Ovelha negra (ATON)

Ovelha negra

Há essa lei universal que cerca os estudantes de humanas do Brasil, determinando cabalmente que todos eles devem ser marxistas, usar barba, ter gostos alternativos e coisas do gênero. E tem eu. Alguém totalmente desprovido dessa tara pelo cunho social, a ovelha negra, como um colega disse outro dia, fazendo uma alusão ao fascismo. Mas ta aí, gostei do nome.

Decidira escrever essa crônica desde março. Mas o título só surgiu essa semana (vulgo hoje, já que domingo não faz parte da semana, obviamente). Estava um grupo de estudantes de exatas discutindo sobre o universo e coisas da metafísica midiática. Eu meio quieto e observador fui entrando na conversa, o que levou, no dia, a questionamentos muito bons, com os quais realmente eu não me importo, porque não lembro o que eram. Mas desse assunto veio a pergunta, “Que engenharia você presta mesmo?”, “Nenhuma. Sou de Humanas”.

Desde esse dia, incessantemente, alguns colegas tentam me convencer a trocar de time. E devo dizer que a proposta é até tentadora. Digo, o pessoal de humanas é meio irritante, quando quer, o problema é que eles querem isso o tempo todo. Mas todos temos defeitos. Uns menos, outros mais…

Aí eu imagino como seria a faculdade. Chegaria em um grupo e ouviria coisas a respeito do PT, do PC, do PSol? Então eu diria, “sabe aquele economista…” e veria caras de repúdio, quase como se tivesse aspergido água benta sobre um grupo de vampiros em uma plantação de alho durante o meio-dia ao lado de uma igreja celebrando o domingo de ramos. Pior que isso seria “Marx errou quando…”. Imagino que não viveria para terminar a frase. Sério.

Na verdade, olhando para o esteriótipo dos meus futuros “camaradas & companheiros S.A.” passo a acreditar na teoria do bom selvagem do Rousseau. Até um neandertal parece mais civilizado do que esse pessoal de humanas “da gema”. Sabe, os caras de exatas não são muito diferentes. Mas quando discutem algo, não é para impor uma opinião abstrata e, de certa forma, inútil (como toda opinião social é), e sim para compartilhar “conhecimento” (apesar de isso ser raro).

Talvez devesse dizer algumas linhas também sobre o pessoal de biológicas. São bem legais e têm essa aura mágica a respeito do saber que faz tudo parecer meio místico… Talvez seja o LSD, mas fora isso são gente boa… O pessoal de humanas gosta bastante deles, afinal ensinam grandes técnicas milenares de herbicultura, se me entendem…

É legal que, no que tange os entorpecentes, o grupo de exatas poderia se dividir em: playboy+graxa de motor+futebol; ou asiáticos. Já que ser oriental já o coloca em um estado de espírito superior a qualquer um gerado por efeitos sensoriais conhecidos pelo homem.  Porque, você sabe, o japa/china/coreano não é bem um humano. Nesse sentido eu sigo aquela música do Ultraje a rigor “Vamos progredir de vez/ vamos virar japonês!”.

É claro que, porém, o japa de humanas é aquele que não é o 80. Visto tudo isso, por que continuar nessa área? Boa pergunta, eu sou de humanas, não preciso de motivos.

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Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes. Estamos chegando à conclusão dessa breve história. Com alguma sorte, ela estará fechada em mais um ou dois posts. Claro que raramente a sorte me favorece, mas ainda assim, é interessante supor o melhor. De uma maneira ou de outra, boa leitura. Só vou fazer mais um apelo: por favor, estou tentando ser um narrador melhor. Recebi algumas críticas de textos antigos que me fizeram refletir o quanto eu ainda estou longe de alcançar um padrão de excelência (pelo menos como eu concebo). Assim, feedbacks que me auxiliem a escrever melhor são totalmente bem vindos.

Boas tardes.

Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

“Comecei na Crispe em 1957. Eu contava com 30 anos e já era o meu sexto emprego. Não tinha muita expectativa de subir no cargo ou de me manter na empresa por muito tempo, mas aconteceu. Na época, para o senhor ter uma ideia, a Crispe fazia comida enlatada. Só em 1986, quando o neto do dono original da fábrica assumiu, é que passamos a fazer os salgadinhos. Bom, nessa época eu já era o entregador do produto, já que era um dos poucos da cidade que sabia dirigir. E foi mais ou menos nessa época que começou a nossa história com o Super Bom Mart.” O velho fez uma pequena pausa e tossiu. “Como o senhor já sabe, o mercado já estava em atividade já fazia algum tempo, mas nunca nos contatou para vender nossos produtos, o que, considerando o caráter turrão do proprietário, não era nenhuma surpresa. Então, eu viajava muito para fora da cidade, entregando a mercadoria para mercados de cidades grandes que só queriam um salgadinho de baixo custo. Aqui na vila mesmo, só fornecíamos para duas vendas pequenas que já fecharam e para o bar do Luriel, onde até hoje eu não preciso pagar a cerveja. A patroa não gostava muito, sempre achava que eu estava indo pra farra, mas eu sou um homem de honra senhor delegado. Ainda assim, isso quase que destruiu meu casamento com Gunercindes, Deus a tenha, minha veia!”. O senhor, emocionado pela lembrança, levou um dos dedos grossos aos olhos, e sem se incomodar com a presença do delegado, de lá tirou uma brilhante e cristalina lágrima. “Desculpa senhor delegado! A gente quando envelhece dá de ficar emotivo com qualquer coisa”, disse, justificando um tanto timidamente o gesto de saudade. Inspirou fundo, acalmando-se, e continuou. “Enfim, essas minhas viagens a trabalho estavam colocando meu casamento por um triz. Eu já não sabia o que fazer. Estava na empresa há muito tempo, ganhava bem. Ia ser difícil trocar de serviço àquela altura do campeonato, mesmo com todos os filhos já criados e fora de casa. Numa dessas viagens, eu estava estressado mais do que o normal. Tinha dormido pouco, saído cedo (por volta de 04h30minh) e nem mesmo tinha tomado o meu tradicional gole de café já que minha mulher estava dormindo. Saí esbaforido. Chegando à cidade em que eu ia fazer a entrega, peguei um trânsito infernal. Mas sabe o que realmente me deixou louco, senhor delegado?”, disse Aldemir num tom já irritadiço, “Assim que cheguei ao mercado para quem fornecíamos, às 09h20minh em ponto, dez minutos antes do horário combinado, me disseram para esperar alguns minutinhos. E assim, esperei. Fiquei lá até as 20h15minh. Sem almoço, janta, nada. Mesmo reclamando 16 vezes com os funcionários do lugar, que se fizeram de sonsos e me deixaram de chá de cadeira. Descobri depois que era porque o rapaz responsável pelo estoque estava com infecção urinária. Mas não me falaram nada. Simplesmente me deixaram lá, a ver navios, sem nem mesmo ter a dignidade de me pagar um pão com mortadela. No fim, fui bater na porta do dono do lugar e joguei toda a carga do caminhão na porta da casa dele, e dirigi-lhe algumas verdades bastante rudes. Desnecessário dizer que meu emprego como entregador tinha ido pro saco. Assim , na volta, você já imagina que meu estado de espírito não era exatamente disposto. Pois bem, na entrada da cidade, logo depois do pasto do seu Ramos, tinha um bordel famoso. Fechou quando um cliente particularmente importante e vingativo contraiu gonorreia, mesmo pagando extras para não usar preservativos. Mas na época, ainda era bem frequentado. Não tanto pelos homens da cidade, que por ser pequena, abria brechas para as fofocas se espalharem rapidamente, mas isso não significava que alguns dos nossos ilustres representantes  não visitassem a casa. Naquela noite, ao passar pelo lugar, descobri que um desses ilustres representantes era ninguém menos que o proprietário do Super Bom Mart. Aconteceu que eu, já desesperado por chegar em casa tarde e já antecipando o conflito com minha esposa, estava correndo que nem um louco pela estrada. Só que nesse cenário, o dono do mercado, já completamente embriagado, saiu também correndo, segundo ouvi por conta de uma desavença com uma das ‘funcionárias’ do local. O resultado você imagina. Até hoje eu não entendo como nós dois não morremos naquele acidente. Só me lembro de que acordei no dia seguinte na Santa Casa, com o tubo de soro no braço e o dono do Super Bom Mart gritando com a enfermeira porque se sentia perfeitamente bem e queria ir logo para casa, de camisola e tudo. Aquele incidente só fez a minha vida ficar ainda pior. No dia em que voltei para casa, a carta de demissão da Crispe já estava em cima da mesa. O fato de eu ter batido o caminhão na frente de um bordel tarde da noite não só deu motivo para a demissão por justa causa como também piorou meu relacionamento com Gunercindes, que foi pra casa da mãe. Eu estava em parafuso, senhor delegado. Pensei em um monte de coisas que eu poderia fazer pra solucionar a besteira. No fim, escolhi a pior: fui ao bar. Chegando lá, encontro ninguém mais, ninguém menos que o homem com quem tinha batido alguns dias atrás. O indivíduo também estava amargurado porque o acidente revelara a sua relação com o prostíbulo e não só as vendas não paravam de cair como suas relações com o sogro, principal fonte de capital para investimento, também não andavam muito bem. “Assim, logo que me viu, ele, que já estava meio ébrio, saltou pra cima de mim”. O velho pigarreou mais um pouco, fruto do pulmão fraco, deixando soltar depois uma ligeira risada. “Juro pro senhor, delegado, nunca me senti tão apavorado quanto naquele momento. Ele estava com muito sangue nos olhos mesmo. No fim, o dono do bar teve que nos expulsar pra resolver a rixa na rua. Num dado momento da briga, ele se descontrolou e puxou um canivete. Aí, movido pelo medo de morrer, eu lutei com mais força ainda e consegui derrubá-lo com um golpe bem acertado no queixo”. O velho ficou algum tempo com um sorriso no rosto, como que apreciando a façanha, e o delegado teve que pressioná-lo a continuar. “E então foi isso? Foi por causa dessa rixa entre vocês dois que você, depois de tantos anos, resolveu se vingar e explodir seu estabelecimento?”. Aldemir saiu de seu transe e respondeu, em tom indignado. “Nada disso! Se o senhor parasse de fazer interrupções e ouvisse a história inteira, não ficaria supondo esse tipo de bobagens”. O delegado engoliu a raiva, e tentando não apontar que fora o próprio velho quem interrompera o depoimento, perguntou: “E então o que aconteceu em seguida?”. O interrogado deu de ombros e respondeu: “Eu esperei ele acordar e paguei uma cerveja pra ele”.

