Nós Psicopatas (ATON)

Nós Psicopatas

Não sem emoções.
Mas doentes da alma
na alma
de alma.
Essa coisica que a ciência não comprovou
ou que a razão não sanou.
Pela alma matamos e morremos;
sonhamos e decepcionamos;
pela alma crescemos e infantilizamos.
Somos loucos, porque não…!?
Por ela até mesmo escrevemos.
trabalhamos, construímos,
guerreamos, destruímos,
amamos, encantamos,
odiamos, indiferentes…
Sim, patologia da alma
na alma
de alma
a… alma
Antes fosse meramente a mente,
não seria endêmico de todos nós.
E se por ela somos tão inconstantes, incompetentes,
não seria aquele que, então,
tão coloquialmente,
chamamos de “o psicopata”,
o único são da alma?
E é engraçado pensar,
que viver seria melhorá-la,
e, por isso mesmo, piorá-la,
tanto quanto mais lúcidos, mais loucos
tanto quanto mais se sente, menos se entende.
Sem graça serão os dias de nossa prole,
o dia em que nos curarem da alma,
e não mais poderem morrer de amor, de dor
morrer deles mesmos.
Uma vida que não seria feliz,
embora não seria triste,
mas apenas vida, e nenhum adjetivo a mais.

Hiperbórea III (ATON)

   Hiperbórea

parte III

     -Ah… pessoas – riu o Agente 42 – A ONU, A G.S.S., todos, do mais simples cidadão ao mais poderoso magnata, tentando adiar o inadiável, controlar o incontrolável – riu – patético. Diga logo, homem, minha missão aqui.

     Impassível, o Homem Fardado continuou do ponto que havia parado, como se não houvesse sido interrompido.

     -Foram descobertos genes relacionados ao dom de liderança e a tendências bélicas. Porém, a forma de hereditariedade tem sido muito questionada. Inicialmente esta base era uma central de super computadores, trançando a linha de parentesco dos maiores generais da história, estudando suas descendências. No final da guerra fria, alguns países adotaram um sistema da vigilância genética, hoje já estendido por uma boa parte da América, Europa, alguns países da Ásia e Oceania. Desde então recebemos pessoas que apresentam indícios e os mantemos ocupados, protegendo a paz, de certa forma. Senhores, quero que conheçam a cidade que nossos prisioneiros construíram: Hiperbórea.

     Apertou um botão sobre sua mesa e uma tela surgiu em uma parede vaga ao lado. Digitou algo no computador e dezenas de imagens captadas por câmeras começaram a ser reproduzidas: casas de madeira, pequenas hortas, uma grande praça com inúmeras pessoas vestidas todas iguais. Lembraria algum lugar onírico do passado se não fossem as lâmpadas pálidas no teto e os tubos de ventilação com grades mais espeças que um homem.

     -Hiperbórea tem um dos maiores sistemas de vigilância do mundo. É, de certa forma uma prisão, mas é tão grande quanto Minerva. Ela se situa logo a oeste, sendo alimentada pelos mesmos geradores que aqui. Há um ecossistema artificial controlado por nós, ainda em fase de adaptação. Florestas e até mesmo rios podem ser encontrados lá. Os prisioneiros só têm acesso à tecnologia que conseguirem produzir. Fornecemos três vezes ao mês livros seletos. Clássicos e alguns volumes de medicina, nada que ofereça perigo. Fora isso, todo resto é por conta deles.

     As imagens que seguiam eram impressionantes: ruas de pedra, algumas bicicletas de madeira, idosos jogando xadrez ou contando histórias para crianças, lembrava uma vila medieval “moderna”, extremamente organizada.

     -Eles têm um avanço moderado sem tecnologia acessível. Mas mês passado um homem escapou. Semana passada foram outros dois. Verificamos cada metro desse lugar e nada encontramos. Esta é a sua missão, descobrir como, para onde foram, se sobreviveriam na Antártica, por que fugiram e reportar as falhas no sistema. Para isso, Agente 42, você será um prisioneiro infiltrado. Temos pressa.

