Herói_-_Por Claus P. Neto

O herói se abaixou sob a pedra, tentando ao máximo não respirar. Respirar trazia o medo pra fora. Trazia o seu cheiro pra fora. Ele ouviu o rastejar lento no ladrilho invisível para ele na escuridão. Droga, porque ele não podia enxergar? O escudo não o ajudaria em nada se ele não pudesse ver por onde andava! O rastejar ficou mais alto, ele já não sabia de onde vinha, para onde ia. Ele suava frio. Talvez fosse o suor que o estivesse traindo, deixando o cheiro de seu terror subir ao ar direto nas narinas do monstro. Nunca antes conhecera tanto medo. Nem quando enfrentara Procrusto. Ele era apenas um homem, cruel, sim, mas apenas um homem. Aos homens ele temia, mas sabia que podia ser temido por eles, e isso lhe dava força. Nem quando o grupo de deuses desceu ao seu encontro. Foi terrível. Era terrível ver que não passavam de homens, homens e mulheres com um poder que não deveria ser permitido a ninguém. Ainda assim eles o ajudaram, e parte do medo se foi. Mas ele sabia que o preço viria. O preço sempre vinha. Assim como o preço de sua mãe era o monstro. Sim…se não fosse ele, quem protegeria sua mãe das investidas de um rei cruel, da fome, da humilhação caso falhasse? Ninguém. Aliás, ele já sentira mais medo sim: quando vira o olhar cobiçoso do velho sobre a mãe dele…quando ele comissionou-o a matar essa criatura rastejante, a ameaça nas entrelinhas. Talvez fosse por isso que tinha tanto medo agora. Talvez não. Aliás, não. Ele podia fazer muito, mas não se enganar. Ele sabia que o medo o tocara com a sua mão de gelo assim que ele vira as primeiras estátuas. Não medo por sua mãe. Medo por sua vida. Ele ouviu os escombros se moverem de novo. Sempre ouvir, sempre ouvir. Nunca ver. Se ele ao menos pudesse ver o que estava enfrentando…não, não podia ver. Os deuses haviam sido bem claros. Não olhar. Como se matava um monstro cegamente? O medo apertou o seu coração mais uma vez, cada vez mais gelado. Ele não conseguiria. Não era possível. Era uma força maior que a dele. A sua vida inteira havia sido isso: respeitar quem era mais forte, enfrentar somente o que era tão forte quanto você. Aquilo era um desafio grande demais para ele. Tentou então pensar em sua mãe, seu pequeno lar, na humilhação de sua derrota e na decepção nos olhos de sua mãe ao vê-lo com vida, mas apenas porque fugira. Mas não foi suficiente. O temor ainda estava lá. O fato de os sons rastejantes se aproximarem cada vez mais não ajudava. Medo e escuridão. Era tudo o que aquele lugar tinha a oferecer. Ele se levantou, já disposto a deixar o covil, mas um sibilo soou quando ele se moveu e então ele não ousou dar mais nenhum passo. Agora era certo. Iria morrer. Não dava para fugir sem a criatura ver, nem dava para ser mais rápido que ela. Enfrentá-la? Não, não era uma opção. Deveria haver alguma outra saída… Os sons estavam cada vez mais perto da pequena rocha onde ele se escondera. Ele então deixou a respiração soltar, ao mesmo tempo em que ouvia a fera farejar o ar a sua procura. Sim, era a respiração, mais do que o suor, que denunciava o seu terror. Foi quando percebeu. Ela não o via. Tinha que cheirar, ouvir na escuridão para achá-lo. Uma ideia louca lhe ocorreu. Não uma ideia de salvação, mas talvez de uma morte digna. Talvez pudesse vê-la antes de morrer. Por que não? Pelo menos comentava-se que havia um dia sido bela… Pensou uma última vez em sua mãe, e em voz baixa, mesmo sabendo que ela não podia ouvi-lo, pediu por seu perdão pelo que ia fazer em seu desespero. Estranhamente, sentiu-se leve. Seu coração não estava mais gelado de pavor. Respirando fundo, levantou-se de seu esconderijo de supetão e encarou a fera. Realmente era bela. Seu rosto, de traços finos, não combinava em nada com as serpentes que se enroscavam em um frenesi em cima de sua cabeça, nem com os dentes, curtos mas afiados que ela mostrou ao fazer uma expressão de ira. Estava tão absorto em olhar e ver os detalhes de sua assassina que a princípio não notou como a expressão dela passou da ameaça à surpresa, e depois ao terror. Foi então que percebeu: pensava. Estava consciente. Respirava. Vivia. Olhou uma última vez para o monstro, talvez com uma certa dose de piedade, quando empunhou a espada, e dessa vez ciente de que levava a vantagem, aplicou o golpe certeiro. O sangue jorrou quando a lâmina rasgou a carne da górgona, logo abaixo do pescoço, lançando-a para trás. Era um corte fatal, ele sabia. Mas ainda tinha que fazer uma última coisa, para honrar o acordo. Quando se aproximou, ela ainda respirava. Ela olhou devagar para ele e com um resto de voz perguntou-lhe: “como? Eu senti o seu medo, assim como o de todos os outros. Como você não se petrificou, como eles, se seu medo era tão grande quanto o deles?”. Ele demorou o seu olhar nela, procurando as palavras certas. “Eu a enfrentei de frente. Fui o único que não se curvou ao medo. Fui o único que em seu desespero não fugiu, mas encarou o seu terror, mesmo que apenas para morrer”. Ela assentiu, com a dor lancinante fazendo o seu rosto e as serpentes em sua cabeça se contorcerem. “Então faça logo. Acabe com a minha maldição, de uma vez por todas”. Ele assentiu, e em um golpe seco arrancou a cabeça. Demorou ainda alguns minutos para as cobras pararem de se debater. Só então pegou a cabeça, embrulhou-a em uma pequena sacola e voltou-se para a entrada da caverna.