Ensaio Apolíneo (ATON)

Ensaio Apolíneo

Olá, eu sou um deus. Não, espere, não sou “O” Deus Maiúsculo. Sou a personagem de “um deus”, aquele do Nietzesche, sabe? O que morreu… É, esse mesmo. Mas como? Explicarei mais abaixo. Por enquanto, chamar-me-ei de Apollo (sim, como todo bom profeta usarei mesóclises em excesso), não que haja algo de especial nesse nome, qualquer outro serviria, Bob, por exemplo. Acontece que as pessoas gostam muito de nomes, embora pudessem viver muito bem sem eles.

Enfim, a minha morte, falar-lha-emos agora (olha só). Esse filosofozinho alemão, o maior de todos, Nietzesche, declarou meu óbito com a incrível perícia dos médicos legistas (dã?). Mas não é a ele a quem concedo o crédito de carrasco, e sim a um outro, o Descartes. Não só fez do ensino fundamental um inferno, como elucidou o princípio de existência supremo: “duvido, logo penso. Penso, logo existo”.

Ora, se eu sou um deus, e eu existo, eu penso. Se eu penso, eu duvido… Mas eu sou um deus?! Então, eu não tenho certeza de tudo, não sou onisciente. Consequentemente, existindo “objetos” alheios a minha sabedoria, não posso ser onipotente, uma vez que não os conhecendo, não posso reproduzi-los. E, portanto, esses “objetos” existem contrários a minha vontade, não fazendo parte de minha criação, de forma que eu não estou presente em suas existências, não sendo onipresente.

Sendo assim, Se eu sou um deus, eu não sou um deus ao mesmo tempo. Seu eu existo, eu não existo. Se eu sou intangível, eu posso ser qualquer um. Posso ser você, inclusive. Mas enfim, pra que venho eu, do meu túmulo, “perturba-lhes

-ando” (erro proposital ~haters gonna hate~) com essas considerações imbecis? Para falar de algo igualmente imbecil: O Brasil.

Eu sei. Antipatriotismo ultimamente não anda na moda. Mas não há muita coisa para se importar quando se está vivo/morto. Comecemos (de novo) falando de lógica. Aborrecê-los-ia também ser morto por uma linha de argumentação impecável, fruto de uma grande capacidade de raciocínio, já existente no sec. XVII, mas, quatro séculos depois, ver tamanha ignorância ainda existir. Mais que ignorância, incoerência.