     -E quais são meus assuntos aqui? – continuou o Doutor ainda sério.

     -Dr. Schwarzer. Considerado o maior polímata da atualidade. Creio que o senhor conheceu o Dr. Denker?

     -Edward Denker? Foi meu professor na faculdade em Berlim. Um dos poucos a não me discriminar pela minha descendência brasileira… Morreu sete ou oito anos atrás…

     -Na verdade, três dias atrás. Foi um dos primeiros recrutas. Mas só veio nove anos atrás, pois ainda não haviamos completado o laboratório de pesquisas. Este é o testamento dele

     Jogou um papel com umas duas linhas escritas, uma assinatura e uma impressão digital. O Dr. Schwarzer leu em vós alta: “Em caso de morte, deixo tudo (minha pesquisa e meus bens daqui) para meu grande discípulo: Marco Aurélio Carvalho Schwarzer”. Havia uma cópia, abaixo, do mesmo enunciado, em inglês e outra em alemão.

Um pequeno (grande) desabafo_-_por Claus P. Neto

Boas noites. Como semana passada, tentarei ser breve aqui. Há, entretanto, uma singular diferença dessa semana para a anterior: eu tenho algo sobre o que falar. O atraso do texto foi produto de circunstâncias externas (que deram a este humilde autor uma ótima desculpa). Na verdade, eu nem queria escrever sobre o assunto a seguir, por achar que em boa parte ele já virou notícia velha, mas de novo, circunstâncias (as quais eu acredito que ficarão melhor ocultas) contribuíram para esse desabafo. Faz bem pouco tempo, um vídeo de um assalto que terminou mal para o meliante virou a nova febre da internet brasileira. Nesse ínterim, foi notável ver como a opinião pública se dividiu a respeito do acontecido. Até onde eu pude acompanhar, a maior parte das pessoas achou, no mínimo, justa a ação policial que resultou na internação do assaltante. E sabe o quê? Concordo. Aliás, vou colocar aqui um parênteses, antes de continuar. Por princípio, defendo que toda vida tem um valor sagrado. Em hipótese alguma creio que teria sido bem feito se o ladrão morresse em decorrência dos tiros. Aliás, creio que mesmo os que mais ardentemente deixaram claro nas redes sociais o seu desprezo pelo infrator não teriam coragem de vê-lo perecer (quem dirá puxar eles mesmos o gatilho). O que toda essa situção trouxe à tona, é que o Brasil, em termos de segurança pública, está virando um verdadeiro pesadelo. É incrível como de uns tempos para cá trocamos o temor de, nos anos de chumbo, ser arrastados por nossas convicções políticas e passamos  ter pavor de ser abordado na rua. Até hoje, tenho um medo violento de usar meu celular (um aparelho semi-paleolítico que possui apenas as opções chamada, mensagem, calculadora e calendário) na rua. E porquê? Porque hoje, isso é comum. E o que é pior. Não há justiça. Cheguei ao cúmulo de ouvir de oficiais da PM detalhes de criminosos como apelidos, descrição física e até mesmo de vida pessoal dado ao grande número de vezes em que foram presos…e soltos logo em seguida. Há tanta violência nas ruas, e tãos poucos os casos em que se cumpre algo próximo do justo, que praticamente não há reação mais natural do que aplaudir um policial que, em um caso raro, conseguiu impedir que um vagabundo covarde tomasse o que era de outra pessoa só pelo fato de possuir uma arma de fogo. E antes que algum indivíduo tente advogar pelo referido covarde, já deixo claro aqui: se você acredita que violência vem pela falta de oportunidades, convido-o a pegar o computador, notebook, tablet ou smartphone de onde você lê esse texto e doá-lo gentilmente ao primeiro assaltante sem oportunidade que cruzar seu caminho, de modo que pelo menos com o dinheiro da venda ele tenha “uma oportunidade igual à sua”. Meu amigo, criminalidade ou pobreza não advém de oportunidade ou sua falta. A síndrome do coitadinho não vai ajudar ninguém a sair do buraco de lama em que ele está enfiado ou de impedir que ele tome por força covarde o que é, por direito, de outro: um celular, dinheiro, um ente querido ou sua própria vida. O fato é: aplaudimos demonstrações de justiça feita porque, no dia-a-dia, convivemos com uma realidade deprimente de crime impune. Todos gostaríamos que, em um momento como o que passou o motorista da moto, tivéssemos um PM disposto a intervir em nossa causa. Todos nós gostaríamos de poder andar nas ruas em paz. De sair de casa sabendo que, quando voltarmos, ela estará inteira. Ou então que, mesmo que quaisquer destas coisas ocorresse, fôssemos justiçados por um governo que em tese, tem o dever de nos proteger. E enquanto isso, esse mesmo estado passa a mão na cabeça daqueles que nos põe sob o signo do medo: tanto aqueles que nos abordam na rua com armas à mão, quanto aqueles que, de terno e gravata, sugam vorazmente o dinheiro de nosso hospital, de nossa escola, de nossa segurança, de nossas vidas, e ainda legislam contra aqueles que, com coragem, tentam fazer cumprir algum tipo de justiça. Gostaria que nessas duas esferas, eupudesse viver tranquilo. Mas tudo não passa de um sonho distante, que some faceiro e diáfano diante de meus olhos assim que eu acordo.