Fim

Por Claus P. Neto

Quem sabe uma vez – O Dragão e a Eleição

Balatumba! Convido todos a criarem uma palavra por dia, semana, mês, ano para expressar algo que nunca encontraram na nossa língua! Vamos ver em quanto tempo criamos uma língua brasileira? Aliás, vou lhes contar um segredo: ser criativo previne câncer, celulite, cauvice, impotência e ajuda o time a ganhar o jogo! Bom, a dança de hoje é o Tango! Sigam o Blog, Curtam a Fanpage, comentem e os verões serão longos e prósperos! Boa leitura

O Dragão e a Eleição

Quem sabe uma vez um Dragão governava com garras de aço. Não que as tivesse de fato, mas todos temiam seu poder… na verdade temiam seu humor e algo que não sabiam bem dizer o quê. Mas até certo ponto, o Dragão era bom: a paz mantinha-se. Acontece que o medo constante das mudanças repentinas na forma como ele se sentia desgastou a todos os outros animais. E, de repente, a fome, a injustiça, a violência, que sempre existiram, passaram a ter maior importância. “Cadê o Dragão, quando há tanta desigualdade?”; “Olha o Leão, tudo que ele nos arranca, lhe é arrancado em dobro!”; “Assim é a vida: a perna esquerda do Dragão”; “Rosas são vermelhas, violetas são azuis, como o sangue das ovelhas, como o caminho que o Dragão conduz…”

Os animais confabularam:

-Mas como derrubar alguém sem ter que lutar contra ele? Era óbvio que qualquer batalha sangrenta seria desfavorável, então como?

-Por que não eleições? Sim! Arranjamos alguém que não tenha mácula na memória dos animais e vencemos nas eleições!

-Mas só há eleições se ele concordar… Ora, quem não quer ser governante? Sim, e ninguém melhor do que nós para o aconselharmos!

-Eu quis dizer ele o Dragão!

-Shiu! não podemos usar esse nome! Eu tenho um plano: Armamos um protesto pelas eleições, mas não nos expomos. Aí aconselhamos o nosso “Lagarto” que é melhor vencer esses rebeldes na mesma moeda e que todos certamente o amam. Então vencemos e ele foge de vergonha.

