Da amizade

Boas tardes. Alguns incidentes comigo e com Aton promoveram esse hiato entre as publicações, que se estende fazem duas semanas. De minha parte, peço perdão (novamente), embora as circunstâncias tenham sido extraordinárias de fato. Mas enfim, ao texto!

Boas tardes.

Eventos recentes me deixaram inclinado a escrever sobre amizade. Sim, clichê e dramático. Mas acontece que escrevo o que sinto. Preciso disso para fazer meu trabalho com gosto. E acontece que nessas últimas semanas, situações singulares ocorreram entre eu e pessoas de minha amizade. Briguei com umas. Reconciliei-me com outras. Encontrei velhos amigos que há tempos não via e vi amigos próximos se afastarem paulatinamente. Eventos normais na vida de uma pessoa, sem dúvida, mas o fato de que isso me ocorreu em um intervalo de tempo tão curto me colocou a refletir. O que se perde (se é que se perde)? O que se ganha (se é que se ganha)? Foi esse o tipo de pensamento que girou na cabeça desse autor recentemente. Daí minha necessidade de escrever nisso. Espero sua compreensão quanto ao clichê. Nesse caso, ele é um mal necessário, pelo menos para mim.

Muito se escreveu já sobre o assunto. Não tanto quanto sobre o amor (ou o que se pensa dele, já que a maior parte das descrições corresponde à paixão), mas ainda assim, é uma relação humana tão primordial que é quase impossível ser original sobre ela. O que posso dizer é a minha ótica, a minha experiência, que não é muito extensa, devo admitir. Mas se faz necessário, se faz necessário… Comecemos. Um amigo vale mais pelo quanto você chora com ele do que o quanto você ri com ele. É importante compartilhar a alegria, o riso, ou ele perde boa parte do seu valor, mas o pranto é algo íntimo, secreto. Ter alguém com quem repartir dor é de maior valor do que ter alguém com quem repartir um sorriso. Amigos para o riso, creia em mim, não serão tão raros em sua vida, nem tão caros. É fácil compartilhar sua alegria com alguém, mas suas lágrimas? Não. Não suas lágrimas. Não confunda o que acabo de colocar com chorar por um amigo. Apesar de valioso, é inevitável. Nunca vi uma relação próxima entre duas pessoas que não machucasse de vez em quando.

Aliás, outra coisa que ouvi e que procurei guardar sobre o tema: é possível avaliar uma amizade por seus altos e baixos. Não brinquei quando afirmei que é inevitável machucar-se ao se aproximar de alguém. Mas é evitável voltar a se aproximar. É preciso força para fazer as pazes e voltar do ponto onde tudo parou. Não afirmo aqui que amigos necessariamente vivem em guerra entre si e sempre dão a volta por cima (embora se ouça falar de coisas assim). Afirmo que a amizade, apesar de bálsamo, é também desafio. Em certo ponto, vai doer. É necessário altruísmo, sacrifício, caráter para suportar tudo. Como tudo na vida, tem um preço e como tudo de bom na vida, o preço é alto. O que se deve lembrar é que vale a pena pagar, mas isso só você pode decidir.

Amizade afasta o peso da solidão. Traz luz a uma alma escura. Faz você respirar melhor. Faz você viver mais e com mais saúde, se não de corpo, de alma. É possivelmente (e tenho fé nisso) a chave da própria sobrevivência humana. É amor em si mesma. Não paixão (antes que os caros leitores me interpretem errado), amor, na sua mais pura definição: “(…) é paciente, é benigno. Não inveja, nem se vangloria, nem se ensoberbece. Não se porta incovenientemente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita o mal. Não se alegra na injustiça, mas tem gozo na verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta“.

Nessas linhas, sou obrigado a olhar para mim mesmo e encarar a realidade que, em vários aspectos, não tenho sido um amigo bom. Embora eu possa enumerar infinitas desculpas para esse meu comportamento, no fim, tenho somente a mim mesmo para culpar. Espero mudar a tempo. Aliás, espero mudar. Mas a você, caro leitor, uma pequena nota: seja o amigo que você gostaria de ter ao seu lado. Cultive suas amizades, regue, adube regularmente. Resguarde-se do exagero, mas esteja sempre disponível. Não tenha medo de se abrir com quem você sabe que tem amizade genuína. Não tenha medo de escutar. Aprenda com o outro, mas mais importante: aprenda com você mesmo. Espero que você, caro leitor, encontre um amigo genuíno, se é que já não o achou. Eu sei que achei alguns. Espero que eles tenham achado um em mim mesmo.

 

Por Claus P. Neto

 

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Um pequeno (grande) desabafo_-_por Claus P. Neto

