqui o mais depressa o possível, câmbio”. Após certo período de silêncio, denotando contrariedade do garoto por ter sido interrompido, ele respondeu: “Afirmativo. Câmbio e desligo”. De fato, em pouco tempo ouvimos passos leves, e a cabeça de Ryke surgiu no topo da escada. Saímos de nossa posição, deixando ele nos ver, e saímos todos para o pórtico. Coloquei minha palma de novo na superfície metálica e de novo a porta se abriu. Entramos todos e rapidamente fechei a porta atrás de mim. Pelo menos por um tempo estávamos seguros. Andamos pelo corredor, que se estendia por cerca de oitenta passos, e ao final abriu-se diante de nós a sala de máquinas. Vimos nossa companhia quase inteira ali, reclinando-se no chão ou sentada sobre algumas máquinas menores, enquanto uns cinco montavam guarda no pequeno hall que precedia o imenso galpão. Ao nos ver, todos vieram ao nosso encontro, formando um círculo, olhando com curiosidade para Ryke. Ele, sem saber se deveria dividir a informação com todos, olhou para mim pedindo permissão silenciosamente com a cabeça. Assenti, assentando-me no chão, gesto repetido pelos outros, enquanto o recruta narrava seu relato.

“Eu fui para o piso superior da nave, próximo ao círculo externo. Com a confusão gerada pela explosão, ninguém pensou em deixar aquela região guardada, indo todos em direção ao complexo industrial, de modo que consegui chegar lá sem problemas. Eu estava exatamente no lado leste da nave e mal eu dei dois passos, cheguei a uma das torres de observação. Foi então que eu vi”. Ele parou por um instante, quase incapaz de conter um pequeno riso. “Eu não sei como você conseguiu prever isso, Aspines. Mas estava lá, como você disse”. E ante o olhar de dúvida de todos os nossos companheiros, ele lançou a notícia que faria todos nós ter uma verdadeira chance de escapar. “Estamos na órbita de um planeta rochoso”. Todos se sobressaltaram, e por um momentos não pude conter a euforia de minha divisão. Um planeta, por mais inóspito que fosse, significava que poderíamos sair da nave. Lógico, ficaríamos presos ali, mas com os equipamentos certos poderíamos viver indefinidamente ali, o que já não era garantido a bordo da Plato. Já éramos exilados de nossa terra-natal. Era melhor viver sem saber se algum dia voltaríamos para casa do que em um lugar onde o grupo dominante quer te ver morto. Assim, a animação era justificável. Aos poucos, consegui controlar a exaltação de todos, mas antes que Ryke pudesse prosseguir, Akim fez a pergunta fatal: como eu sabia disso? E como eu conseguira acesso à sala de máquinas, já que em tese apenas o capitão tinha o controle da nave? Clito, com uma voz embargada e melancólica, foi mais rápido que eu: “Ele fez um drop-back no arsenal. Ele tinha permissão para entrar lá e usou o painel central”. Todos olharam com espanto para mim, quase dando um pulo para trás. “Aspines”, disse Ryke com uma risada, “Você é um verdadeiro maluco”. O que era meio verdade, considerando os riscos que isso envolvia.

O fato era: ninguém ali sabia que eu tinha conhecimentos em computação. Qualquer computador, por mais simples que fosse, era caro demais para que qualquer um de nós pudéssemos pagar. Foi o meu pai, baseado na experiência dele com os controles de bordo de uma nave, quem me ensinou a usar os comandos, usando uma prancha de madeira com um teclado desenhado. Ele me fez praticar naquela tábua, explicando o que cada comando fazia, obrigando-me a repetir operações e redigir textos incontáveis vezes, de modo que o conhecimento se enraizara. Ele podia visualizar a tela praticamente, e corrigia todos os meus erros de maneira impecável, ao mesmo tempo em que descrevia tudo tão bem que eu podia, também, imaginar os efeitos que as linhas imaginárias que eu escrevia tinham. O drop-back foi uma das últimas coisas que meu pai me ensinou, frisando a sua importância em situações de emergência. Era um truque descoberto durante as guerras das colônias, em que se podia tomar parcialmente o controle de toda a nave mesmo com os comandos destruídos. Funciona assim: todos os consoles, com suas diferentes permissões de uso, são conectados a uma central única. A diferença é que na ponte de comando os terminais são mais especializados e são os únicos a ter permissão para controlar a nave e pedir os seus status de operação. O que se descobriu, no entanto, é que dos outros consoles era possível hackear a central. Bastava entrar com os comandos de quebra de segurança da nave e reconfigurá-la para que o console passasse a ser o “mestre”. O problema desse truque é que ele desativava o firewall do sistema interno, que por medidas de segurança se desligava em cerca de 45 segundos. Isso significava que o console tinha que ser configurado praticamente do zero nesse espaço de tempo, ou o computador central parava, tornando a nave completamente inativa, o que significava a morte de quem quer que estivesse dentro, já que os giroscópios que mantinham a falsa sensação de gravidade paravam, bem como os filtros de reaproveitamento de ar e água, os escudos anti radiação e os anti térmicos. Assim, a surpresa de ver um tenente sem nenhum tipo de educação formal fazer algo assim, cuja execução era conhecida apenas por boatos, era mais que compreensível.