R$0,20 insuflaram a “consciência” “política” (ironias distintas) dos brasileiros uns meses atrás. Mas, quando os maiores bandidos do país recebem um aval para a impunidade, o que é feito? Muito bem, nada. E os Trilhões que continuarão sendo roubados? Isso não é odioso, revoltante, digno de protesto?

Falo do julgamento do mensalão. Tão revoltante que até um deus se revira em sua cova, levanta-se e dá um tapa no rosto mascarado na nação. Esses que, no dia seguinte, jogaram pedaços de pizza no prédio do STF, tem uma suíte presidencial cativa no céu e mais cem anos de perdão. Nação que pune ladrão, tem mil anos de evolução! Enquanto aqueles que dizem “o gigante acordou”, dizer-lhes-ei (ok, isso já me cansou) que esse gigante é, muito provavelmente, uma criança mimada que se irritou com algo que lhe foi negado/imposto, mas que, contudo, não sabe pelo que, de fato, vale a pena “Chorar”.

AH! Fossem outras épocas, quando eu ainda era vivo, teriam vindo pragas, dilúvios, catástrofes. Fossem outras épocas, talvez eu nem precisasse ameaçar destruir o mundo, os homens o fariam sozinhos, e de bom grado! Mas hoje, “jogaram mentos na geração coca-cola” e agora ela está “sem gás”. O pior, eu avisei. Não, o autor deste texto avisou. Mas concordo com ele. Sabe, quando Nietzesche confirmou meu óbito, certamente havia ali toda sua raiva contra a religião, mas sua proposta era criar cinco minutos, para que as pessoas se sentissem deusas de si, propelidas a mudar o que vissem de errado. Hoje, nem sequer minha existência é questionada…

Temos um grande avanço na ciência, é fato. Mas, infelizmente, a ciência só é boa para os cientistas. Não para essas mulas que acreditam serem inteligentes, revolucionárias, corretas, apenas por criarem um evento no facebook. Meu caro leitor, você será sempre ignorante (O autor deste texto incluso), e essa é a lição mais difícil desta vida. O conhecimento, por enquanto, é infinito. Não há, portanto, certezas concretas, apenas opiniões menos/mais orientadas pela lógica. E, meu amigo, a lógica me matou. É lógico que, quem realmente está lutando por um brasil melhor, já teria saído às ruas, se o alvoroço dos R$0,20, algo muito menor, já o fizera.

Só que isso não foi observado. Imagina o por quê?

Atentado parte II_-_por Claus P. Neto

Boas tardes. Perdão por meu novo atraso. Mas acho que vocês já se acostumaram (já que essa semana não receb nenhum e-mail ameaçador cobrando minhas postagens regulares). De todo modo, espero que aproveitem. Estou tentando melhorar minhas habilidades narrativas, e espero que até o fim dessa estória isso se faça sentir. Também comecei um novo rito de renovo antes de escrever, o que espero que ajude a pelo menos manter o ritmo de postagens semanais (o que por conseguinte me obrigará a escrever mais, o que por sua vez deve melhorar o meu estilo). De todo modo, boa leitura.

Boas tardes.

P.S.: Percebi logo após que postei a primeira parte que cometi vários pecados de coerência externa, principalmente por não conhecer a fundo o modus operandi de nossa polícia (por exemplo, supus que a polícia civil teria um cargo sofisticado como o do detetive). Assim, corrigi a primeira parte, já costurando com essa. Portanto, quaisquer incoerências com o texto passado é fruto dessas alterações para aumentar a verossimilhança do conto. Assim, caso você perceba mais erros, por favor perdoe-os, ou melhor ainda, avise-me sobre eles para mais correções e uma história melhor ;D

P.P.S.: Só depois de postar essa publicação é que eu percebi que essa é a minha 42ª postagem! Não espero que todos entendam a minha infantil felicidade com isso, mas para os que sabem: eu os saúdo!