– Ou nos mata.

– Ou mata o vencedor. O que seria ainda melhor, inflamaria todos contra ele e, despreparado, teria que fugir.

-E acho que sei quem pode ser o nosso escolhido: O Unicórnio

-Sim! Amanhã continuamos, parece que alguém vem aí…

Então tudo foi feito como o planejado. O protesto irritou o governante, que por semanas gritou enfezado para todos os lados “O Estado sou Eu!”, mas no fim sua vaidade cedeu quando cartas anônimas chegaram dizendo o quanto vossa graça era bom e o quanto o amavam. Porém quando o dia marcado chegou, todos, um por um, gritaram outro nome e nenhum disse “Dragão” enquanto votava. Havia vários outros candidatos, que até receberam uma quantia boa de aceitação, mas era tudo armado, disfarçado, de uma eleição feita antes mesmo da votação. O Unicórnio ganhou.

E por um tempo todos o amaram: era carismático, cobrava pouco e sempre ouvia o quê tinham a dizer. Mas enquanto tudo que nele era melhor do que o Governante anterior, o que era ruim, piorava. Não aceitava que suas ordens fossem desfeitas quando ditas. Mas suas leis eram ainda mais vaidosas e pouco faziam para assegurar a paz. Por um lado tiveram avanço nas liberdades, mas regrediram na ordem e no progresso. E isso desgastou a todos os animais… Outra vez.

MORAL: “A preocupação de mudar a forma de governo é a mais vã e frívola a que pode dedicar-se a inteligência” (Anatole France)

Quem sabe uma vez – A aranha que subiu pela parede (Aton)

Bonum noctis! NÃO ENTRE EM PÂNICO, como disse o meu guia espiritual… Por que um conto é de mentira? Por que um tanto gigantesco de filosofia se perde entre os adultos quando está tão claro em contos infantis? Este é um tema sério, então leia bem atentamente, curta nossa página do facebook, siga o blog, comente, divulgue, dance macarena e não use drogas, muito bem? Vamos então… AH! mais uma coisa, use camisinha! Agora é sério, Passarei a escrever de segundas-feiras, devido a problemas de horário. Então até dia 25. Boa leitura!

A aranha que subiu pela parede

Quem sabe uma vez a Natureza não tenha gostado de biologia e decidiu pregar uma peça através dos aracnídeos. Eis um caso de um viúvo de uma Viúva-Negra, ou pelo menos era isso que acreditava. De boa vontade ele entregaria a vida ao amor, a vida que teria passado a seus filhos, e eles aos netos. Mas naquele dia, naquela hora, chovia como se o próprio céu soubesse de toda a desgraça antes que ela acontecesse, sem que pudesse fazer nada, então se desfazia em um pranto desesperado. As aranhas foram separadas pelo vento e sem saber como ele caiu e caiu e caiu… Moravam em uma muralha.

Mas o problema não era a altura gigantesca, e sim a pedra lisa e polida que formava a parede. Isso e a chuva profética que nunca deixou de atormentá-los. O curioso disso tudo, era que todos os macho vieram para um lado e as fêmeas para o outro, todos eternamente condenados a subirem e subirem, mas caírem quando a água vinha.

Não muito tempo se passara até que alguns simplesmente desistiam, soltavam-se, jogavam-se ou paravam de comer. e por muito pouco não se extinguiu a espécie. entretanto um restou. Um que persistia, não porque era o mais forte, não porque queria ser lembrado, mas porque valia a pena. Simplesmente valia a pena saber que cada dia dava um passo a mais, mesmo que no final escorregasse e tivesse que reiniciar a mesma tarefa. Valia a penar chegar cada vez mais perto da vida.

Mas os outros faziam troça “vai esfolas as pernas até serem tocos!”, “Porque você não voa em um pássaro?”, “Se cavar um túnel chega primeiro!”, “Se perder a cabeça é tão importante, eu te ajudo!”. Fizeram até uma musiquinha, mas como ela atraía predadores e espantava presas, deixavam pra cantá-la baixinho quando ele voltava.