Akim então levantou outra dúvida, que na verdade era em grande parte a minha também. “Mas então porque vir aqui? Se você já tinha o controle garantido do arsenal porque vir para a sala de máquinas?”. “Primeiro”, comecei, “eu não tinha certeza absoluta se estávamos perto de um planeta rochoso. O fato é que como aquele não é exatamente um mapa estelar eu só pude capturar uma imagem tosca de radar, indicando que nos aproximávamos de um corpo grande. Foi por isso que mandei Ryke averiguar. Segundo, eu não sabia como estava a disposição das forças de Mach, então supus que o primeiro lugar que eles olhariam, depois da fábrica, seria o arsenal. Como eles não têm como saber que eu tomei o controle da nave e bloqueei o acesso deles às grandes salas (menos a fábrica, que opera em um circuito próprio) eles não teriam como saber que estamos aqui e, mesmo que soubessem, não poderiam entrar”. Nesse ponto, a dúvida de muitos sumiu completamente, ao ver que meu plano tinha um embasamento sólido. Apenas alguns continuavam com uma expressão de quem não se deixa convencer, especialmente após tudo o que passáramos. Clito não deixou de olhar para o chão. Demorei meu olhar nele por um tempo antes de continuar: “Há ainda uma terceira razão para estarmos aqui”. Nesse ponto todos olharam para mim, atentos ao que eu ia dizer. “Infelizmente eu não consegui configurar o console para dar comandos direcionais diretamente. O que significa que eu não posso pilotar a nave por ele. Isso quer dizer que teremos que regular a nave diretamente daqui”. Todos me olharam soturnos. A ideia de controlar a nave sem enxergar nada era consideravelmente perigosa por si só, mas tinha também o agravante que as tropas de Mach, ao perceberem as manobras de movimentação, provavelmente intuiriam onde estávamos. Depois disso, passei a palavra novamente para Ryke, que prosseguiu o relatório: “O planeta, como já disse, é rochoso, o que significa que poderemos passar um tempo indefinido ali com o equipamento certo. O que creio que não será problema já que o nosso estimado líder”, disse com seu ar zombeteiro, “conseguiu acesso ao arsenal. Do jeito que a coisa está, creio que em menos de três horas estaremos próximos o suficiente para fazermos as manobras de entrada na órbita”. Pedi mais detalhes do lugar, ao que ele respondeu: “só sei que o planeta é rochoso pelo número de crateras. Tem um pequeno satélite, mas estamos muito distantes para pousar nele. Está em um sistema relativamente pequeno, com um Hellium de tamanho médio, meio avermelhado já. Pelo que pude observar também é que parece ter um pouco de água em sua superfície, mas ademais me pareceu inóspito, sendo que é um lugar desolado, coberto por uma estranha nuvem que nunca antes vi em nenhum planeta do gênero”. Ponderei atentamente sobre o que ele me relatara. Aquilo era sério. Não adiantava escapar da nave para morrer pouco depois em um planeta hostil. Mas não adiantava desistir, agora que havíamos começado a escapada. Então lhe pedi que concluísse. “Voltei então para cá. Demorei-me porque no caminho quase trombei com uma patrulha de Mach, que depois resolveu ficar no perímetro um tempo. Aparentemente eram apenas vagabundos que aproveitaram a deixa da busca por nós para ficar bebendo e apostando. Assim que saíram, vim direto para cá, fazendo contato quando achei que estava suficientemente próximo para que o comunicador não desse interferência. Nem cheguei a cruzar com alguma outra patrulha. Creio que apenas os grupos mais próximos a Mach e mais antigos é que estão se empenhando na busca. O resto tem um senso muito débil de disciplina, especialmente agora que Krug não está mais lá para intimidar os recrutas”. Aquilo era bom. Significava que não só seria fácil chegar ao arsenal como também que poderíamos aproveitar a desorganização dos nossos adversários e atacar, caso ficasse evidente que escapar era inviável.

Dispensei então o recruta, organizando os turnos de guarda. Mesmo confiante que não era possível entrar ali, queria evitar ao máximo surpresas desagradáveis. Recomendei a todos os outros que descansassem como pudessem, pois em poucas horas lançaria a segunda parte do plano. Vi Clito se afastar do grupo, indo para um canto isolado da galpão. Os outros estranharam seu comportamento, mas no fim respeitaram seu silêncio, e ninguém perguntou nada. Senti o meu coração despencar. Eu sabia muito bem o porquê daquela reação. Quis falar-lhe, mas o bom senso me impediu. Clito precisava ficar a sós, pelo menos por um tempo, nesse tipo de situação. Conversaria com ele a respeito disso mais tarde. Naquele momento, só me restou sentar no chão frio e esperar o sono vir. Mas a ansiedade não me deixou repousar. Esperei então pacientemente, até que chegasse o momento certo de agir.

Continua…

Por Claus P. Neto

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A revolta na Caverna (Aton)

Boa noite! SIM, isto é uma referência ao mito de Platão, SIM isto é uma crítica às manifestações que ocorrem neste país. Desculpem, mas este microconto teve, essa semana, uma voz mais forte. Boa leitura!

Uma Revolta na Caverna

     Retomemos do ponto em que o filósofo foi morto. Estavam os prisioneiros em sua caverna, praticamente imóveis e assistindo sobras se projetarem na parede. Enquanto isso uma corja por de trás manipulava fantoches em frente ao fogo, enganado aqueles que estavam ali confinados. Chamemos então os primeiros de prisioneiros e os segundos de enganadores.

