O espelho de Afrodite VI [final] (ATON)

O ponto ardente do metal fumegante da bala transpassando a carne que nunca antes parecera tão fraca. Em ironia ao ferro quente, a sensação de resfriamento das extremidades do corpo. Sonolência. Um formigamento vai tomando conta dos dedos, das mãos, dos pés. Já não vejo direito. Algum ruído, uma voz talvez, a voz daquela mulher. Um baque… Minha cabeça batendo no chão… Dormi.
Havia chegado na ilha dois dias antes, disfarçado como novo ajudante do caseiro. Era um pedaço de terra relativamente humilde se comparado aos vizinhos. O casal passava a maior parte do tempo na área de lazer. Telefones tocando a maior parte do dia – há quem já soubesse disso tudo.Eu raspara a cabeça, deixara a barba, usara lentes, apesar de desconfiar da memória do presidente com o qual tive no passado um rápido encontro.
A mídia nacional falava de um golpe trilhonário no país, o maior crime de corrupção já investigado na história. Alguns políticos se mataram, outros fugiram, outros… bom, vocês sabem.
Não demorou para que chegassem helicópteros particulares e lanchas. Via-se ali alguns diplomatas, banqueiros, representantes de Estado e até mesmo alguns políticos em pessoa. Desconfio que alguns mafiosos e terroristas também vieram a ilha. Era uma reunião de umas cinquenta ou setenta pessoas que estavam ligadas direta ou indiretamente ao meio político-econômico mundial. Tratava-se de um golpe muito maior do que aquele que a mídia divulgava.
A quantia trilhonária falada advinha unicamente do Brasil, mas muito mais fora também tirado de todos os lugares do mundo; grandes potências e Estados em crise; democracias e ditaduras; capitalistas e socialistas. Tratava-se de um roubo de quase 40 trilhões de dólares, com a concepção de diversos líderes. Mas com qual finalidade?
Algumas coisas encaixavam. A figura do presidente era só uma distração o tempo todo. Enquanto as câmeras focavam as palavras e os rostos engravatados das figuras públicas, gente como aquela mulher, a Amante, passa sob tudo e todos, fechando os acordos que realmente importam. O resto é só aparência.
Eu tentava filmar ou gravar da melhor maneira possível as reuniões. Pelo pouco de liberdade que tive na casa, poucas escutas pude instalar. Mas discutiam o quanto cada um iria receber, como deveriam gastar e… quando fariam de novo. Ali se planejavam guerras, ataques, soluções milagrosas… tudo.
Então eu entendi o que aquele presidente e aquela mulher estavam fazendo ali: estavam comprando sua liberdade. Não que de fato ela estivesse a venda, mas valia a tentativa. Tudo foi acertado, datas, modos, causas e que aquele lugar seria, de agora em diante, o ponto de encontro daquela escumalha. Foram embora.
Eu vi demais. Ouvi demais. No terceiro dia revelei minha identidade. O que eu sabia. E fui agradecido pela sinceridade com um tiro bem no meio da testa de um calibre 38, essa usada por bandidos comuns em assaltos comuns em dias comuns, essas que cabem no bolso e tem todo um formato próprio. Mas não acaba exatamente neste ponto. Há a manchete do dia seguinte em todos os jornais do mundo “Ministro Brasileiro divulga documentos secretos do maior esquema de corrupção do mundo”. Morri com um sorriso no rosto.

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Vós Algema (ATON)

Zilhões de perdões por essas interrupções constantes por poemas, Ou inda por massificá-los com isso. Mas acho q o de hoje ficou especialmente interessante, pois segue quase como uma pequena narrativa bem abstrata. Espero que gostem. Boa leitura!

Vós algema

Olhar-me em um espelho eu bem posso,
e não enxergar nada em meu semblante
que gere tão grande desagrado vosso,
tal desafeto em todas vós constante.
E também do vosso agrado não lhas abdico,
sejam, contudo, meus tostões de cobre
que não me deixam ser lá podre de rico,
mas, felizmente, não ser verde de pobre.
Ouço, então, tudo que vos falo
em tão demagógicos versos conservadores liberais
de fazer, o coração lírico, vassalo,
que não ouço aquilo que a vós desagradais.
Não sede por por beleza,
vossa repudia incoesa;
Não sede por dinheiro,
vosso desgosto companheiro;
E tampouco por intelecto,
comigo esse vosso sentimento infecto.
Sede, pois, um problema com os santos?
Tal qual o meu tão sisudo
e o de todas vós cheios de espantos,
com vossas breves almas sem escudo.
E quem sabe um caso de nitidez,
não sendo todos os meus diretos poemas,
tão retundantes sobre o que um dia, talvez,
palavras extremas sejam atitudes extremas
e, havendo vós previamente a tal fardo me condenado,
parecer-lhas-ei o mais vil servo: o derrotado.
Triste esse nosso dilema:
eu, poeta;
vós, algema.