Boas noites. Como semana passada, tentarei ser breve aqui. Há, entretanto, uma singular diferença dessa semana para a anterior: eu tenho algo sobre o que falar. O atraso do texto foi produto de circunstâncias externas (que deram a este humilde autor uma ótima desculpa). Na verdade, eu nem queria escrever sobre o assunto a seguir, por achar que em boa parte ele já virou notícia velha, mas de novo, circunstâncias (as quais eu acredito que ficarão melhor ocultas) contribuíram para esse desabafo. Faz bem pouco tempo, um vídeo de um assalto que terminou mal para o meliante virou a nova febre da internet brasileira. Nesse ínterim, foi notável ver como a opinião pública se dividiu a respeito do acontecido. Até onde eu pude acompanhar, a maior parte das pessoas achou, no mínimo, justa a ação policial que resultou na internação do assaltante. E sabe o quê? Concordo. Aliás, vou colocar aqui um parênteses, antes de continuar. Por princípio, defendo que toda vida tem um valor sagrado. Em hipótese alguma creio que teria sido bem feito se o ladrão morresse em decorrência dos tiros. Aliás, creio que mesmo os que mais ardentemente deixaram claro nas redes sociais o seu desprezo pelo infrator não teriam coragem de vê-lo perecer (quem dirá puxar eles mesmos o gatilho). O que toda essa situção trouxe à tona, é que o Brasil, em termos de segurança pública, está virando um verdadeiro pesadelo. É incrível como de uns tempos para cá trocamos o temor de, nos anos de chumbo, ser arrastados por nossas convicções políticas e passamos  ter pavor de ser abordado na rua. Até hoje, tenho um medo violento de usar meu celular (um aparelho semi-paleolítico que possui apenas as opções chamada, mensagem, calculadora e calendário) na rua. E porquê? Porque hoje, isso é comum. E o que é pior. Não há justiça. Cheguei ao cúmulo de ouvir de oficiais da PM detalhes de criminosos como apelidos, descrição física e até mesmo de vida pessoal dado ao grande número de vezes em que foram presos…e soltos logo em seguida. Há tanta violência nas ruas, e tãos poucos os casos em que se cumpre algo próximo do justo, que praticamente não há reação mais natural do que aplaudir um policial que, em um caso raro, conseguiu impedir que um vagabundo covarde tomasse o que era de outra pessoa só pelo fato de possuir uma arma de fogo. E antes que algum indivíduo tente advogar pelo referido covarde, já deixo claro aqui: se você acredita que violência vem pela falta de oportunidades, convido-o a pegar o computador, notebook, tablet ou smartphone de onde você lê esse texto e doá-lo gentilmente ao primeiro assaltante sem oportunidade que cruzar seu caminho, de modo que pelo menos com o dinheiro da venda ele tenha “uma oportunidade igual à sua”. Meu amigo, criminalidade ou pobreza não advém de oportunidade ou sua falta. A síndrome do coitadinho não vai ajudar ninguém a sair do buraco de lama em que ele está enfiado ou de impedir que ele tome por força covarde o que é, por direito, de outro: um celular, dinheiro, um ente querido ou sua própria vida. O fato é: aplaudimos demonstrações de justiça feita porque, no dia-a-dia, convivemos com uma realidade deprimente de crime impune. Todos gostaríamos que, em um momento como o que passou o motorista da moto, tivéssemos um PM disposto a intervir em nossa causa. Todos nós gostaríamos de poder andar nas ruas em paz. De sair de casa sabendo que, quando voltarmos, ela estará inteira. Ou então que, mesmo que quaisquer destas coisas ocorresse, fôssemos justiçados por um governo que em tese, tem o dever de nos proteger. E enquanto isso, esse mesmo estado passa a mão na cabeça daqueles que nos põe sob o signo do medo: tanto aqueles que nos abordam na rua com armas à mão, quanto aqueles que, de terno e gravata, sugam vorazmente o dinheiro de nosso hospital, de nossa escola, de nossa segurança, de nossas vidas, e ainda legislam contra aqueles que, com coragem, tentam fazer cumprir algum tipo de justiça. Gostaria que nessas duas esferas, eupudesse viver tranquilo. Mas tudo não passa de um sonho distante, que some faceiro e diáfano diante de meus olhos assim que eu acordo.

Boas noites.

Por Claus P. Neto

Apenas mais linhas em um rio de ideias

Boas tardes a todos. Tentarei ser breve e escrever o que puder aqui. Admito que escrevo sem ter a mínima ideia do que estou fazendo. Não tenho nenhuma inspiração. Não tenho nenhum roteiro. Não tenho nada. Em circunstâncias normais, minha preguiça teria levado a melhor e me deixado sem escrever, mas não estou sob circunstâncias particularmente normais, ao menos não sob a ótica de pessoas ‘normais’. Portanto, mãos (ou antes, coração, mente e tripas) à obra. Este recado é apenas de um autor que se preocupa com seus próprios erros, e pede que seus leitores sejam mais pacientes que ele mesmo.

A coisa que mais me assombra é uma folha de papel em branco. Ou no meu caso, uma tela brnca piscando no monitor. A linha vertical pisca a intervalos regulares e você sabe que alguma coisa pode sair daquela linha piscante. Um sucesso comercial. Um tratado diplomático. Uma obra prima digna das musas. Ou absolutamente nada. E é isso o que assusta. O absolutamente nada. Não há nada mais desesperador do que se sentar para criar algo e nada genuinamente bom consegue sair de você. Pelo menos para mim, a frustração de não conseguir fazer algo que, se eu lesse, ouvisse ou assistisse de um terceiro geraria em mim admiração e respeito, é no mínimo assustadora. Sou uma espécie de perfeccionista. E é por isso que a folha em branco é assustadora. Eu posso ver nela todo o potencial, toda a força, todas as ideias fluido, só esperando para serem pescadas. E tenho medo que, quando eu chegar perto, elas vão fugir de minha presença, deixando-me com as mãos vazias e o coração pesado. Mas descobri que o medo (ou o fracasso) é, de certa forma o meu preço por escrever. Se ainda não fiz algo que em mim mesmo gere aprovação, é porque ainda tenho que praticar, e muito. E no fim, o medo só vai me fazer ficar parado à margem da folha em branco, olhando as ideis sorrirem e acenarem para mim, sem que eu as toque. Por isso, agradeço ao Aton a oportunidade de, aqui nessas poucas linhas, testar minha coragem e entrar nesse rio de ideias. Mesmo que em várias situações eu ainda me frustre, o desfio de toda semana apresentar algo diferente e novo tem feito bem para mim. Quando eu tiver dominado a arte por completo, e tiver o fôlego e a disposição de escrever, mesmo que sejam mil livros, eu sei que as ideias estarão ali, já acostumadas à minha pessoa. E não. Elas não fugirão outra vez.