Boas noites.

Por Claus P. Neto

Hiperbórea II (ATON)

Hiperbórea

parte II

     -Desculpe-nos pelo frio, mas nos andares abaixo há os geradores de energia. Por segurança mantivemos este nível sem instalações de aquecimento, assim podemos inundar aqui caso haja risco de explosões, sem comprometer a estrutura da base – seguiu explicando a tradutora, como se repetisse um discurso padrão.

     Entraram em um elevador. Após alguns minutos de subida, as paredes de concreto e aço tornaram-se de vidro e puderam ter uma ampla visão do instituto tecnológico que os cercava.

     -Minerva é a divisão secreta da G.S.S., com uma única missão: manter a verdadeira ordem mundial – enquanto elava falava passavam por dois, três, quatro níveis tão extensos como cidades inteiras, com dezenas de máquinas, computadores, processadores, prédios inteiros feitos de cabos, placas, transitors, etc..

     -Mas a G.S.S. já era uma divisão secreta… com a mesma missão… – disse o cientista a interrompendo. Quem respondeu dessa foi o Homem de farda em sua língua.

     -Mais tarde, Doutor, chegaremos logo em meu escritório – Traduziu a moça e, sem dar chance de resposta continuou sua descrição do lugar.

     – São exatos 31  léveis. Os senhores desembarcaram no 28. Do 26 ao 17 é a nossa central de processamento e armazenamento de dados. O andar 16 É ocupado pelo centro de inteligência e engenharia computacional, no qual são criadas novas tecnologias relativas a informática, possuindo esse andar seu próprio complexo industrial…

     Ela continuou descrevendo detalhadamente cada lugar pelo qual passavam: o laboratório de farmacoterápicos, o cestro de assistências humanas, o centro de desenvolvimentos alimentares, o complexo bélico, etc… Até que, finalmente, atingiram o 6º andar: Complexo residencial e financeiro.

     – Acima estão as estações de estudos climáticos, manutenção e comunicação, cujas informações no momento são restritas – finalizou a mulher. Após tanto ouvir a voz dela, o Agente 42 definiu que seu sotaque era definitivamente russo.

     O elevador cortava aproximadamente o centro de cada andar. A saída era a frente de um prédio recém pintado. Havia ruas e carros elétricos. O Homem fardado atravessou a via, abriu a porta simples de madeira, que não estava trancada e entrou. Aparentemente ali era sua casa. Havia uma escada que levava a quartos superiores, uma cozinha e uma garagem. No fundo da casa havia um quarto com uma ampla estante de livros, uma mesa modesta e um pequeno computador.