Poesia em dose dupla

Boas tardes a todos! Desculpem o post de semana passada que no fim não saiu =( Não tentarei dar justificativas (qualquer uma delas seria patética demais para vocês a aceitarem). Tentarei compensar com dois textos numa tacada só: um poema que me veio à mente faz poucos dias, e outro que eu quase esquecera por completo na capa de um caderno escolar. Boa leitura!

Cantiga infantil #1 _-_ Por Claus P. Neto

A dona aranha

Subiu pela parede

Acomodou-se nas vigas e começou a fiar

Não foi derrubada pela chuva forte:

simplesmente tropeçou em um pedaço mais grudento da teia

É teimosa: volta a subir

Da segunda vez, passa um fio errado, a teia fica torta

Recomeça

Erra ao tentar colar um fio de seda numa das vigas maiores

A teia cai: e ela junto

Torna a subir

E é assim mais uma, duas, dez, mil vezes

Até que ela dá o trabalho por completo

Não gosta tanto assim do resultado, mas dá de ombros

Depois olha, e reconhece na trama grudenta sua maior obra

Estava a dona aranha a fiar?

Não: estava a escrever

Phaneros _-_ Por Claus P. Neto

Todos os dias,

Achei que ia até uma janela

E lutava contra o mundo.

Demorou para eu perceber

Que a janela era um espelho

E que meu oponente

Sempre foi

Eu mesmo

Sempre fui

Todos os dois textos por Claus P. Neto.

Qualquer semelhança com a vida real ou com textos de outros autores é plágio mesmo, não é coincidência

Cinerus H. Luper – O Espelho de Afrodite V (ATON)

Pessoal, mil perdões pelo atraso.

O Espelho de Afrodite

Parte V

Recapitulando.  Contas bancárias extraoficiais limpas; dinheiro escondido na embaixada; ilha particular comprada; câmeras de segurança congeladas; fuga; anuncio do desaparecimento…
Coincidentemente, nos documentos a mim cedidos nesta investigação, a última nota feita sobre os movimentos dos meus investigados ocorreu em novembro do ano passado. Ou seja,  a perfeita brecha, no perfeito momento. Sim isto bastaria para suspeitar, com certa demora admito, que talvez eu esteja trabalhando para o lado errado.
Contudo, esta manhã foram encerradas as “buscas” pelo suposto corpo e um funeral simbólico já fora encomendado… Estranhamente algum escandalo envolvendo alguma falha de segurança no sistema eletrônico eleitoral veio a tona também esta manha. O caso foi examinado pelo MPF e estava em total sigilo até então.
Aparentemente há uma certa especulação de uma possível derrubada do sistema de defesa dos servidores intencionamente. Não há uma projeção do quanto de dados poderiam ter sido alterados ou roubados, nem se que exatamente onde. Sabe-se, porém, que a ordem veio do gabinete presidencial e que uma des ordens referia-se explicitamente ao programa de contagem de votos.
Isso me faz pensar. Fui trazido aqui pelo ministro da defesa, o principal interessado em saber exatamente o que aconteceu. Contudo, com uma notoria demora de uma semana. Por quê?  Ora, se ele mantinha uma certa vigilância sobre seus colegas políticos, deveria saber de tudo. Mas se não soubesse, provavelmente seria pego de surpresa  e, antes que pudesse prosseguir, teria que entender o caso. Talvez deva ter notado que os próprios homens da ABIN estavam em posição de desconfiança. Então veio a mim.
Recebi hoje a carta de dispensa do serviço e metade dos meus honorários normais pagos. Obviamente não poderia seguir dentro da parceria com agentes inconfiáveis. Fiz as minhas malas. Mas havia algo ali que me entrigava. Se o dinheiro havia sido escondido na embaixada, ao menos o esconderijo (e teria que ser um bem grande) deveria estar a vista…
Fui ao quarto presidencial. Amplo. Dois closets. Um banheiro grande. Deveria ser algo de fácil acesso a uma mulher, já que a amante teve de chegar até ele sem levantar suspeitas. Fui aos armários do closet. Feitos de Mahogany – por que tanto luxo para um prédio tão pouco usado? – Bati com os dedos, parede grossa – impossível de determinar se há um fundo falso. Se assim fosse deveria haver alguma tranca em algum lugar…
Ao fundo do corredor havia um espelho – dois metros, emoldurado, levemente inclinado em um dos cantos – puxei –o e, com certa satisfação, pude observar as marcas de algum objeto na madeira, algo serrilhado – talvez uma chave?
Então deveria mesmo haver alguma fechadura. Depois de algumas voltas, percebi um buracom em cada uma das quinas nas paredes do fundo dos armários quem ladeavam o corredor. Enfiei o dedo e puxei. As paredes cederam revelando diversar estantes vazias. Eles certamente haviam esquecido de trancá-las. Mas era tudo que eu precisava ver.
Aceitei minha dispensa. Parti para Cancun sob título de férias. Lá tomei uma viagem naval pelo Caribe.
 