Por Claus P. Neto

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes.

E eis que acaba essa pequena narrativa. Espero que gostem do resultado. Fiquei meio apreensivo de não conseguir o efeito que desejava para o conto, mas de um jeito ou de outro, ele está pronto. Desculpem a postagem longa, mas eu realmente queria acabar com ele o mais cedo o possível ao invés de ficar me estendendo muito nela, como ocorreu em outras situações. Só alertando que estarei corrigindo os pontos necessários de coerência interna do texto, especialmente a do começo, portanto não estranhem as modificações.

Boas tardes.

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

A resposta fora tão sincera e tão surpreendente que o delegado não conseguiu segurar o riso. Recuperou o controle rapidamente, esperando uma reprimenda do velho, que surpreendentemente pareceu não notar, continuando a um sinal de seu entrevistador. “Depois do perrengue, ele se acalmou. Enquanto a gente bebia, ele foi contando a sua situação, enquanto eu lhe falei a minha. Pelo menos concordamos que já que estávamos os dois na pior, não valia a pena brigar. Quando fui pagar a conta, depois de várias horas de conversa, o Luriel me abriu o sorriso desdentado e falou exatamente assim: ’Nem se preocupe, Aldemir. Por conta dos salgadinhos que você traz eu estou ganhando tanto dinheiro que pra você a cerveja é na canja! Fique sossegado’. Aquela fala me despertou então para um detalhe. Eu nunca tinha visto o bar tão cheio. Veja bem, eu só abastecia o bar (tanto que só ouvi o Luriel me falar isso naquele momento), mas eu nunca prestara atenção para o quanto se consumia lá dentro, já que eu sempre tinha alguma outra coisa na cabeça pra resolver. Mas realmente, eu me lembro de que quando eu comecei a vender para ele o bar era frequentado apenas por alguns senhores que pagavam apenas uma cerveja e ficavam a tarde inteira jogando conversa fora sem consumir mais nada. Naquela tarde, o estabelecimento estava fervilhando de gente, principalmente jovens, que como acompanhamento para a bebida só compravam os salgadinhos que eu vendia. Foi aí que eu juntei os pontos. Nenhuma marca de salgadinhos grande vendia na cidade. Assim, de certa forma, a Crispe detinha o monopólio na cidade. Só havia uma coisa: o maior estabelecimento comercial da cidade não comprava de nós. E uma ideia que poderia livrar a nós dois daquela situação surgiu. Saí correndo e alcancei o dono do supermercado justo quando ele estava prestes a tropeçar na calçada. Segurei-o, e mesmo sabendo o quanto ele estava bêbado, expus-lhe o plano. A velha raposa, ainda que ébria, rapidamente assimilou o plano, já sentindo o cheiro do dinheiro e de sua redenção, e concordou de pronto. No dia seguinte, ele apareceu na porta da Crispe e ofereceu um contrato de compra anual nossa. Mesmo com o repúdio público do comprador, a empresa andava mal das pernas (especialmente após eu perder um bom cliente), e a proposta era muito boa. Os detalhes do acordo foram fechados no mesmo dia. Mas teve um porém. O proprietário do Super Bom Mart tinha acordado comigo que, em troca do contrato de venda, ele me recomendaria como o mentor do negócio, de forma que eu pudesse ter o emprego de volta. Você já imagina que isso não aconteceu, naturalmente. Até hoje não sei o que levou o velho mesquinho a fazer isso, e honestamente nunca cheguei a me importar.

“O fato é que em dois meses, o público jovem, atraído pela novidade no grande mercado, fez os lucros do estabelecimento triplicarem. Como nenhum deles dava a mínima para a vida pessoal de seu proprietário, compravam sem a mesma reprimenda das velhas fofoqueiras que boicotaram o mercado à época do incidente. A Crispe também cresceu. Foi inaugurada uma nova linha de produtos bem como todo um novo galpão industrial. Mas a minha situação prosseguiu a mesma. Meu seguro desemprego já estava no fim, e para afogar as mágoas, eu comecei a frequentar o Luriel mais frequentemente. E foi numa dessas idas que a minha sorte virou.