Atentado parte II_-_por Claus P. Neto

No fim, mesmo relutante, ele atendeu. “Alô!”. Do outro lado da linha, falou uma voz velha e rouca, ligeiramente trêmula. “Alô, delegado. O senhor provavelmente não me conhece, mas eu trabalho no setor de entregas da Crispe, principal fornecedora de salgadinhos para o Super Bom mart”. O delegado conhecia a marca. Era notoriamente conhecida por ser um dos piores salgadinhos já feitos pelo homem, mas graças a um convênio com o dono do mercado, não havia outra opção na cidade, portanto, vendia como água. “Sim, sim”, respondeu o oficial, com a paciência quase esgotada pelo velho do outro lado lhe incomodar com uma informação tão irrelevante ao invés de ir direto ao ponto, “em que posso ajudá-lo, senhor…”. “Aldemir”, respondeu a voz do outro lado do telefone, “eu estou te ligando porque graças à minha posição dentro da empresa eu tive acesso privilegiado a certas informações. E eu sei quem foi que explodiu o supermercado”. O delegado não estava muito disposto a dar ouvidos ao velho, mas mesmo assim pediu que viesse à delegacia prestar seu depoimento. Ele chegou vinte minutos depois, em um carro que nada mais era do que uma propaganda ambulante dos salgadinhos Crispe. O delegado ficou olhando pela janela enquanto o senhor de idade destruía dois carros ao tentar fazer a baliza e sair com uma sacola cheia de pacotes de salgadinhos. Depois disso, sentou-se de volta na cadeira e esperou. Vendo aquela cena ele até se lembrou de quem era o velho. Atendera um caso de roubo pra ele uma vez. Nem se recordava como o caso terminara. Estava tentando se lembrar quando a maçaneta girou e o velho entrou sala adentro.

Era baixo, curvado, com as mãos e dedos grossos. O cabelo ralo e branco se confundia com sua pele caucasiana. O único destaque dele eram os olhos, fundos e com olheiras séria, como se ele não dormisse desde os anos 60, mas ainda assim faiscantes, azuis e cheios de vida. E é claro, a sacola de salgadinhos que ele levava de um lado para o outro. A um convite do delegado ele se sentou, e já ia começar a falar quando o delegado, irritado pelo som constante dos sacos de salgadinhos, sugeriu que o senhor deixasse a sacola com Jair. Após ele sair e deixar o pacote com o escrivão (que por sinal adorava a marca) ele voltou a sentar-se. O oficial suspirou e então começou o diálogo.

“Nome completo, por favor”. “Aldemir Coriatti Fagundes Melo”. “Ano de nascimento?”. “05/02/1927”. “Endereço?”. “Rua Triveli Paiva 954”. O delegado na verdade poderia continuar indefinidamente com a burocracia, mas estava muito cansado e queria se livrar logo do velho. Assim, foi direto ao assunto: “o senhor me disse que tinha informações sobre o atentado de hoje”. “Sim, sim. Trabalho na Crispe há vários anos, sabe? Uma carreira de quase 60 anos. Já vi a companhia mudar de mãos três vezes e fui colega de escola do seu fundador. Então eu sei de muito do que acontece lá. Bom, e por conta disso, fiquei sabendo que a sabotagem ao Super Bom mart foi trabalho de um funcionário da Crispe”. “E como o senhor sabe disso exatamente?”. O velho deu um risinho baixo antes de continuar. “Conversando com um dos rapazes da manutenção eu fiquei sabendo que no meio dos tanques de nitrogênio que usamos para preencher os pacotes havia uma parcela muito pequena de tanques de hidrogênio. Na hora, acharam que era engano do fornecedor, mas como os tanques estavam cheios, nem deram atenção e deixaram para se queixar mais tarde. Só que na véspera do incidente os tanques de hidrogênio sumiram. Como ninguém sabia o que ocorrera, supuseram que o chefe devolvera-os ao fornecedor. Mas justo nesse dia, eu fiz uma entrega grande de salgadinhos para o supermercado. Creio que não é difícil juntar os pontos, não é? Tenho certeza que os resultados da perícia confirmarão que houve uma explosão por gás hidrogênio”. O delegado assentiu, mas algo no modo de falar do velho lhe chamou a atenção. “Porque quando você reportou isso você falou ‘acharam’, ‘deixaram’ ao invés de ‘achamos’ ou ‘deixamos’?”. Novamente o velho riu. “Não é óbvio delegado? Fui eu quem explodiu aquele lugar. Na verdade, eu só vim aqui para me entregar”.

O oficial quis por um momento duvidar da afirmação absurda do velho, mas a expressão dele era tão resoluta e certa que ele não questionou. Algo dentro dele lhe disse que o idoso falava a verdade. E por algum motivo ele se sentiu compelido a deixar que o senhor falasse mais. Então ele simplesmente deu mais corda. “Bom, vamos do começo. Como era o seu relacionamento com o dono do estabelecimento?”. O acusado abriu um sorriso irônico, mostrando os dentes, já em número bem reduzido. “Que bom que perguntou, delegado. Que bom mesmo”. E começou o seu relato.