     Sentou-se em uma poltrona colonial, a russa ficou em pé, e os nossos dois protagonistas se sentaram em bancos entalhados a mão, boquiabertos com aquele enorme contraste tecnológico. Ignorando a cara de espanto o Homem fardado falou, fazendo pausas para sua tradutora o acompanhar.

     -Creio que a ONU não tenha sido inteiramente Honesta com vocês. Este lugar é uma prisão. Da qual ninguém tem a autorização de sair. Sinto, senhores, mas sua missão de uma semana se estenderá para o resto de suas vidas. Minerva é uma base militar submarina situada na região Antártica. Aqui são enviados homens, mulheres e crianças potencialmente capazes de se tornarem líderes bélicos, para que possam ser mantidos em segurança do mundo. Este lugar começou a ser construído após a II Guerra Mundial, baseado em pesquisas de rastreamento genético…

     -Isso é loucura… – o cientista estava sério, mas não elevou o tom da voz. Estavam caminhando sobre o fio de uma faca.

Apenas mais linhas em um rio de ideias

Boas tardes a todos. Tentarei ser breve e escrever o que puder aqui. Admito que escrevo sem ter a mínima ideia do que estou fazendo. Não tenho nenhuma inspiração. Não tenho nenhum roteiro. Não tenho nada. Em circunstâncias normais, minha preguiça teria levado a melhor e me deixado sem escrever, mas não estou sob circunstâncias particularmente normais, ao menos não sob a ótica de pessoas ‘normais’. Portanto, mãos (ou antes, coração, mente e tripas) à obra. Este recado é apenas de um autor que se preocupa com seus próprios erros, e pede que seus leitores sejam mais pacientes que ele mesmo.

A coisa que mais me assombra é uma folha de papel em branco. Ou no meu caso, uma tela brnca piscando no monitor. A linha vertical pisca a intervalos regulares e você sabe que alguma coisa pode sair daquela linha piscante. Um sucesso comercial. Um tratado diplomático. Uma obra prima digna das musas. Ou absolutamente nada. E é isso o que assusta. O absolutamente nada. Não há nada mais desesperador do que se sentar para criar algo e nada genuinamente bom consegue sair de você. Pelo menos para mim, a frustração de não conseguir fazer algo que, se eu lesse, ouvisse ou assistisse de um terceiro geraria em mim admiração e respeito, é no mínimo assustadora. Sou uma espécie de perfeccionista. E é por isso que a folha em branco é assustadora. Eu posso ver nela todo o potencial, toda a força, todas as ideias fluido, só esperando para serem pescadas. E tenho medo que, quando eu chegar perto, elas vão fugir de minha presença, deixando-me com as mãos vazias e o coração pesado. Mas descobri que o medo (ou o fracasso) é, de certa forma o meu preço por escrever. Se ainda não fiz algo que em mim mesmo gere aprovação, é porque ainda tenho que praticar, e muito. E no fim, o medo só vai me fazer ficar parado à margem da folha em branco, olhando as ideis sorrirem e acenarem para mim, sem que eu as toque. Por isso, agradeço ao Aton a oportunidade de, aqui nessas poucas linhas, testar minha coragem e entrar nesse rio de ideias. Mesmo que em várias situações eu ainda me frustre, o desfio de toda semana apresentar algo diferente e novo tem feito bem para mim. Quando eu tiver dominado a arte por completo, e tiver o fôlego e a disposição de escrever, mesmo que sejam mil livros, eu sei que as ideias estarão ali, já acostumadas à minha pessoa. E não. Elas não fugirão outra vez.