     A atividade de enganar não era simplesmente deleitosa aos enganadores, mas essencial a sua sobrevivência, logicamente porque, se os prisioneiros, que eram em número muito superior, soubessem de tudo, estariam todos mortos e, em segundo lugar, porque o mundo fora da caverna não sustentaria todos eles com um relativo padrão de vida elevado. Aliás, os próprios enganadores chegavam a discutir que talvez aquele mundo já nem bastasse para eles poucos.

     Acontece que, com a carga dos anos, os prisioneiros se desencantavam com o espetáculo das sombras. Então a qualidade do assento causava dores nas costas, as sombras repetiam histórias, as correntes machucavam os pulsos. Tédio. Sim, essa é a palavra perfeita. Não se podia enganar tantas pessoas por tanto tempo. Portanto o teatro começava a cansar, até que outras sensações tornavam-se mais importantes.

     E assim os velhos reclamavam, alguns jovens escutavam e reproduziam, mas nada gerava mais do que algum deboche. Até o dia que uns prisioneiros que gozavam de certa “popularidade” passaram a reclamar também. Não que de fato se sentissem incomodados, ou achassem justo que correntes, assentos e histórias melhores fossem essenciais, mas a falta de assunto com que a modernidade trouxe a caverna fez com que eles recorressem a temas como esses.

     Certamente os enganadores, sempre muito atentos aos movimentos dos presos, ouviam tudo e anotavam tudo. Passou a ser uma questão crucial a qualidade da caverna. Quanto mais confortavelmente os prisioneiros estivessem, menor a probabilidade de descobrirem o que, de fato, eram. Mas como mudar as correntes e os bancos de pedra sem serem vistos? Era necessário que eles saíssem de seus lugares e estivessem distraídos o suficiente para não perceberem a ação dos enganadores.

     Assim iniciou-se um plano digno de aplausos. As sombras passaram a falar exatamente a verdade. Tal como filósofo o fez. E, conforme ocorreu no passado, os prisioneiros se revoltaram. Levantaram de seus lugares, tiraram suas correntes e… Atacaram as sombras na parede… Esmurravam, chutavam, cabeceavam às vezes. Enquanto isso, um enganador contorcia-se na frente do fogo encenando dor, rogando pragas e dizendo a verdade, como haviam sido enganados, como a vida deles era desprezível e como um mundo inteiro existia sem qualquer ajuda deles.

     Enquanto inutilmente os presos investiam cegos contra a sombra na parede, duzias de enganadores forraram os assentos, poliram as correntes, perfumaram a caverna, pintaram as rochas. E quando esteve tudo pronto, uma segunda sombra entrou em cena “matando” a primeira, “libertando” os presos para que pudessem voltar aos seus lugares em uma caverna nova. Mudaram-se os nomes das personagens que as sombras encenavam e, assim, por muitos mais anos ninguém reclamou.

 

Wasteland parte XIII_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes. A história (por enquanto) está chegando até onde eu queria que ela chegasse. Não creio que irei trabalhar nela (ou em outro conto) por algum tempo, já que entendo que uma leitura muito seccionada, apesar de formar parte da proposta inicial do “Máfia”, é pouco atrativa a leitores novos que não acompanharam a narrativa desde o início. Voltarei a escrever nesse esquema, mas apenas mais tarde, esperando inclusive a história já estar pronta para publica-la em trechos maiores e condensados. Mas por hora, boa leitura. Este é (se tudo der certo), o penúltimo capítulo do conto. Se você quiser acompanha-lo desde o início, acesse a minha categoria na aba à direita, logo embaixo do painel de opção “curtir” do facebook ou pesquise por “wasteland” na aba de busca. Desejo também revisar o texto e disponibiliza-lo em .pdf e .epub, como eu fiz com “A lenda do rio dourado em breve.

Boas tardes,

Wasteland parte XIII_-_Por Claus P. Neto

Ao fim do dia de serviço, eu e meus companheiros nos dirigimos para perto do pórtico de entrada, prontos para descansar como pudéssemos. Mas ao chegarmos à altura da escada que dava acesso à sala de controle, cinco ou seis guardas nos barraram o caminho. Brusca e rudemente, eles nos foram empurrando, ordenando-nos assim em fila. Cinco minutos depois, mais guardas juntaram-se aos iniciais, até que houvesse cerca de catorze deles, todos armados com bastões (dessa vez sem as terríveis laterais afiadas). Pouco depois, desceram os soldados da sala do piso superior, junto com Clito e os outros dois do meu pelotão, colocando-os na ponta esquerda da fileira onde nos encontrávamos. Com os que desceram da sala de comando, agora os agentes de Mach eram vinte e um. Um soldado um pouco mais velho que os demais recrutas, de rosto levemente achatado e boca larga adiantou-se ao batalhão e distribuiu os capatazes de modo que oito ficaram às nossas costas e os demais a nossa frente, à distância de poucos passos atrás do chefe. Então ele passou por nossa fila, da direita para a esquerda, empurrando um ou outro de nosso grupo à frente. Os sob o meu comando olharam uns para os outros, visivelmente desolados. Todos já previam o que ia acontecer, e não era preciso que se dissesse nada. Senti os olhos de meus comandados em mim, esperando alguma reação. Mas eu não podia fazer nada ainda. Não era o momento certo. Mas ainda assim senti o rosto queimar de vergonha e raiva ante a minha impotência, sabendo o que ia se passar ali. Cerrei minha boca com força, e aguardei segundos que se arrastaram como horas até que o comandante parou na minha frente e me empurrou. Meu corpo, fatigado, doído e com os ferimentos mais latejantes que nunca, tombou para a frente e eu perdi o equilíbrio. Agora que tinha parado o esforço é que senti o cansaço, misturado com as dores dos espancamentos e do impacto da explosão que me desmaiara. Não sei como, depois de tudo o que passara, consegui me colocar de pé, mesmo com as forças exauridas e sem ajuda nenhuma. Se iria deixar que meus homens passassem por aquilo, eu encararia o castigo com toda a força e dignidade que me fossem possíveis. Sofreria junto com meus homens. Permaneceria com eles até o fim. Mas no fundo, jurei vingança por todo aquele amontoado de injustiças. Não por mim. Mas por aqueles que sofriam, única e exclusivamente por não deixarem de acreditar em meu comando. Mantive o rosto sereno ante os meus algozes.