“Aconteceu que um dia um dos novos funcionários da parte de entregas da Crispe chegou com os amigos para curtir o começo do fim de semana. Eu já estava lá desde o período da manhã, então você pode ter uma ideia de meu estado. Nisso, o rapaz me reconheceu da briga de alguns meses atrás. Acontece que com a ampliação do porte da empresa, a Crispe teve que contratar mais funcionários dentre o público jovem, que anteriormente ficavam de bobeira no bar o dia inteiro. Assim, o rapaz, por gozação, resolveu insultar comigo sobre aquele assunto. Eu já estava bêbado. Amargurado. Não tinha nada a perder. Aquele jovem ocupando um cargo que havia sido meu vir me humilhar já era a gota d’água. Levantei-me calmamente, já pronto para arrumar outra briga quando o Luriel, percebendo o que ia ocorrer, interferiu e me obrigou a sentar, depois chamando o rapaz para o canto, provavelmente convidando-o a se retirar. Pelo menos, foi isso o que eu supus, pois em questão de minutos ele pagou a sua conta e foi embora, deixando a sua mesa de amigos. Depois de alguns dias, recebi um telefonema do departamento de RH da Crispe. Eles apontaram o quanto havia sido uma decisão errada ter me demitido sumariamente da maneira que fizeram, e que queriam um funcionário com a minha experiência para ser gerente da área de distribuição. Desnecessário dizer que eu aceitei. Em alguns dias, já voltava ao serviço, minha mulher voltara e minha situação se estabilizou. Só depois de algum tempo é que descobri que o Luriel havia explicado a minha situação ao moço, apontando ainda que fora minha a ideia que o levara a ser contratado. Por consciência pesada, ele levou esse caso à diretoria, que após apurar a veracidade do caso, resolveu me restituir o emprego e a dignidade. “Nunca vou poder agradecer o Luriel o suficiente”. O delegado então repirou fundo, controlando a sua irritação. “Muito bom, senhor Aldemir. Mas nada disso, exceto a sua rixa com o dono do mercado, explica a razão de você ter cometido o atentado. Se você veio aqui apenas para gastar meu tempo com alguma historinha, eu vou algemá-lo por obstrução da justiça”. O velho nem se abalou com a ameaça. “É como eu disse, senhor delegado. Quando a gente envelhece, fica mais emotivo. Sem a minha velha, não tenho muita gente com quem conversar, então às vezes eu acabo exagerando na dose. Mas você vai ver senhor delegado, que tudo isso vai ajudar a entender o que aconteceu”. O delegado suspirou de novo e respondeu de modo um tanto ríspido: “Então seja breve e fale o que aconteceu”. O velho deu de ombros. “Nada de mais. Um dia, fazendo minhas compras regulares no mercado, houve um problema com o meu cartão de crédito. Insisti que não havia nenhuma irregularidade e a moça do caixa saiu para averiguar. Duas horas depois de ela me deixar plantado ali, resolvi sair para tirar satisfação com ela e descobri que nesse meio tempo a preguiçosa ficou batendo papo com um rapaz do setor de empacotamento. Se você prestou atenção à minha história anterior, acho que sabe o quanto eu odeio que me deixem esperando à toa. A resposta da moça quando fui reclamar foi a gota d’água: ‘Fique calmo aí, vovô! Nossa, velho grosso, e eu pensando que aposentado tinha todo o tempo do mundo’. Ela e o rapaz riram deliberadamente. Ambos eram uns mimados que só trabalhavam por coerção dos pais ricos, mas pra mim esse detalhe não importava. Depois de algum tempo na Crispe, fui promovido a diretor de estoque. Assim, foi fácil convencer o nosso fornecedor a nos vender hidrogênio, para uma suposta nova linha de produtos. Depois, sob o pretexto de que tinha serviço a fazer, fiquei até tarde da noite colocando o gás explosivo nos tanques de nitrogênio. Assim, quando retornaram os tanques de hidrogênio, eles já estavam vazios. Eu ainda fiz com que as embalagens recebessem um jato mais grosso de tinta e coloquei pesos escondidos nos pacotes, de modo que seria mais difícil perceberem a diferença de peso. Eu já sabia que o zelador do lugar tinha o hábito de roubar alguns salgadinhos escondido durante o seu turno, além de fumar como uma chaminé. Seria só uma questão de tempo até a coisa toda explodir. Eu mesmo fiz a entrega, e ninguém percebeu até agora. Se você fizer alguma investigação no assunto, verá que falo a verdade”. O oficial ainda não se dera por vencido. “Mas o seu motivo é completamente estúpido! Não tem praticamente nenhuma relação entre você ser mal atendido e explodir o estabelecimento”. O velho retribuiu o olhar, os olhos brilhando: “E daí? Você com certeza já viu matarem por bem menos que isso. Não seria o primeiro caso de um psicopata ou incendiário que perde o controle. A questão não é que o meu motivo é fraco, apenas que ele é suficiente para eu ter feito uma coisa dessas”.

O oficial o encarou longamente. Não acreditava na história. Havia vários pontos que não se encaixavam de jeito nenhum, e ele não podia acreditar numa causa tão absurda. No entanto, ele sabia que talvez não adiantasse discutir. Prenderia o homem por algum tempo antes de os resultados da perícia e os mandatos chegassem. Depois poderia fazer um interrogatório mais decente e extrair a verdade. De um modo ou de outro, ele precisava de um bode expiatório para acalmar os ânimos da população, e ele se voluntariara. Assim, resolveu entrar no jogo e enrolar o velho só méis um pouco antes de prendê-lo. “E então é isso?”, perguntou. “E então é isso. Essa é a história toda”, concluiu o velho. O delegado olhou para o suspeito, com a incredulidade ainda estampada na cara, apesar do esforço. O suspeito pareceu perceber. “Você não acredita em nada disso, não é?”. Na mosca. “Não, não acredito”, replicou o oficial da lei, “Não que o relato seja absurdo, muito pelo contrário. É totalmente plausível, e até agora foi o que melhor explicou tudo o que aconteceu”. “Então por que não acredita?”, provocou o interrogado, com uma expressão faceira na cara velha, como se estivesse ansiando por contar o fim de uma piada particularmente engraçada. O delegado ficou ainda mais irritado com aquela expressão, mas conteve-se, e respondeu em tom calmo: “Porque ainda está faltando um ponto importante”. Fez uma pequena pausa e olhou nos olhos do velho à sua frente. “Por que você se entregou?”. O suspeito abriu um largo sorriso. Finalmente poderia contar o final da piada.