Por Claus P. Neto

Hiperbórea – parte I (ATON)

Hiperbórea

parte I

     – Você tem uma semana, entendeu? – disse um homem baixo que parecia ser uma espécie de cientista. Era careca, usava óculos redondos e tinha uma barba grisalha em forma de “V” que descia até o peito. Suas roupas estavam surradas e seu jaleco estava amarelado, manchado e corroído em centenas de lugares.
     – Certo. Mas eu ainda não sei qual é a minha missão – respondeu um outro homem mais alto. Queixo quadrado e barba feita. Camiseta preta e calça azul-escura. Sapatos também pretos. Nada de muito notável neste homem.
     – Nem nós. É uma ordem direta dos cinco, seu currículo foi selecionado por eles especialmente para isso. Tudo que eu sei é que te levaremos para Minerva e que você tem uma semana para cumprir o que for determinado.
     – Ser da G.S.S. enche o saco às vezes. Minerva… Eu pensei que fosse um mito.
     – É… melhor continuar pensando assim, a Global Secret Security já eliminou agentes por informações bem menores. Você sabe.
     – Não sei se eles realmente querem que eu saia de lá. Mas seja como for, alguém tem que sujar as mãos de vez em quando. Quanto tempo falta?
     – Não sei para onde estamos indo, este helicóptero parece ser teleguiado. Não vi pilotos. Mas está esfriando bastante, devemos estar já bem acima do trópico.
     Estavam sentados nos bancos de um helicóptero que tinha aspecto militar. Podia-se ver nas paredes espaço para guardar armas e coletes. Mais próximo do teto, em um dos cantos, um monitor acendeu. Uma tela branca com uma linha preta que vibrava conforme uma voz mecânica-aveludada dizia:
     – Boa noite, senhores. O armário no fim deste corredor possui vestimentas de frio. A cabine de pilotagem foi destravada. Ainda temos problema para os controladores remotos de pouso. Pela gentileza, Agente 42, aterrisse no ponto logo abaixo. Um navio os espera.
     Vestiram-se primeiro. O homem mais alto assumiu os controles e pousou. Era uma baía deserta. Havia um acúmulo de gelo por todos os lados, exceto no preciso ponto de aterrissagem. o vento estava calmo, mas as nuvens no horizonte já indicavam que logo seria uma tempestade forte, talvez uma nevada.
     Um homem fortemente agasalhado, como se tivesse acabado de deixar uma região polar os aguardava na praia ao lado de uma lancha. Foram alguns metros mar a dentro, mas não chegou a um quilômetro. Não um navio, mas um submarino os aguardava.
Este era, finalmente, tripulado. Mas não falavam a respeito de onde estavam ou para onde iam. Apesar dos aquecedores, o frio parecia penetrar como uma faca. Demoraram um período incerto de tempo para chegarem ao seu destino: Minerva.
Até então tudo que souberam é que iriam emergir, mas ainda estariam abaixo do oceano, pois adentrariam uma base secreta submarina. Saíram e o frio era, com certeza, polar. Emergiram em uma espécie de grande piscina, ao lado de outras cinco, nas quais havia outros submarinos parados.
     Uma comitiva os esperava. Traziam ainda mais agasalhos. Um Homem fardado (esses eram extremamente raros na G.S.S.) se aproximou do agente 42 e do cientista e disse:
     – Senhores, bem vindo. Perdão meu português. Esta minha tradutora – apontou para a mulher de cabelos negros e traços eslavos no rosto – ela é confiança – disse algumas palavras em uma língua saxônica, e a mulher traduziu – Sigam-nos – havia um forte sotaque.

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes.

E eis que acaba essa pequena narrativa. Espero que gostem do resultado. Fiquei meio apreensivo de não conseguir o efeito que desejava para o conto, mas de um jeito ou de outro, ele está pronto. Desculpem a postagem longa, mas eu realmente queria acabar com ele o mais cedo o possível ao invés de ficar me estendendo muito nela, como ocorreu em outras situações. Só alertando que estarei corrigindo os pontos necessários de coerência interna do texto, especialmente a do começo, portanto não estranhem as modificações.

Boas tardes.