Após os oito guardas atrás de nós nos atarem com algemas, o restante dos capatazes dispersou o grosso do grupo. Eu e mais oito dos que não cumpriram a meta diária fomos arrastados até perto de uma das máquinas maiores. Olhei para o lado e vi Zooz. Uma sombra de culpa passou por mim, já que se não fosse a minha intervenção com a poça de lubrificante ele talvez não estivesse lá. No entanto, sustentei seu olhar e continuei andando. Os guardas então pararam diante dos equipamentos de síntese de têxteis e de separação eletrolítica, obrigando-nos a sentar ali. As laterais dos equipamentos ficavam a uma pequena distância um do outro, de modo que tivemos que nos apertar no centro, evitando as paredes. Satisfeito com a disposição dos prisioneiros, o comandante, com um sorriso sádico no canto da boca, destacou dois guardas para vigiar a saída do corredor de um lado e dois do outro. Depois de dar uma curta ordem sobre a disposição da troca de guarda, foi para a sala de controle e ligou as máquinas, dando início ao suplício. Não demorou para que os circuitos das grandes máquinas, sobrecarregados pela absurda corrente elétrica, esquentassem até altíssimas temperaturas, tornando o ambiente onde estávamos um verdadeiro inferno. A noite foi longa, com o barulho ensurdecedor e o calor forte impedindo o sono. Não sei quanto tempo ficamos lá exatamente. Às vezes, os minutos se estendiam, escorrendo com uma vagareza excruciante. Outras, o meu corpo, enlouquecido pelo cansaço, deixava-me inconsciente, por momentos que me pareciam segundos antes de despertar. E foi assim até que fosse soado o apito despertador, marcando o início do novo dia de trabalho. Saímos, empapados de suor e fraquejando, diante dos vigias que riam com escárnio de nossa condição deplorável. Eles nos conduziram de volta para a entrada da fábrica, onde nos deixamos desabar, extenuados. Foi-nos dada, além da ração de água e comida normais, uma caneca extra, contendo “água concentrada”, para diminuir os efeitos da desidratação. No entanto, essa medida, longe de ser movida por misericórdia, destinava-se apenas a não nos deixar morrer de sede, e pouco mais do que isso. Minha garganta e lábios estavam agonizando por mais um gole, mas eu sabia que teria que me contentar com isso e concentrar-me em fazer um serviço dessa vez bom, mesmo contra todas as possibilidades. Se fôssemos ter uma chance de escapar em dois dias, eu precisava estar no melhor estado que eu pudesse para guiar a operação.

Pouco posso dizer do dia que se passou depois disso. Até porque a rotina me absorveu por completo, no afã de evitar outra noite na calefação. Tudo foi automático, impensado. Não creio que eu possa colocar algo digno de registro sobre esse período. Passado o período de serviço, tive a satisfação de ver que todos nós cumpríramos a pauta. E apesar da minha grande expectativa, meu organismo foi mais forte, e eu adormeci automaticamente. A expectativa voltou com o apito da fábrica. Meio sonolento, arrastei-me para perto de Zooz e perguntei-lhe discretamente se ele conseguira avisar a todos sobre o esquema e o que cada um deveria fazer. Cansado, ele respondeu-me com um tom de voz ranzinza que sim, e que os outros membros da faxina diurna confirmaram que passaram a informação adiante. Pude ver que ele falava a verdade pelo modo como nosso grupo me encarou quando eu me afastava dele discretamente. Uns tinham esperança nos olhos, ansiando em ver o seu líder tirá-los daquela enrascada. Outros me encaravam com dúvida compreensível depois de minhas recentes falhas. Outros nem me encaravam nos olhos. Mas o que importava era que todos sabiam do plano e que todos, sem exceção queriam sair daquele inferno a qualquer custo. Mesmo ressentidos comigo, eles me seguiriam, nem que fosse para morrer. Aproximei-me de Ryke que piscou um olho para mim, mostrando aprovação. A fé daquele recruta em mim era espantosa. Senti-me envergonhado em ver como falhara miseravelmente com ele, mas resignei-me. O troco viria hoje.

A guarda, inadvertida quanto aos ânimos de seus custodiados, foi especialmente cruel na hora de distribuir a comida. Não perceberam a estranha inércia de minha companhia, que nem sequer reclamara, confundindo a sua raiva fria com espírito quebrado. Ao fim da refeição fomos aos nossos habituais postos. Agora era o ponto crítico da missão. De acordo com os meus cálculos teríamos ainda que trabalhar durante duas horas e quinze minutos antes de tentarmos escapar. Como o tempo custou a passar naquelas horas! A cada cinco minutos eu checava o relógio encontrado no teto do complexo. Tentei, sem sucesso, aquietar a minha mente com o trabalho, mas infelizmente isso não funcionou. Minuto a minuto, o tempo escorreu lentamente. Até que enfim olhei o relógio e vi. Era a hora. Teria que confiar agora que Zooz e os outros “mensageiros” cumpriram a sua missão e que todos sabiam o que fazer. Confiar que o tempo estava correto. Confiar que eu não tivesse cometido um engano que certamente nos mataria. Era a hora de apostar tudo naquela fuga insana.