O delegado havia feito a pergunta apenas para enrolar um pouco mais o senhor de idade, mas aparentemente o funcionário da Crispe viu isso como uma deixa esperada há muito tempo. “19/06/1995”. Respondeu o velho. “Como?”, perguntou o delegado confuso. O velho pareceu se irritar ligeiramente. “Como assim senhor delegado? Então não se lembra?”. O oficial tentou se lembrar, mas não conseguia. Vendo isso, o senhor continuou “Esse foi o dia em que eu vim aqui prestar queixa de um roubo, senhor delegado. O senhor era recém-empossado no cargo no lugar do Jurandir. Mas não só roubo. Latrocínio. Foi o dia em que a minha velha foi esfaqueada sem piedade só porque se recusou a entregar a caixa de joias de sua mãe, a última lembrança dela da minha finada sogra. Eu fiquei aqui durante horas enquanto você deixava o maldito escapar, só pra depois de dias me avisar que não era possível mais pegá-lo”. O delegado então se lembrou. O crime tinha sido cometido por um forasteiro até onde as evidências indicavam. O carro em que o suspeito havia sido visto era roubado, e havia sido abandonado em uma cidade distante dali. O sujeito simplesmente desaparecera, e não havia nada que ele pudesse fazer, já que não havia testemunhas que pudessem descrever o assassino. A demora foi por conta de um detalhe da burocracia, e ele só chegou a saber qual era o carro quando este já estava bem longe. Ele sentiu a ameaça suspensa no ar, sustentada pelo olhar faiscante do velho e pelo seu sorriso de canto de boca. “Eu gastei boa parte do meu dinheiro tentando achar o desgraçado, mas nunca tive resultados. Mas eu não me esqueci do senhor”. Instintivamente, o delegado tentou se justificar, mas o olhar do homem sentado à sua frente era tão intenso que ele não encontrou a coragem para falar. “E sabe o que é mais curioso, delegado? Um dos poucos detalhes que eu percebi em minha visita aqui foi o Jair afanando um dos salgadinhos que eu deixei no balcão. Ele ainda fuma, não é?”. O delegado então ligou os pontos. Saiu correndo para fora, mas assim que tocou a maçaneta, a delegacia explodiu.

Fim.

Por Claus P. Neto

Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes. Estamos chegando à conclusão dessa breve história. Com alguma sorte, ela estará fechada em mais um ou dois posts. Claro que raramente a sorte me favorece, mas ainda assim, é interessante supor o melhor. De uma maneira ou de outra, boa leitura. Só vou fazer mais um apelo: por favor, estou tentando ser um narrador melhor. Recebi algumas críticas de textos antigos que me fizeram refletir o quanto eu ainda estou longe de alcançar um padrão de excelência (pelo menos como eu concebo). Assim, feedbacks que me auxiliem a escrever melhor são totalmente bem vindos.

Boas tardes.

Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

“Comecei na Crispe em 1957. Eu contava com 30 anos e já era o meu sexto emprego. Não tinha muita expectativa de subir no cargo ou de me manter na empresa por muito tempo, mas aconteceu. Na época, para o senhor ter uma ideia, a Crispe fazia comida enlatada. Só em 1986, quando o neto do dono original da fábrica assumiu, é que passamos a fazer os salgadinhos. Bom, nessa época eu já era o entregador do produto, já que era um dos poucos da cidade que sabia dirigir. E foi mais ou menos nessa época que começou a nossa história com o Super Bom Mart.” O velho fez uma pequena pausa e tossiu. “Como o senhor já sabe, o mercado já estava em atividade já fazia algum tempo, mas nunca nos contatou para vender nossos produtos, o que, considerando o caráter turrão do proprietário, não era nenhuma surpresa. Então, eu viajava muito para fora da cidade, entregando a mercadoria para mercados de cidades grandes que só queriam um salgadinho de baixo custo. Aqui na vila mesmo, só fornecíamos para duas vendas pequenas que já fecharam e para o bar do Luriel, onde até hoje eu não preciso pagar a cerveja. A patroa não gostava muito, sempre achava que eu estava indo pra farra, mas eu sou um homem de honra senhor delegado. Ainda assim, isso quase que destruiu meu casamento com Gunercindes, Deus a tenha, minha veia!”. O senhor, emocionado pela lembrança, levou um dos dedos grossos aos olhos, e sem se incomodar com a presença do delegado, de lá tirou uma brilhante e cristalina lágrima. “Desculpa senhor delegado! A gente quando envelhece dá de ficar emotivo com qualquer coisa”, disse, justificando um tanto timidamente o gesto de saudade. Inspirou fundo, acalmando-se, e continuou. “Enfim, essas minhas viagens a trabalho estavam colocando meu casamento por um triz. Eu já não sabia o que fazer. Estava na empresa há muito tempo, ganhava bem. Ia ser difícil trocar de serviço àquela altura do campeonato, mesmo com todos os filhos já criados e fora de casa. Numa dessas viagens, eu estava estressado mais do que o normal. Tinha dormido pouco, saído cedo (por volta de 04h30minh) e nem mesmo tinha tomado o meu tradicional gole de café já que minha mulher estava dormindo. Saí esbaforido. Chegando à cidade em que eu ia fazer a entrega, peguei um trânsito infernal. Mas sabe o que realmente me deixou louco, senhor delegado?”, disse Aldemir num tom já irritadiço, “Assim que cheguei ao mercado para quem fornecíamos, às 09h20minh em ponto, dez minutos antes do horário combinado, me disseram para esperar alguns minutinhos. E assim, esperei. Fiquei lá até as 20h15minh. Sem almoço, janta, nada. Mesmo reclamando 16 vezes com os funcionários do lugar, que se fizeram de sonsos e me deixaram de chá de cadeira. Descobri depois que era porque o rapaz responsável pelo estoque estava com infecção urinária. Mas não me falaram nada. Simplesmente me deixaram lá, a ver navios, sem nem mesmo ter a dignidade de me pagar um pão com mortadela. No fim, fui bater na porta do dono do lugar e joguei toda a carga do caminhão na porta da casa dele, e dirigi-lhe algumas verdades bastante rudes. Desnecessário dizer que meu emprego como entregador tinha ido pro saco. Assim , na volta, você já imagina que meu estado de espírito não era exatamente disposto. Pois bem, na entrada da cidade, logo depois do pasto do seu Ramos, tinha um bordel famoso. Fechou quando um cliente particularmente importante e vingativo contraiu gonorreia, mesmo pagando extras para não usar preservativos. Mas na época, ainda era bem frequentado. Não tanto pelos homens da cidade, que por ser pequena, abria brechas para as fofocas se espalharem rapidamente, mas isso não significava que alguns dos nossos ilustres representantes  não visitassem a casa. Naquela noite, ao passar pelo lugar, descobri que um desses ilustres representantes era ninguém menos que o proprietário do Super Bom Mart. Aconteceu que eu, já desesperado por chegar em casa tarde e já antecipando o conflito com minha esposa, estava correndo que nem um louco pela estrada. Só que nesse cenário, o dono do mercado, já completamente embriagado, saiu também correndo, segundo ouvi por conta de uma desavença com uma das ‘funcionárias’ do local. O resultado você imagina. Até hoje eu não entendo como nós dois não morremos naquele acidente. Só me lembro de que acordei no dia seguinte na Santa Casa, com o tubo de soro no braço e o dono do Super Bom Mart gritando com a enfermeira porque se sentia perfeitamente bem e queria ir logo para casa, de camisola e tudo. Aquele incidente só fez a minha vida ficar ainda pior. No dia em que voltei para casa, a carta de demissão da Crispe já estava em cima da mesa. O fato de eu ter batido o caminhão na frente de um bordel tarde da noite não só deu motivo para a demissão por justa causa como também piorou meu relacionamento com Gunercindes, que foi pra casa da mãe. Eu estava em parafuso, senhor delegado. Pensei em um monte de coisas que eu poderia fazer pra solucionar a besteira. No fim, escolhi a pior: fui ao bar. Chegando lá, encontro ninguém mais, ninguém menos que o homem com quem tinha batido alguns dias atrás. O indivíduo também estava amargurado porque o acidente revelara a sua relação com o prostíbulo e não só as vendas não paravam de cair como suas relações com o sogro, principal fonte de capital para investimento, também não andavam muito bem. “Assim, logo que me viu, ele, que já estava meio ébrio, saltou pra cima de mim”. O velho pigarreou mais um pouco, fruto do pulmão fraco, deixando soltar depois uma ligeira risada. “Juro pro senhor, delegado, nunca me senti tão apavorado quanto naquele momento. Ele estava com muito sangue nos olhos mesmo. No fim, o dono do bar teve que nos expulsar pra resolver a rixa na rua. Num dado momento da briga, ele se descontrolou e puxou um canivete. Aí, movido pelo medo de morrer, eu lutei com mais força ainda e consegui derrubá-lo com um golpe bem acertado no queixo”. O velho ficou algum tempo com um sorriso no rosto, como que apreciando a façanha, e o delegado teve que pressioná-lo a continuar. “E então foi isso? Foi por causa dessa rixa entre vocês dois que você, depois de tantos anos, resolveu se vingar e explodir seu estabelecimento?”. Aldemir saiu de seu transe e respondeu, em tom indignado. “Nada disso! Se o senhor parasse de fazer interrupções e ouvisse a história inteira, não ficaria supondo esse tipo de bobagens”. O delegado engoliu a raiva, e tentando não apontar que fora o próprio velho quem interrompera o depoimento, perguntou: “E então o que aconteceu em seguida?”. O interrogado deu de ombros e respondeu: “Eu esperei ele acordar e paguei uma cerveja pra ele”.

Atentado parte II_-_por Claus P. Neto

Boas tardes. Perdão por meu novo atraso. Mas acho que vocês já se acostumaram (já que essa semana não receb nenhum e-mail ameaçador cobrando minhas postagens regulares). De todo modo, espero que aproveitem. Estou tentando melhorar minhas habilidades narrativas, e espero que até o fim dessa estória isso se faça sentir. Também comecei um novo rito de renovo antes de escrever, o que espero que ajude a pelo menos manter o ritmo de postagens semanais (o que por conseguinte me obrigará a escrever mais, o que por sua vez deve melhorar o meu estilo). De todo modo, boa leitura.

Boas tardes.

P.S.: Percebi logo após que postei a primeira parte que cometi vários pecados de coerência externa, principalmente por não conhecer a fundo o modus operandi de nossa polícia (por exemplo, supus que a polícia civil teria um cargo sofisticado como o do detetive). Assim, corrigi a primeira parte, já costurando com essa. Portanto, quaisquer incoerências com o texto passado é fruto dessas alterações para aumentar a verossimilhança do conto. Assim, caso você perceba mais erros, por favor perdoe-os, ou melhor ainda, avise-me sobre eles para mais correções e uma história melhor ;D

P.P.S.: Só depois de postar essa publicação é que eu percebi que essa é a minha 42ª postagem! Não espero que todos entendam a minha infantil felicidade com isso, mas para os que sabem: eu os saúdo!