Mas ele não ouvia. Comia e dormia pouco, apenas para aproveitar o máximo possível das pausas que a tempestade fazia. Até que em um dia, não caiu um pingo. Subia, sem se importar com nada, nem os buracos na parede, atalhos costumavam não dar em lugar algum. Subia, as pontas de seu exoesqueleto quitinoso já estavam quebradiças e desgastadas. Subia, e nenhuma maldita troça foi lançada aquele dia. Até que as nuvens se fecharam sob seus pés e finalmente ele estava em terra plana. O som dos gritos de frustração e morte não chegavam ali. Sorriu, não como quem vence, nem como quem vinga, mas como quem vê uma pequena peça pregada pela Natureza, então seguiu em frente.

MORAL: “Os obstáculos existem por algum motivo. Não estão ali para nos impedir de entrar. Eles existem para nos dar uma chance de mostrarmos as forças de nossas aspirações” (Randy Pausch).

Aton

Quem sabe uma vez – O gigante e a formiga (Aton)

Olá! Eu ia iniciar hoje outro conto, mas eu percebi que, trabalhando com apenas dois autores, a quantidade de estilos diferentes envolvidos para gostos distintos é baixa, de forma que o melhor seria diversificar os gêneros e os assuntos o quanto possível em uma equipe reduzida. Assim, vou iniciar um “quadro” chamado quem sabe uma vez , que trará 5 fábulas para vocês (uma por semana), comentem o que acharam, curtam nossa página no face e sigam nosso blog para receber atualizações direto na sua caixa de email

O gigante e a formiga

   Quem sabe uma vez um temível gigante morava em uma montanha. Tudo ao redor dela era desprovido de vida, pois a criatura consumira ou espantara tudo e todos que podiam viver ali por perto. Porém um dia a besta acorda com uma coceira no braço e avista uma formiga andando sobre sua pele:

  -Quem?! Você irá morrer! – Bradou o gigante
  -Uma formiga qualquer. Não tenho medo de você, tenho outros problemas para resolver.
  -Eu sou o seu maior problema! – Assim, o gigante desceu sua mão em um tapa sobre a pequenina. Mas a pele calosa e rachada do gigante não chegou a tocar a formiga, que se escondia entre as fissuras dos dedos duros como pedra da colossal mão que repetidamente descia.
  -Você não pode me matar. Sou pequena demais por fora e você pequeno demais por dentro para descobrir como – O gigante bateu mais vezes, mas tudo que conseguia era machucar-se.
  -Eu quero esta montanha – Ela disse – Construirei aqui meu formigueiro, por isso desista e vá embora.
  -NUNCA!!! – O gigante se sacudiu e se debateu contra as pedras da montanha. Arranhou-se por todos os lados e quase caiu mais de uma vez. Mas quando parou, não ouviu nada, então riu um riso grutal tão alto e tão temeroso que mais parecia um rugido.
Então a criatura foi dormir em sua caverna no topo da montanha. Porém quando estava quase roncando uma coceira no nariz o despertou. Assim, de hora em hora uma nova coceira surgia e o gigante não dormia.
  -Cadê você, sua covarde! Vou arrancar sua cabeça, moer as pernas e comer o resto! – Ele lançava ameaças enquanto rolava pelo chão, batia conta as paredes, socava-se e coçava-se. Sua cabeça sangrava de uma tropeçada, seus braços e pernas roxos de pancadas e um olho inchado por ter acertado uma rocha quando rolava.
  “Não tenho medo de você” ele ouvia como um sussurro trazido pelo vento “Nunca mais irá descansar! Formigas não dormem e eu serei sua tormenta até o fim”.
  Dias se passaram nessa luta cega, até que o colosso estivesse com os olhos tão inchados de sono e de pancadas que ele enfiou os dedos no ouvido e estourou os próprios tímpanos em um ataque de loucura. Mas era tarde demais, ele alucinava. Então correu… e caiu montanha a baixo. Então a formiga tinha vencido.
Moral: “Eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura” (Fernando Pessoa)
Aton