Suando frio, tentando ao máximo permanecer calmo, cortei um dos tubos lubrificante da máquina. Aquele era o sinal para Clito e os outros da sala de controle. Apressei-me a tapar o buraco enquanto Adris, uma do grupo de faxina, apressou-se em limpar o líquido do chão. Vi com satisfação que outros três repetiam a operação. Até ali, tudo bem. Dissimuladamente, passei para ela um par extra de luvas térmicas, com as quais manuseava as máquinas quentes. Ao mesmo tempo, peguei duas chaves grandes, colocando-as nas áreas de maior calor, fingindo realizar um reparo numa área mais funda do maquinário. Agora teria que ser perfeito. Contei calmamente em minha cabeça quando senti a primeira contração no metal. “Dois, três, quatro…”. Continuei a realizar o “reparo”, esforçando-me como podia para ocultar o nervosismo. “Quatorze, quinze…”. Novo estalo. Faltava bem pouco. “Vinte e nove, trinta!”. Pulei a plataforma de onde eu “consertava” o aparelho e, sem mais me preocupar com discrição, saí correndo para o fundo do corredor, seguido de perto por Adris. Três guardas, percebendo nossa movimentação repentina, perseguiram-nos a passos rápidos. Mas justo quando passavam pela caldeira que antes eu operava houve um novo estalo seguido de um rangido feio. Depois, veio a explosão da caldeira, espalhando o vapor do lubrificante fumegante, matando os soldados na hora. O impacto me atirou no chão, mas Adris, já com as luvas calçadas, ajudou-me a levantar, apanhando uma das chaves quentes.

O estouro da câmara de gás, que havia sido fechada por Clito e os outros, abriu um buraco feio na parede fina ao seu lado, abrindo passagem para uma das curvas dos corredores que conduziam à fábrica. Os alarmes de emergência só contribuíram para o espanto de um recruta próximo que, como todos os seus companheiros, estava confuso sobre o que ocorrera. Ele nunca viu o golpe que lhe desferi, quebrando a sua mandíbula. A grande escapada havia começado.

Continua…

Por Claus P. Neto

Wasteland parte XII_-_por Claus P. Neto

Bons dias a todos. A despeito de minhas agora constantes promessas de enviar os textos em dia, parece que a sorte não sorriu para mim. Peço a compreensão de todos, já que vários eventos têm se desenrolado na minha minha vida ao mesmo tempo, e tem sido difícil conciliá-los todos. Não obstante estou animado com a proximidade do fim do conto. A história ao redor dele, como creio que já mencionei, é bem mais extensa, mas vejo que ainda não tenho maturidade suficiente como escritor para registrá-la no papel como deveria. Assim, para todos os efeitos, essa narrativa está chegando à sua conclusão definitiva, até que eu a tire de novo da gaveta e a refaça, de preferência melhor. Quem sabe um dia eu não a conte aqui mesmo, com todos os detalhes e voltas que eu planejei originalmente? Mas por enquanto, boa leitura

Bons dias

Wasteland parte XII_-_por Claus P. Neto

Tentei dormir, mas não consegui. Meu corpo inteiro doía, não importava a posição que eu ocupasse. Minha mente também estava muito ocupada para me deixar repousar. Se o meu pelotão fosse sobreviver, eu não podia cometer erros, e repassei o meu plano de novo, e de novo e de novo. Eu só teria que aguardar o momento certo para pô-lo em prática. Teria também que comunicar todo o grupo, mas em meio ao barulho das máquinas isso poderia ser feito facilmente. Fiquei também pensando em Clito. Então ele estava bem. Mas iria para a fábrica junto conosco, ou seria mantido prisioneiro? Parte de mim não queria que ele viesse, já sabendo que mesmo seu ferimento não o pouparia do inferno que seriam os próximos dias. Mas, ao mesmo tempo, se ele não aparecesse não teria como saber do meu esquema de fuga. E quando ela ocorresse, não haveria tempo suficiente para levá-lo junto. Meus pensamentos ficaram divagando desse modo durante toda a noite, até que foi soado o estridente apito da nave, indicando o início de um novo dia (de acordo com o horário do local de onde a nave foi apreendida). Todos ao meu redor levantaram-se, e alguns me ajudaram a ficar de pé. Pelas marcas de olheiras, pude ver que vários também não conseguiram dormir. Não demorou até que os capatazes viessem, xingando baixinho por terem de estar acordados tão cedo, trazendo tigelas de aço com a nossa ração de comida (que segundo eles seria a única antes do fim do expediente). Comemos em silêncio, resignados. As coisas estavam bem ruins, mas todos ali já estavam acostumados com o trabalho pesado na indústria, e não reclamaram. Tivemos menos de vinte minutos antes que o apito duplo, indicando o ligamento das máquinas, soasse e os nossos algozes arrebatassem os pratos, ainda meio comidos, chamando-nos ao trabalho. O nosso primeiro dia como escravos começava naquele momento.