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

A resposta fora tão sincera e tão surpreendente que o delegado não conseguiu segurar o riso. Recuperou o controle rapidamente, esperando uma reprimenda do velho, que surpreendentemente pareceu não notar, continuando a um sinal de seu entrevistador. “Depois do perrengue, ele se acalmou. Enquanto a gente bebia, ele foi contando a sua situação, enquanto eu lhe falei a minha. Pelo menos concordamos que já que estávamos os dois na pior, não valia a pena brigar. Quando fui pagar a conta, depois de várias horas de conversa, o Luriel me abriu o sorriso desdentado e falou exatamente assim: ’Nem se preocupe, Aldemir. Por conta dos salgadinhos que você traz eu estou ganhando tanto dinheiro que pra você a cerveja é na canja! Fique sossegado’. Aquela fala me despertou então para um detalhe. Eu nunca tinha visto o bar tão cheio. Veja bem, eu só abastecia o bar (tanto que só ouvi o Luriel me falar isso naquele momento), mas eu nunca prestara atenção para o quanto se consumia lá dentro, já que eu sempre tinha alguma outra coisa na cabeça pra resolver. Mas realmente, eu me lembro de que quando eu comecei a vender para ele o bar era frequentado apenas por alguns senhores que pagavam apenas uma cerveja e ficavam a tarde inteira jogando conversa fora sem consumir mais nada. Naquela tarde, o estabelecimento estava fervilhando de gente, principalmente jovens, que como acompanhamento para a bebida só compravam os salgadinhos que eu vendia. Foi aí que eu juntei os pontos. Nenhuma marca de salgadinhos grande vendia na cidade. Assim, de certa forma, a Crispe detinha o monopólio na cidade. Só havia uma coisa: o maior estabelecimento comercial da cidade não comprava de nós. E uma ideia que poderia livrar a nós dois daquela situação surgiu. Saí correndo e alcancei o dono do supermercado justo quando ele estava prestes a tropeçar na calçada. Segurei-o, e mesmo sabendo o quanto ele estava bêbado, expus-lhe o plano. A velha raposa, ainda que ébria, rapidamente assimilou o plano, já sentindo o cheiro do dinheiro e de sua redenção, e concordou de pronto. No dia seguinte, ele apareceu na porta da Crispe e ofereceu um contrato de compra anual nossa. Mesmo com o repúdio público do comprador, a empresa andava mal das pernas (especialmente após eu perder um bom cliente), e a proposta era muito boa. Os detalhes do acordo foram fechados no mesmo dia. Mas teve um porém. O proprietário do Super Bom Mart tinha acordado comigo que, em troca do contrato de venda, ele me recomendaria como o mentor do negócio, de forma que eu pudesse ter o emprego de volta. Você já imagina que isso não aconteceu, naturalmente. Até hoje não sei o que levou o velho mesquinho a fazer isso, e honestamente nunca cheguei a me importar.

“O fato é que em dois meses, o público jovem, atraído pela novidade no grande mercado, fez os lucros do estabelecimento triplicarem. Como nenhum deles dava a mínima para a vida pessoal de seu proprietário, compravam sem a mesma reprimenda das velhas fofoqueiras que boicotaram o mercado à época do incidente. A Crispe também cresceu. Foi inaugurada uma nova linha de produtos bem como todo um novo galpão industrial. Mas a minha situação prosseguiu a mesma. Meu seguro desemprego já estava no fim, e para afogar as mágoas, eu comecei a frequentar o Luriel mais frequentemente. E foi numa dessas idas que a minha sorte virou.