Continua…

Por Claus P. Neto

Filosofia do Pôquer (ATON)

Filosofia do Pôquer

Tudo bem, esta já é uma analogia bem gasta. Mas algumas coisas autênticas ainda podem ser escritas sobre isto. A maior lição que o pôquer te ensina é que, de fato, não importa com quais cartas você começa, digo, não importa o quão ruim é a sua mão. Na vida é igual: não importa o quão mal tenha sido o começo (pobreza, miséria, doença, abandono, retardo mental, preconceito, et cetera). O que determina a vitória é como você joga.

Não importa as jogadas que podem, de fato, serem feitas, mas sim aquelas que seus oponentes pensam que você é capaz de fazer. Porque sim, você terá, na vida, oponentes em tudo, e isso é perfeitamente normal. Qual seria o sentido do jogo, da vitória, se não a derrota dos oponentes? Bom, há a diversão do jogo, mas as grandes apostas são tensas. Aquilo que é grandioso desperta a ambição, não a diversão. Ninguém derruba um sistema político para espantar o tédio.

Eu gosto do Texas Holdem. A forma como há as cartas da sua mão e as da mesa, a sorte sua separada da sorte de todos; suas particularidades pessoais e as regras gerais. Eu gosto do Texas Holdem porque, nesse estilo, o importante é blefar. Não digo mentir. Blefar: ser apreciado, temido, amado, odiado, por nenhuma outra razão além de que sua existência é uma ameaça a outro jogador. O que pode ser conveniente para que tudo acabe logo, ou se prolongue por mais tempo. Na vida haverão muitos blefes. O que é um vestibular, se não uma prova na qual são selecionados aqueles que melhor disfarçaram sua ignorância?

E, é claro, há toda essa mágica que cerca o ato de apostar: para lucrar é necessário investir… perder dinheiro para, depois, ganhar o dobro ou mais! E quantas apostas não seremos forçados a fazer? Quanto do nosso tempo, por exemplo, não temos que gastar com uma mulher, para que depois ela venha a gastar o tempo dela conosco? E quando seu tempo acaba… Você está fora do jogo! É incrível… este texto é uma aposta. Você o ler é outra. E se perdemos? Há sempre outra rodada.

Aliás, se não queremos participar de uma rodada, seja poque interpretamos que os outros estão melhores, seja porque nos importamos com as cartas, seja porque as apostas estão altas demais, temos que pagar. Sim, no pôquer você deve cobrir o valor da aposta para deixar a rodada. E quanto que esses miseráveis que aceitam a sub-condição humana não pagam? Bom… escolha é escolha. Já disse, pouco importa a mão com a qual temos a sorte de começar.

Jogar pôquer, em um modo muito abstrato de ver, é viver. Veja, esse jogo é conhecido como trapaceiro, viciante, de baixo nível, conhecido como pecaminoso até. Mas eu nunca ouvi alguém vivido dizer que o mundo é diferente disso. Enfim, eu quero dizer, não é para que o meu leitor deixe de lado todas as virtudes, mas que ele saiba jogar com elas, pois haverá situações em que ele deverá optar por ganhar, ou seguir uma moral. E, nessa hora, as fichas sobre a mesa não perguntarão se o ganhador é um homem correto, ou se as necessita mais do que o perdedor. Quem está jogando, meu amigo, deixou em casa seus escrúpulos. Não é isso que dizem, somos todos pecadores? É o jogo. O que diferencia os homens não é suas ações na mesa, mas fora dela.

Atentado parte I_-_por Claus P. Neto

Boas noites. E enfim, as narrativas voltaram, o que significa que, oficialmente, o meu bloqueio criativo ACABOU!  Tenho que comemorar, não tem jeito. Depois de semanas sem conseguir colocar nada no papel, é gratificante voltar a escrever com a mesma fluidez de antes. Antes que vocês se preocupem com outra epopeia interminável, deixo avisado que esse texto é mais curto. Planejo acabá-lo em mais um ou dois posts, então não se inquietem por conta disso (pelo menos por enquanto). De todo modo:

Boa leitura e boas noites

Atentado parte I_-_por Claus P. Neto

“E então é isso. Essa é a história toda”, concluiu o velho. O delegado olhou para o suspeito, com a incredulidade ainda estampada na cara, apesar do esforço. O suspeito pareceu perceber. “Você não acredita em nada disso, não é?”. Na mosca. “Não, não acredito”, replicou o oficial da lei, “Não que o relato seja absurdo, muito pelo contrário. É totalmente plausível, e até agora foi o que melhor explicou tudo o que aconteceu”. “Então por que não acredita?”, provocou o interrogado, com uma expressão faceira na cara velha, como se estivesse ansiando por contar o fim de uma piada particularmente engraçada. O delegado ficou ainda mais irritado com aquela expressão, mas conteve-se, e respondeu em tom calmo: “Porque ainda está faltando um ponto importante”. Fez uma pequena pausa e olhou nos olhos do velho à sua frente. “Por que você se entregou?”. O suspeito abriu um largo sorriso. Finalmente poderia contar o final da piada.

Algumas horas antes

O delegado saiu da viatura, irritado pelo incidente ter ocorrido justamente no seu plantão. “Nossa!”, pensou ao ver o estrago da cena. À sua frente, no lugar onde antes estivera o “Super Bom mart”, havia apenas uma quadra de entulho, comida enlatada, papel higiênico, dentre as várias outras coisas que eram vendidas no local. Na verdade, ele não acreditara na história quando o telefone da delegacia tocou. Vendo agora o tamanho do estrago, ele sabia que deveria ter se preparado para o pior. Ele esfregou as têmporas e soltou um murmúrio baixinho. Aquele ia ser um dia BEM longo.

Ele só cumpriu o protocolo mínimo antes de deixar as coisas nas mãos do perito e voltar à delegacia. Não tinha muito pra ver: o supermercado havia explodido; poucos feridos, já que boa parte dos escombros e artigos voara pelo estacionamento gigante que circundava o prédio; até ali, só era confirmada a morte do zelador (cuja perna tatuada serviu para identificação, já que a cabeça sumiu). O dono do estabelecimento foi chamado às pressas à delegacia para um depoimento, no qual afirmou que dormira a noite inteira e só acordou com o telefonema o chamando para lá. Agora, era esperar o laudo do perito, que provavelmente demoraria dois dias para ficar pronto (sete, dependendo de como estava o laboratório) e a autorização judicial para pegar a documentação de fiscalização do estabelecimento, só pra checar se havia alguma falha na segurança que pudesse ter detonado a explosão. Mas nenhum dos dois chegara, nem chegaria em um futuro próximo. Então não havia nada o que se fazer. O oficial se levantou e pegou mais um café, dessa vez concentrando ainda mais a quantidade de açúcar. Na verdade, já tinha uma ideia pré-formada do caso. O dono do mercado era um velho notoriamente teimoso e acima de tudo pão duro. O lugar tinha uma estrutura grande, mas que não mudava desde 1976, e em parte já estava caindo aos pedaços. Além disso, corria uma fofoca na delegacia (vinda fresquinha de um amigo seu no corpo de bombeiros) que o velho molhara a mão do fiscal pra não ter que reformar o lugar, e que isso já ocorrera quinze vezes. Com certeza o prédio teve um vazamento de gás sem que ninguém percebesse e o zelador inadvertidamente acendera um cigarro na hora errada, no lugar errado.

Ele bebericou o café devagar enquanto pensava na hipótese. Sim, era quase certeza. Havia alguns pontos soltos ainda, mas em todo caso teria que esperar os exames da perícia e os papeis, sempre os malditos papeis. Voltou à sua sala e desabou na cadeia, exausto. Também teria que esperar o parecer do juiz, pensou. Dependendo de como andava o relacionamento do magistrado com o dono do lugar, colocar que tudo fora resultado da displicência do proprietário poderia não ser uma ideia inteligente. Mas ele resolveu deixar essa questão para depois. Ele estava tão cansado…

“Jair!”, gritou, chamando o escrivão. Logo o rosto magrelo apareceu na soleira da porta. “Chamou?”. “Sim. Eu vou tirar um cochilo que ontem eu dormi mal e estou morrendo de cansaço. Atende o telefone e se alguma coisa grave acontecer, me acorda na hora”. Jair fechou a porta, e o delegado debruçou-se sobre a escrivaninha de fórmica barata. Quinze minutos depois, o escrivão entrou correndo na sala. O oficial só olhou mal-humorado para ele de relance antes de grunhir algo como: “Se is… não… impor…eu vou…”. Jair nem se importou. “Ei, deixa de mau humor que isso é importante. Acabou de ligar um cara sobre esse caso do supermercado. Eu acho que é melhor você atender”. O oficial ergueu a cabeça, ainda tombada de sono. “Por quê?”, disse num tom pouco amigável. Jair só olhou, com um sorrisinho irônico no canto da boca. “Só atenda”, disse antes de sair.