Antes de entrar no serviço propriamente dito, ouvi a porta de entrada ser aberta. Ali, escoltado por dois guardas corpulentos, estava Clito. Ele entrou cabisbaixo, com o olhar voltado fixadamente para o chão, e avançou em direção ao nosso grupo. Ele arrastava a perna, que estava apoiada em uma tala metálica rudimentar. O corte fora mais feio do que eu supus: não chegou a amputar o membro, mas rompeu-lhe os ligamentos e com o tempo poderia causar gangrena pela falta de circulação. O ponto do corte estava tremendamente inchado, com uma coloração repugnante contrastando contra as suturas improvisadas e sua canela estava em um ângulo estranho em relação à coxa. Rapidamente dois ou três do pelotão tentaram ajudá-lo. Os guardas, entretanto, impediram que eles prestassem auxílio ao meu amigo, com uma expressão de prazer evidente em vê-lo mancar e contorcer seu rosto de dor a cada passo. Penso agora que foi providencial eu estar tão debilitado fisicamente. Porque em condições normais eu teria estrangulado os dois. Sem ter como reagir, tive que engolir a raiva enquanto os dois soldados entregavam Clito à custódia de um capataz que estava por perto e saíam pelo pórtico. Meu amigo estava desolado, o que meus companheiros interpretaram como fruto do ferimento, sem ver a verdadeira razão do sofrimento e humilhação dele. Assim era melhor. A última coisa que eu precisava naquele momento era que descobrissem que estavam ali porque ele dormiu em serviço. Não sabia como ele seria posto para trabalhar naquelas condições, e temi que ele tivesse que realizar trabalho braçal. No entanto, o rapaz que o custodiava o levou por uma escadaria à esquerda de onde estávamos subindo para a sala de controles, junto com mais outros dois de nós, para regularem o uso das máquinas. Mal desapareceram pelas escadas, fomos empurrados em direção à linha de montagem. Antes dos trabalhos do dia, fomos colocados em fila indiana, e à medida que entrávamos eram dadas as nossas tarefas e metas do dia. Olhei para a minha (regular a transformação da sucata da nave em chapas metálicas de padrão 15cm) desolado. Exigia-se que eu completasse, até o fim daquelas      14 longas horas, a fabricação de 800 chapas, que tinham antes que ser derretidas, colocadas em nas formas, uma de cada vez, prensadas, resfriadas, depois aquecidas de novo, dobradas ao meio, mais uma vez pensadas (com uma pressão específica) e por fim resfriadas e guardadas. Isso era um serviço para cinco pessoas, no mínimo. Apesar de o maquinário fazer uma boa parte do esforço, eu tinha que, além de prestar atenção nas regulagens corretas, fazer a manutenção das máquinas (que quebravam o tempo inteiro devido ao calor e à pressão intensos).

Não obstante, sabia que de nada adiantava reclamar. O dia passou-se lenta e burramente. Não pensava, não sentia, só agia. Meu corpo gritava de dor toda vez que eu, sozinho, parava o funcionamento da caldeira e ia arrumar alguma peça que havia saído do lugar ou substituir um circuito que derretera, mas eu tinha que ignorá-lo, a despeito da fraqueza. Uma só coisa me incomodava: Com a distribuição quase que individual das tarefas do conjunto industrial, era impossível conversar com a tripulação. E não poderia fazê-lo à noite, onde mesmo um sussurro era perfeitamente audível. Ainda era a metade do dia quando vi a minha oportunidade. Dois ou três haviam sido separados para fazer a limpeza imediata do imenso galpão. Isso porque lubrificante que escapava dos equipamentos tinha que ser limpo ainda quente, ou tornava-se quase impossível de limpar. Assim, era comum que houvesse duas equipes de limpeza, uma rondando as máquinas de dia, e outra limpando o restante à noite. Estava fazendo uma enésima manutenção no equipamento quando vi um dos meus aproximar-se. Custou-me muito fazer o que fiz, pois sabia que isso o atrasaria muito em seu serviço, podendo pesar seriamente sobre ele. Mas se não o fizesse sabia que não haveria uma segunda chance de comunicar o plano. Eles eram os únicos que podiam rodar livremente pelo complexo industrial, e assim, espalhar o esquema de fuga. Discretamente, abri uma pequena válvula por onde circulava o líquido lubrificante. A pressão era absurda com a máquina funcionando a todo vapor, e como previsto, rapidamente uma grande poça formou-se no chão. Ao ver que o estrago era suficiente, fechei-a o mais depressa o possível.