Atentado parte II_-_por Claus P. Neto

No fim, mesmo relutante, ele atendeu. “Alô!”. Do outro lado da linha, falou uma voz velha e rouca, ligeiramente trêmula. “Alô, delegado. O senhor provavelmente não me conhece, mas eu trabalho no setor de entregas da Crispe, principal fornecedora de salgadinhos para o Super Bom mart”. O delegado conhecia a marca. Era notoriamente conhecida por ser um dos piores salgadinhos já feitos pelo homem, mas graças a um convênio com o dono do mercado, não havia outra opção na cidade, portanto, vendia como água. “Sim, sim”, respondeu o oficial, com a paciência quase esgotada pelo velho do outro lado lhe incomodar com uma informação tão irrelevante ao invés de ir direto ao ponto, “em que posso ajudá-lo, senhor…”. “Aldemir”, respondeu a voz do outro lado do telefone, “eu estou te ligando porque graças à minha posição dentro da empresa eu tive acesso privilegiado a certas informações. E eu sei quem foi que explodiu o supermercado”. O delegado não estava muito disposto a dar ouvidos ao velho, mas mesmo assim pediu que viesse à delegacia prestar seu depoimento. Ele chegou vinte minutos depois, em um carro que nada mais era do que uma propaganda ambulante dos salgadinhos Crispe. O delegado ficou olhando pela janela enquanto o senhor de idade destruía dois carros ao tentar fazer a baliza e sair com uma sacola cheia de pacotes de salgadinhos. Depois disso, sentou-se de volta na cadeira e esperou. Vendo aquela cena ele até se lembrou de quem era o velho. Atendera um caso de roubo pra ele uma vez. Nem se recordava como o caso terminara. Estava tentando se lembrar quando a maçaneta girou e o velho entrou sala adentro.

Era baixo, curvado, com as mãos e dedos grossos. O cabelo ralo e branco se confundia com sua pele caucasiana. O único destaque dele eram os olhos, fundos e com olheiras séria, como se ele não dormisse desde os anos 60, mas ainda assim faiscantes, azuis e cheios de vida. E é claro, a sacola de salgadinhos que ele levava de um lado para o outro. A um convite do delegado ele se sentou, e já ia começar a falar quando o delegado, irritado pelo som constante dos sacos de salgadinhos, sugeriu que o senhor deixasse a sacola com Jair. Após ele sair e deixar o pacote com o escrivão (que por sinal adorava a marca) ele voltou a sentar-se. O oficial suspirou e então começou o diálogo.

“Nome completo, por favor”. “Aldemir Coriatti Fagundes Melo”. “Ano de nascimento?”. “05/02/1927”. “Endereço?”. “Rua Triveli Paiva 954”. O delegado na verdade poderia continuar indefinidamente com a burocracia, mas estava muito cansado e queria se livrar logo do velho. Assim, foi direto ao assunto: “o senhor me disse que tinha informações sobre o atentado de hoje”. “Sim, sim. Trabalho na Crispe há vários anos, sabe? Uma carreira de quase 60 anos. Já vi a companhia mudar de mãos três vezes e fui colega de escola do seu fundador. Então eu sei de muito do que acontece lá. Bom, e por conta disso, fiquei sabendo que a sabotagem ao Super Bom mart foi trabalho de um funcionário da Crispe”. “E como o senhor sabe disso exatamente?”. O velho deu um risinho baixo antes de continuar. “Conversando com um dos rapazes da manutenção eu fiquei sabendo que no meio dos tanques de nitrogênio que usamos para preencher os pacotes havia uma parcela muito pequena de tanques de hidrogênio. Na hora, acharam que era engano do fornecedor, mas como os tanques estavam cheios, nem deram atenção e deixaram para se queixar mais tarde. Só que na véspera do incidente os tanques de hidrogênio sumiram. Como ninguém sabia o que ocorrera, supuseram que o chefe devolvera-os ao fornecedor. Mas justo nesse dia, eu fiz uma entrega grande de salgadinhos para o supermercado. Creio que não é difícil juntar os pontos, não é? Tenho certeza que os resultados da perícia confirmarão que houve uma explosão por gás hidrogênio”. O delegado assentiu, mas algo no modo de falar do velho lhe chamou a atenção. “Porque quando você reportou isso você falou ‘acharam’, ‘deixaram’ ao invés de ‘achamos’ ou ‘deixamos’?”. Novamente o velho riu. “Não é óbvio delegado? Fui eu quem explodiu aquele lugar. Na verdade, eu só vim aqui para me entregar”.

O oficial quis por um momento duvidar da afirmação absurda do velho, mas a expressão dele era tão resoluta e certa que ele não questionou. Algo dentro dele lhe disse que o idoso falava a verdade. E por algum motivo ele se sentiu compelido a deixar que o senhor falasse mais. Então ele simplesmente deu mais corda. “Bom, vamos do começo. Como era o seu relacionamento com o dono do estabelecimento?”. O acusado abriu um sorriso irônico, mostrando os dentes, já em número bem reduzido. “Que bom que perguntou, delegado. Que bom mesmo”. E começou o seu relato.