E Agora? (ATON)

mil perdões pelo atraso e por não continuar com o “espelho de afrodite”. Acontece que a história estava inteiriha pronta, escrita, mas revisando ela nesse fim de semana eu vi uma falha, um buraco na narração que me obrigou a ter que bolar um final diferente, infelizmente inacabado. Mas espero que gostem desse poema inspirado em Drummond… BOA LEITURA!

“E Agora, José?”

 
E agora, José?
cadê a sua fé
de quem luta e morre em pé?
mas você, José, não luta
você se enfia nessa gruta
e à voz não escuta…
e agora, não! É a hora, José!
Acabou-se o mundo?
Mas você é Homem!
De coração imundo!
Que a raiva e o ódio consomem…
Mas você, José, tem medo…
Incutido, incubado, desde cedo…
E agora?
Amor, felicidade, lucro, dignidade
Tudo inalcançado, tudo para outra hora..
Outra hora não, José! AGORA!
Se você ainda vivesse,
Se você ainda obedecesse,
Se você ainda ardesse…
Só que não…
Não só se cala,
Não só se deita,
Na própria cavada vala,
Mas da sombra foge, dessa que espreita!
E agora, josé?
Está escuro,
É a sombra de quem você é
Que o espera logo ali, atrás do muro…
Lembra, José?
Esse muro que você ergueu?
Tijolo por tijolo,
Seu mais triste e amargo consolo…
Um mundo só seu…