O pobre faxineiro (era Zooz) lançou-me um olhar cansado, e arrastou-se até o aglomerado da substância viscosa. Depois de enxugar as mãos em uma toalha próxima, fingi estar regulando algum mecanismo na base da máquina. Cuidando que nenhum dos agentes de Mach estava por perto, chamei-o discretamente, mandando-o agir naturalmente. A princípio ele pareceu surpreso, e deixou transparecer por um momento sua raiva no modo como eu chamara sua atenção, mas por fim obedeceu. Enquanto ele limpava calma e vagarosamente a poça, expus-lhe o plano. Ele olhou para mim, incrédulo. Eu sabia que isso ia acontecer. A ideia era mesmo insana. “Você é louco Aspines!”, falou-me baixinho, “As chances de algo assim dar certo são ínfimas”. “Tenho informações que provam o contrário. Confie em mim Zooz, vai dar certo, mas temos que agir rápido e na hora certa”. Ele fez uma careta, descontente. “Você sabe que eu confio em você capitão. Você sabe que eu estava lá todas as vezes que o senhor precisou. Mas temo pela segurança da tripulação, e espero que você também tema, já que propõe algo assim”. “Zooz”, disse em tom firme, “Não estamos em segurança aqui. Não sei se você percebeu, mas Mach não vai verdadeiramente descansar até que tenha eliminado até o último de nós. Acredite em mim quando digo que considerei os riscos e digo que vale a pena”. Aparentemente isso não o animou muito. Mas ele cedeu: “Então o que o senhor quer que eu faça?”. Sorri para ele, aprovando sua obediência e confiança mesmo em uma situação daquelas. “Espalhe o plano para todos. Fale primeiro com os demais responsáveis pela limpeza diurna para que seja mais rápido. Pelo que sei, temos três dias para executar o plano. Depois disso, não sei se será possível escapar”. Ele assentiu e completou a limpeza do lubrificante com o aspirador especial que carregava (o líquido viscoso era reaproveitado sempre que possível, quer para a formação de açúcar, reuso na lubrificação das máquinas ou refinamento para produzir substância combustível), saindo discretamente. Voltei ao painel de controle da máquina e voltei com a produção. Eu não sabia se as consequências desse atraso meu e dele valeria a pena. Mas tinha que correr o risco. A partir dali, nossa sorte estava lançada.

Continua…

Por Claus P. Neto

Epitalâmia (Aton)

Desculpem meu repreensível atraso. Mas devo confessar que não consegui bolar um conto que fosse suficientemente bom (ou que tivesse sentido). Assim, para que não seja um momento perdido eu fiz um poema. Mas na próxima segunda, o cronograma segue normalmente

Epitalâmia

Eis o problema conjugais:

eu e tu, aqui, singular…

E todo o resto em Plurais!

 

Pois é, Vida, quem diria?

Ter um poeta a sua musa,

que nem gosta de poesia!?

 

Mas o trabalho nunca é vão,

apesar do remorso:

servirá sempre a outro coração

 

E que seja, pois, os meios

os próprios fins em si:

uma infinidade de desfecho-prelúdios.

 

E que seja isso perdoado,

por ter tão bem tudo já justificado:

A poesia é da musa o significado!

 

Mas, órfão, o texto fica,

manchando o papel,

a dor alegre e sádica.

 

Que seja então, musa bela,

uma poesia sincera:

o puro sorriso da donzela.

 

Já que dispensas os poemas,

saiba que a poesia está

nos mais singelo problema.

Wasteland parte XI_-_por Claus P. Neto

Boas noites a todos. O post hoje quase não sai, mas felizmente a coisa ficou no QUASE. Alguns eventos (somados à protelação de quem vos fala) contribuíram para que o texto ficasse pra última hora ¬¬. Infelizmente isso quer dizer que ele está mais curto do que eu planejei, mas eu espero compensar o atraso semana que vem (e se Deus quiser, acabar esse conto em no máximo três semanas, vamos ver se dá =D). Se esse atraso afetar de alguma forma a qualidade, peço minhas sinceras desculpas.

Boas noites.

Wasteland parte XI

Por uma ordem de Mach, fui conduzido por Bhara e por outro recruta de volta pelo corredor. Nem reparei direito para onde eles me conduziam. Minha cabeça estourava de ódio e ira puros, e mil vezes eu imaginei Mach, Krug, todos os outros de sua corja morrendo, cada vez de um jeito mais cruel e doloroso. Nunca pensei que pudesse haver tanto mal dentro de mim mesmo até aquele dia.  O golpe fora covarde e movido por pura maldade. Mesmo que Clito fosse atendido direito e de pronto (o que provavelmente não ocorreria), seria difícil ele sobreviver à perda excessiva de sangue. Krug mesmo quase não sobreviveu. Para mim, que fui retirado às pressas, sem a chance de conferir se meu amigo estava bem, ele havia sido morto. As curvas e corredores se estenderam por um período que me pareceu eterno, quando finalmente percebi que estávamos descendo aos níveis inferiores da nave. A temperatura começou a subir gradualmente, até que em certo ponto eu e meus captores estávamos empapados de suor. Dobramos à esquerda, entrando em um corredor mais largo e mais alto. Não demorou até que, seguindo por ele, fôssemos de encontro a uma placa de metal grande, fixada sobre um arco igualmente grande. A placa dizia: “Uma vida para o trabalho é uma vida sem necessidades”, o famigerado lema que a coligação colocava na entrada das fábricas. Entrávamos na ala industrial da nave. Logo na entrada, diante de uma máquina grande e verde, estava a minha companhia, sentada no chão e cercada de guardas. Ao me ouvirem entrar, todos levantaram o olhar do chão para me encarar. Tentei passar um pouco de confiança pela minha expressão, mas os eventos recentes haviam sido demais, e não consegui manter o rosto calmo. Além disso, todos repararam (e isso eu pude constatar pelos olhos de cada um deles) que Clito não mais me acompanhava. No entanto, nenhum deles perguntou nada. Percebi também que alguns deles apresentavam hematomas e cortes que não estavam lá quando foram capturados. Uma nova onda de repulsa e ódio me varreu, e o sentimento de impotência só piorava tudo.