“Aconteceu que um dia um dos novos funcionários da parte de entregas da Crispe chegou com os amigos para curtir o começo do fim de semana. Eu já estava lá desde o período da manhã, então você pode ter uma ideia de meu estado. Nisso, o rapaz me reconheceu da briga de alguns meses atrás. Acontece que com a ampliação do porte da empresa, a Crispe teve que contratar mais funcionários dentre o público jovem, que anteriormente ficavam de bobeira no bar o dia inteiro. Assim, o rapaz, por gozação, resolveu insultar comigo sobre aquele assunto. Eu já estava bêbado. Amargurado. Não tinha nada a perder. Aquele jovem ocupando um cargo que havia sido meu vir me humilhar já era a gota d’água. Levantei-me calmamente, já pronto para arrumar outra briga quando o Luriel, percebendo o que ia ocorrer, interferiu e me obrigou a sentar, depois chamando o rapaz para o canto, provavelmente convidando-o a se retirar. Pelo menos, foi isso o que eu supus, pois em questão de minutos ele pagou a sua conta e foi embora, deixando a sua mesa de amigos. Depois de alguns dias, recebi um telefonema do departamento de RH da Crispe. Eles apontaram o quanto havia sido uma decisão errada ter me demitido sumariamente da maneira que fizeram, e que queriam um funcionário com a minha experiência para ser gerente da área de distribuição. Desnecessário dizer que eu aceitei. Em alguns dias, já voltava ao serviço, minha mulher voltara e minha situação se estabilizou. Só depois de algum tempo é que descobri que o Luriel havia explicado a minha situação ao moço, apontando ainda que fora minha a ideia que o levara a ser contratado. Por consciência pesada, ele levou esse caso à diretoria, que após apurar a veracidade do caso, resolveu me restituir o emprego e a dignidade. “Nunca vou poder agradecer o Luriel o suficiente”. O delegado então repirou fundo, controlando a sua irritação. “Muito bom, senhor Aldemir. Mas nada disso, exceto a sua rixa com o dono do mercado, explica a razão de você ter cometido o atentado. Se você veio aqui apenas para gastar meu tempo com alguma historinha, eu vou algemá-lo por obstrução da justiça”. O velho nem se abalou com a ameaça. “É como eu disse, senhor delegado. Quando a gente envelhece, fica mais emotivo. Sem a minha velha, não tenho muita gente com quem conversar, então às vezes eu acabo exagerando na dose. Mas você vai ver senhor delegado, que tudo isso vai ajudar a entender o que aconteceu”. O delegado suspirou de novo e respondeu de modo um tanto ríspido: “Então seja breve e fale o que aconteceu”. O velho deu de ombros. “Nada de mais. Um dia, fazendo minhas compras regulares no mercado, houve um problema com o meu cartão de crédito. Insisti que não havia nenhuma irregularidade e a moça do caixa saiu para averiguar. Duas horas depois de ela me deixar plantado ali, resolvi sair para tirar satisfação com ela e descobri que nesse meio tempo a preguiçosa ficou batendo papo com um rapaz do setor de empacotamento. Se você prestou atenção à minha história anterior, acho que sabe o quanto eu odeio que me deixem esperando à toa. A resposta da moça quando fui reclamar foi a gota d’água: ‘Fique calmo aí, vovô! Nossa, velho grosso, e eu pensando que aposentado tinha todo o tempo do mundo’. Ela e o rapaz riram deliberadamente. Ambos eram uns mimados que só trabalhavam por coerção dos pais ricos, mas pra mim esse detalhe não importava. Depois de algum tempo na Crispe, fui promovido a diretor de estoque. Assim, foi fácil convencer o nosso fornecedor a nos vender hidrogênio, para uma suposta nova linha de produtos. Depois, sob o pretexto de que tinha serviço a fazer, fiquei até tarde da noite colocando o gás explosivo nos tanques de nitrogênio. Assim, quando retornaram os tanques de hidrogênio, eles já estavam vazios. Eu ainda fiz com que as embalagens recebessem um jato mais grosso de tinta e coloquei pesos escondidos nos pacotes, de modo que seria mais difícil perceberem a diferença de peso. Eu já sabia que o zelador do lugar tinha o hábito de roubar alguns salgadinhos escondido durante o seu turno, além de fumar como uma chaminé. Seria só uma questão de tempo até a coisa toda explodir. Eu mesmo fiz a entrega, e ninguém percebeu até agora. Se você fizer alguma investigação no assunto, verá que falo a verdade”. O oficial ainda não se dera por vencido. “Mas o seu motivo é completamente estúpido! Não tem praticamente nenhuma relação entre você ser mal atendido e explodir o estabelecimento”. O velho retribuiu o olhar, os olhos brilhando: “E daí? Você com certeza já viu matarem por bem menos que isso. Não seria o primeiro caso de um psicopata ou incendiário que perde o controle. A questão não é que o meu motivo é fraco, apenas que ele é suficiente para eu ter feito uma coisa dessas”.