Herói_-_Por Claus P. Neto

O herói se abaixou sob a pedra, tentando ao máximo não respirar. Respirar trazia o medo pra fora. Trazia o seu cheiro pra fora. Ele ouviu o rastejar lento no ladrilho invisível para ele na escuridão. Droga, porque ele não podia enxergar? O escudo não o ajudaria em nada se ele não pudesse ver por onde andava! O rastejar ficou mais alto, ele já não sabia de onde vinha, para onde ia. Ele suava frio. Talvez fosse o suor que o estivesse traindo, deixando o cheiro de seu terror subir ao ar direto nas narinas do monstro. Nunca antes conhecera tanto medo. Nem quando enfrentara Procrusto. Ele era apenas um homem, cruel, sim, mas apenas um homem. Aos homens ele temia, mas sabia que podia ser temido por eles, e isso lhe dava força. Nem quando o grupo de deuses desceu ao seu encontro. Foi terrível. Era terrível ver que não passavam de homens, homens e mulheres com um poder que não deveria ser permitido a ninguém. Ainda assim eles o ajudaram, e parte do medo se foi. Mas ele sabia que o preço viria. O preço sempre vinha. Assim como o preço de sua mãe era o monstro. Sim…se não fosse ele, quem protegeria sua mãe das investidas de um rei cruel, da fome, da humilhação caso falhasse? Ninguém. Aliás, ele já sentira mais medo sim: quando vira o olhar cobiçoso do velho sobre a mãe dele…quando ele comissionou-o a matar essa criatura rastejante, a ameaça nas entrelinhas. Talvez fosse por isso que tinha tanto medo agora. Talvez não. Aliás, não. Ele podia fazer muito, mas não se enganar. Ele sabia que o medo o tocara com a sua mão de gelo assim que ele vira as primeiras estátuas. Não medo por sua mãe. Medo por sua vida. Ele ouviu os escombros se moverem de novo. Sempre ouvir, sempre ouvir. Nunca ver. Se ele ao menos pudesse ver o que estava enfrentando…não, não podia ver. Os deuses haviam sido bem claros. Não olhar. Como se matava um monstro cegamente? O medo apertou o seu coração mais uma vez, cada vez mais gelado. Ele não conseguiria. Não era possível. Era uma força maior que a dele. A sua vida inteira havia sido isso: respeitar quem era mais forte, enfrentar somente o que era tão forte quanto você. Aquilo era um desafio grande demais para ele. Tentou então pensar em sua mãe, seu pequeno lar, na humilhação de sua derrota e na decepção nos olhos de sua mãe ao vê-lo com vida, mas apenas porque fugira. Mas não foi suficiente. O temor ainda estava lá. O fato de os sons rastejantes se aproximarem cada vez mais não ajudava. Medo e escuridão. Era tudo o que aquele lugar tinha a oferecer. Ele se levantou, já disposto a deixar o covil, mas um sibilo soou quando ele se moveu e então ele não ousou dar mais nenhum passo. Agora era certo. Iria morrer. Não dava para fugir sem a criatura ver, nem dava para ser mais rápido que ela. Enfrentá-la? Não, não era uma opção. Deveria haver alguma outra saída… Os sons estavam cada vez mais perto da pequena rocha onde ele se escondera. Ele então deixou a respiração soltar, ao mesmo tempo em que ouvia a fera farejar o ar a sua procura. Sim, era a respiração, mais do que o suor, que denunciava o seu terror. Foi quando percebeu. Ela não o via. Tinha que cheirar, ouvir na escuridão para achá-lo. Uma ideia louca lhe ocorreu. Não uma ideia de salvação, mas talvez de uma morte digna. Talvez pudesse vê-la antes de morrer. Por que não? Pelo menos comentava-se que havia um dia sido bela… Pensou uma última vez em sua mãe, e em voz baixa, mesmo sabendo que ela não podia ouvi-lo, pediu por seu perdão pelo que ia fazer em seu desespero. Estranhamente, sentiu-se leve. Seu coração não estava mais gelado de pavor. Respirando fundo, levantou-se de seu esconderijo de supetão e encarou a fera. Realmente era bela. Seu rosto, de traços finos, não combinava em nada com as serpentes que se enroscavam em um frenesi em cima de sua cabeça, nem com os dentes, curtos mas afiados que ela mostrou ao fazer uma expressão de ira. Estava tão absorto em olhar e ver os detalhes de sua assassina que a princípio não notou como a expressão dela passou da ameaça à surpresa, e depois ao terror. Foi então que percebeu: pensava. Estava consciente. Respirava. Vivia. Olhou uma última vez para o monstro, talvez com uma certa dose de piedade, quando empunhou a espada, e dessa vez ciente de que levava a vantagem, aplicou o golpe certeiro. O sangue jorrou quando a lâmina rasgou a carne da górgona, logo abaixo do pescoço, lançando-a para trás. Era um corte fatal, ele sabia. Mas ainda tinha que fazer uma última coisa, para honrar o acordo. Quando se aproximou, ela ainda respirava. Ela olhou devagar para ele e com um resto de voz perguntou-lhe: “como? Eu senti o seu medo, assim como o de todos os outros. Como você não se petrificou, como eles, se seu medo era tão grande quanto o deles?”. Ele demorou o seu olhar nela, procurando as palavras certas. “Eu a enfrentei de frente. Fui o único que não se curvou ao medo. Fui o único que em seu desespero não fugiu, mas encarou o seu terror, mesmo que apenas para morrer”. Ela assentiu, com a dor lancinante fazendo o seu rosto e as serpentes em sua cabeça se contorcerem. “Então faça logo. Acabe com a minha maldição, de uma vez por todas”. Ele assentiu, e em um golpe seco arrancou a cabeça. Demorou ainda alguns minutos para as cobras pararem de se debater. Só então pegou a cabeça, embrulhou-a em uma pequena sacola e voltou-se para a entrada da caverna.

Fim

Por Claus P. Neto