Continua…

Por Claus P. Neto

1ª Crônica de Um Bardo (ATON)

1ª Crônica de Um Bardo

Olá. Eu sou Um Bardo. Não um musicista, ou artista musical, ou D.J., ou qualquer coisa do gênero, mas UM B-A-R-D-O. E qual é a diferença? Eu tenho poder. Mais poder do que um mago; mais poder do que um bruxo. Veja bem, eu não reproduzo música, eu SOU música. E o que é isso? Música é o próprio universo. Esse conjunto incontável de vibrações e forças: uma sinfônica perfeita, sem orquestra, sem maestro… Apenas uma enorme plateia de surdos e… Um Bardo. Sou eu.

Não entendeu? Bom… Sigamos mesmo assim. Eu não gosto da paz. Não há som na paz, ela é quieta. Mas também não gosto da guerra. A guerra consagra heróis, que pensam ter o direito de cantar em “acapella”, e não existem músicas inteiramente “acapella”. Não. É justamente por isso que escrevo. É meio solitário. Eu vivo séculos e séculos vendo esses surdos dormirem e acordarem, sem se darem conta do gigantesco espetáculo que está logo à frente.

Enfim. Escrevo uma crônica. Estava eu um dia andando pelas ruas de São Paulo. Via ali alguns jovens acéfalos. Protestavam. Não que o ato de o fazerem de fato os denunciasse como tal, mas se via os aspectos clássicos dos acéfalos. Surdos, é melhor chamá-los assim. Provocavam um movimento, certo? E eu gosto disso. Mas como em todo guerra, queriam eles serem heróis. E eu odeio isso. Não existem heróis. Há ações que prejudicam ou beneficiam, desagradam ou não, o próximo, mas isso não faz de ninguém melhor. Continuamos todos apenas plateia.

Eu via ali não a face de quem luta a interminável batalha da justiça, e sim a face de quem quer ser lembrado nos livros de história. A face de quem, como não faz parte do jogo, quer forçar sua entrada. HA. Beethoven compôs 44 peças sendo surdo. Embora antes disso tenha treinado por mais de 20 anos. Esses já surdos de nascença, que mal seguraram um instrumento nas mãos, queriam tomar das mãos do pseudo-maestro (já que não existe um maestro de verdade) a partitura e reescrevê-la toda!

Ah… Como eu queria apoiá-los. Amo novos ritmos, novas melodias. E essa que o governo vem tocando já se repetiu por demasiado tempo. Mas é a única que esses jovens conhecem. Então eu pergunto ao leitor que já chegou até aqui, como poderiam eles compor qualquer coisa diferente? Vê… Aqui pode-se dizer que há paz. E, por isso, as coisas mudam pouco, certo? Visto que a guerra desses jovens levaria a igual padrão de paz. Então… tempo, sangue, paciência, derramados.

Como posso eu ser tão certo disso? Simples. Diga-me, Querido Leitor, qual foi a música que eles levaram às ruas? Por exemplo, “Para não dizer que não falei das rosas” do Vandré, “Cálice” do Chico e do Gilberto, “É proibido proibir” do Veloso, etc… Qual era IDEOLOGIA que eles cantavam? Pois é… Não cantavam. Se dalí fossem destilados os clássicos chavões divulgados pela mídia (escola, saúde, educação, corrupção), nada teriam. Nada…

Eu odeio isso. Havia centenas, milhares, de surdos fazendo seu “acapella” e torcendo que isso os tornassem músicos autônomos. Mas temos aqui um habilidoso pseudo-maestro. Agitou ele sua batuta e jogou ao povo um foco para reclamar e, como uma fada que conduz sua varinha de condão, fez o problema desaparecer, como se fosse aquela massa a verdadeira responsável. HA… foi uma bela piada, e poucos entenderam.

Clássico caso da guerra que faz apenas a paz ficar ainda mais entediante. Obviamente aqueles mais hipócritas vão às ruas até hoje. hmpf… Marx os muniu bem de palavras vãs e difíceis que não servem para fazer música alguma. Aliás, que não servem para nada, senão decorar epitáfios.