O oficial o encarou longamente. Não acreditava na história. Havia vários pontos que não se encaixavam de jeito nenhum, e ele não podia acreditar numa causa tão absurda. No entanto, ele sabia que talvez não adiantasse discutir. Prenderia o homem por algum tempo antes de os resultados da perícia e os mandatos chegassem. Depois poderia fazer um interrogatório mais decente e extrair a verdade. De um modo ou de outro, ele precisava de um bode expiatório para acalmar os ânimos da população, e ele se voluntariara. Assim, resolveu entrar no jogo e enrolar o velho só méis um pouco antes de prendê-lo. “E então é isso?”, perguntou. “E então é isso. Essa é a história toda”, concluiu o velho. O delegado olhou para o suspeito, com a incredulidade ainda estampada na cara, apesar do esforço. O suspeito pareceu perceber. “Você não acredita em nada disso, não é?”. Na mosca. “Não, não acredito”, replicou o oficial da lei, “Não que o relato seja absurdo, muito pelo contrário. É totalmente plausível, e até agora foi o que melhor explicou tudo o que aconteceu”. “Então por que não acredita?”, provocou o interrogado, com uma expressão faceira na cara velha, como se estivesse ansiando por contar o fim de uma piada particularmente engraçada. O delegado ficou ainda mais irritado com aquela expressão, mas conteve-se, e respondeu em tom calmo: “Porque ainda está faltando um ponto importante”. Fez uma pequena pausa e olhou nos olhos do velho à sua frente. “Por que você se entregou?”. O suspeito abriu um largo sorriso. Finalmente poderia contar o final da piada.

O delegado havia feito a pergunta apenas para enrolar um pouco mais o senhor de idade, mas aparentemente o funcionário da Crispe viu isso como uma deixa esperada há muito tempo. “19/06/1995”. Respondeu o velho. “Como?”, perguntou o delegado confuso. O velho pareceu se irritar ligeiramente. “Como assim senhor delegado? Então não se lembra?”. O oficial tentou se lembrar, mas não conseguia. Vendo isso, o senhor continuou “Esse foi o dia em que eu vim aqui prestar queixa de um roubo, senhor delegado. O senhor era recém-empossado no cargo no lugar do Jurandir. Mas não só roubo. Latrocínio. Foi o dia em que a minha velha foi esfaqueada sem piedade só porque se recusou a entregar a caixa de joias de sua mãe, a última lembrança dela da minha finada sogra. Eu fiquei aqui durante horas enquanto você deixava o maldito escapar, só pra depois de dias me avisar que não era possível mais pegá-lo”. O delegado então se lembrou. O crime tinha sido cometido por um forasteiro até onde as evidências indicavam. O carro em que o suspeito havia sido visto era roubado, e havia sido abandonado em uma cidade distante dali. O sujeito simplesmente desaparecera, e não havia nada que ele pudesse fazer, já que não havia testemunhas que pudessem descrever o assassino. A demora foi por conta de um detalhe da burocracia, e ele só chegou a saber qual era o carro quando este já estava bem longe. Ele sentiu a ameaça suspensa no ar, sustentada pelo olhar faiscante do velho e pelo seu sorriso de canto de boca. “Eu gastei boa parte do meu dinheiro tentando achar o desgraçado, mas nunca tive resultados. Mas eu não me esqueci do senhor”. Instintivamente, o delegado tentou se justificar, mas o olhar do homem sentado à sua frente era tão intenso que ele não encontrou a coragem para falar. “E sabe o que é mais curioso, delegado? Um dos poucos detalhes que eu percebi em minha visita aqui foi o Jair afanando um dos salgadinhos que eu deixei no balcão. Ele ainda fuma, não é?”. O delegado então ligou os pontos. Saiu correndo para fora, mas assim que tocou a maçaneta, a delegacia explodiu.

Fim.

Por Claus P. Neto