Continua…

Por Claus P. Neto

Atentado parte I_-_por Claus P. Neto

Boas noites. E enfim, as narrativas voltaram, o que significa que, oficialmente, o meu bloqueio criativo ACABOU!  Tenho que comemorar, não tem jeito. Depois de semanas sem conseguir colocar nada no papel, é gratificante voltar a escrever com a mesma fluidez de antes. Antes que vocês se preocupem com outra epopeia interminável, deixo avisado que esse texto é mais curto. Planejo acabá-lo em mais um ou dois posts, então não se inquietem por conta disso (pelo menos por enquanto). De todo modo:

Boa leitura e boas noites

Atentado parte I_-_por Claus P. Neto

“E então é isso. Essa é a história toda”, concluiu o velho. O delegado olhou para o suspeito, com a incredulidade ainda estampada na cara, apesar do esforço. O suspeito pareceu perceber. “Você não acredita em nada disso, não é?”. Na mosca. “Não, não acredito”, replicou o oficial da lei, “Não que o relato seja absurdo, muito pelo contrário. É totalmente plausível, e até agora foi o que melhor explicou tudo o que aconteceu”. “Então por que não acredita?”, provocou o interrogado, com uma expressão faceira na cara velha, como se estivesse ansiando por contar o fim de uma piada particularmente engraçada. O delegado ficou ainda mais irritado com aquela expressão, mas conteve-se, e respondeu em tom calmo: “Porque ainda está faltando um ponto importante”. Fez uma pequena pausa e olhou nos olhos do velho à sua frente. “Por que você se entregou?”. O suspeito abriu um largo sorriso. Finalmente poderia contar o final da piada.

Algumas horas antes

O delegado saiu da viatura, irritado pelo incidente ter ocorrido justamente no seu plantão. “Nossa!”, pensou ao ver o estrago da cena. À sua frente, no lugar onde antes estivera o “Super Bom mart”, havia apenas uma quadra de entulho, comida enlatada, papel higiênico, dentre as várias outras coisas que eram vendidas no local. Na verdade, ele não acreditara na história quando o telefone da delegacia tocou. Vendo agora o tamanho do estrago, ele sabia que deveria ter se preparado para o pior. Ele esfregou as têmporas e soltou um murmúrio baixinho. Aquele ia ser um dia BEM longo.

Ele só cumpriu o protocolo mínimo antes de deixar as coisas nas mãos do perito e voltar à delegacia. Não tinha muito pra ver: o supermercado havia explodido; poucos feridos, já que boa parte dos escombros e artigos voara pelo estacionamento gigante que circundava o prédio; até ali, só era confirmada a morte do zelador (cuja perna tatuada serviu para identificação, já que a cabeça sumiu). O dono do estabelecimento foi chamado às pressas à delegacia para um depoimento, no qual afirmou que dormira a noite inteira e só acordou com o telefonema o chamando para lá. Agora, era esperar o laudo do perito, que provavelmente demoraria dois dias para ficar pronto (sete, dependendo de como estava o laboratório) e a autorização judicial para pegar a documentação de fiscalização do estabelecimento, só pra checar se havia alguma falha na segurança que pudesse ter detonado a explosão. Mas nenhum dos dois chegara, nem chegaria em um futuro próximo. Então não havia nada o que se fazer. O oficial se levantou e pegou mais um café, dessa vez concentrando ainda mais a quantidade de açúcar. Na verdade, já tinha uma ideia pré-formada do caso. O dono do mercado era um velho notoriamente teimoso e acima de tudo pão duro. O lugar tinha uma estrutura grande, mas que não mudava desde 1976, e em parte já estava caindo aos pedaços. Além disso, corria uma fofoca na delegacia (vinda fresquinha de um amigo seu no corpo de bombeiros) que o velho molhara a mão do fiscal pra não ter que reformar o lugar, e que isso já ocorrera quinze vezes. Com certeza o prédio teve um vazamento de gás sem que ninguém percebesse e o zelador inadvertidamente acendera um cigarro na hora errada, no lugar errado.

Ele bebericou o café devagar enquanto pensava na hipótese. Sim, era quase certeza. Havia alguns pontos soltos ainda, mas em todo caso teria que esperar os exames da perícia e os papeis, sempre os malditos papeis. Voltou à sua sala e desabou na cadeia, exausto. Também teria que esperar o parecer do juiz, pensou. Dependendo de como andava o relacionamento do magistrado com o dono do lugar, colocar que tudo fora resultado da displicência do proprietário poderia não ser uma ideia inteligente. Mas ele resolveu deixar essa questão para depois. Ele estava tão cansado…

“Jair!”, gritou, chamando o escrivão. Logo o rosto magrelo apareceu na soleira da porta. “Chamou?”. “Sim. Eu vou tirar um cochilo que ontem eu dormi mal e estou morrendo de cansaço. Atende o telefone e se alguma coisa grave acontecer, me acorda na hora”. Jair fechou a porta, e o delegado debruçou-se sobre a escrivaninha de fórmica barata. Quinze minutos depois, o escrivão entrou correndo na sala. O oficial só olhou mal-humorado para ele de relance antes de grunhir algo como: “Se is… não… impor…eu vou…”. Jair nem se importou. “Ei, deixa de mau humor que isso é importante. Acabou de ligar um cara sobre esse caso do supermercado. Eu acho que é melhor você atender”. O oficial ergueu a cabeça, ainda tombada de sono. “Por quê?”, disse num tom pouco amigável. Jair só olhou, com um sorrisinho irônico no canto da boca. “Só atenda”, disse antes de sair.

Continua…

Por Claus P. Neto