Forçaram-me a sentar junto com os outros, que me encararam de uma maneira triste. Por um tempo, os nossos algozes ficaram se olhando, sem saber o que fazer, agora que o seu comandante (Krug) estava fora. Em pouco tempo, no entanto, ele entrou no grande aposento, quase arrastando a sua perna, apoiado em um pobre recruta, que ofegava sob o peso do brutamontes. Ele virou o seu olhar para o grupo de prisioneiros, detendo-o depois em mim, vendo com visível prazer o ódio que queimava em meus olhos.  Dando-se por satisfeito, aprumou-se e falou em um tom alto e ríspido: “Ok mocinhas, prestem atenção! Esse”, disse fazendo uma pequena pausa, “é o seu novo lar. Após o expediente vocês podem escolher o canto de chão que vocês considerem menos desconfortável e descansar. Vocês estão terminalmente proibidos de sair daqui. Eu mesmo organizarei uma equipe de sentinelas para vigiar as entradas e saídas. Qualquer um que seja pego tentando fugir será morto na hora”. Ele deu outra pausa, olhando nossos rostos, vendo o impacto que seu anúncio produzira. “O horário de trabalho”, continuou, “será de 14h de formato regular diárias, contando a partir das 05:00h. As refeições serão servidas pelos capatazes em horários fixos ainda a determinar”, disse com um sorriso sádico. “Qualquer um que roubar comida será punido. Qualquer um que atrasar ou não cumprir com seus afazeres aqui será punido. As suas metas serão anunciadas meia hora antes do início do expediente. A obediência aos capatazes deve ser absoluta. Quem não obedecer será punido de maneira exemplar. Isso é tudo por enquanto. É melhor aproveitarem o descanso enquanto podem. O trabalho começa daqui a 3h”.

Dito isso, ele voltou-se para sair. Foi quando eu não aguentei: “Então é isso?! Mach, não contente em nos ter capturado da maneira mais covarde a possível nos obriga a servir como seus escravos, fazendo um serviço em uma instalação que exigiria no mínimo 160 pessoas para funcionar com apenas 40, desde antes do amanhecer até bem depois do Sol haver se posto?”. Ele se voltou em minha direção, andando vagarosamente, até estar a alguns palmos de distância. A um aceno seu, um dos recrutas me ergueu, de modo a encará-lo cara-a-cara. A um novo aceno dele, o recruta acertou-me em cheio na nuca com o bastão, fazendo-me cair de rosto no chão. Fui levantado, e desta vez Krug desferiu uma forte bofetada, que fez minha cabeça, já zonza pelo impacto anterior, girar loucamente, e por pouco eu não perdi os sentidos. Dando-se por satisfeito com o curto, mas eficiente espancamento, ele cuspiu em mim e virou-se em direção ao arco. Mas antes de sair, voltou-se de novo e falou a mim: “Sim Aspenis, é isso. A sua sorte é que precisamos de gente para produzir e processar os alimentos e o equipamento básico. Se dependesse de mim, todos vocês já estariam flutuando sem vida do lado de fora da nave. Mas não faz mal. Estou cumprindo o que eu te falei, Aspenis: eu fui responsável pessoalmente por seu tratamento especial”. Deu uma pequena pausa, e depois de parecer refletir um pouco, falou de novo: “E como estou me sentindo misericordioso hoje, acho que vou fazer uma pequena visita ao seu caro amigo cara de retalho na enfermaria”. Ele viu minha reação, e riu com escárnio diante de minha ira e minha impotência. “Ah sim! Ele vai sobreviver. O corte não foi tão feio como o que você fez em mim, mas ainda dá para o gasto. Mach também quis poupá-lo apesar de ele estar inútil agora para o trabalho. Nunca vou entender o porquê. Não que isso importe. Mas não se esqueça Aspines que mesmo Mach tem um limite para sua paciência. Um dia ele pode não ver tanta utilidade assim em manter você e seu bando de baratas imprestáveis. E nesse dia, pode ter certeza de que eu estarei lá”. “Lembre-se que a minha paciência também tem limites, Krug”, retruquei, num tom débil demais para ser levado a sério, “e saiba que nesse dia, eu não acertarei apenas sua perna”. Ele fez uma careta, antes de me lançar um último risinho de desprezo e sair de vez do aposento.

Os nossos capatazes tiraram as nossas algemas e dispersaram-se por todo o complexo em pequenos grupos, conversando e rindo. Meus companheiros vieram automaticamente em meu auxílio, e dois deles me levantaram, apoiando-me em seus ombros. Depois, deitaram-me o mais suavemente o possível no chão frio e metálico. Rapidamente, um deles fez um rasgo na camisa, fazendo com ela uma atadura improvisada para ajudar a estancar o sangramento na base de minha cabeça. Quiseram me oferecer água, mas os homens de Krug riram na cara dos que pediram, afastando-se deles. Ainda assim, fizeram o que estava dentro de seus limites para me deixar o mais confortável o possível. Tentei me erguer, mas Rike me impediu. “Você tem de descansar, senhor. Fique tranquilo, estaremos aqui com o senhor toda a noite, caso precise de nós. Vamos aguentar, tenho certeza”. Eu não tinha tanta certeza que aguentaríamos. Conhecendo a longa rixa entre a minha divisão e a divisão de Mach, estávamos condenados. Mach apenas arranjara um modo de nos matar de um modo mais lento e ainda lucrar em cima disso. Mas eu não deixaria isso acontecer. Não podia deixar isso acontecer com todos os homens e mulheres que mesmo lá, no fundo do inferno, preocupavam-se comigo, confiavam em mim, acreditavam em mim. Eu não podia falhar de novo com eles. E sabia muito bem como faria isso.

Continua…

Por Claus P. Neto