A revolta na Caverna (Aton)

Boa noite! SIM, isto é uma referência ao mito de Platão, SIM isto é uma crítica às manifestações que ocorrem neste país. Desculpem, mas este microconto teve, essa semana, uma voz mais forte. Boa leitura!

Uma Revolta na Caverna

     Retomemos do ponto em que o filósofo foi morto. Estavam os prisioneiros em sua caverna, praticamente imóveis e assistindo sobras se projetarem na parede. Enquanto isso uma corja por de trás manipulava fantoches em frente ao fogo, enganado aqueles que estavam ali confinados. Chamemos então os primeiros de prisioneiros e os segundos de enganadores.

     A atividade de enganar não era simplesmente deleitosa aos enganadores, mas essencial a sua sobrevivência, logicamente porque, se os prisioneiros, que eram em número muito superior, soubessem de tudo, estariam todos mortos e, em segundo lugar, porque o mundo fora da caverna não sustentaria todos eles com um relativo padrão de vida elevado. Aliás, os próprios enganadores chegavam a discutir que talvez aquele mundo já nem bastasse para eles poucos.

     Acontece que, com a carga dos anos, os prisioneiros se desencantavam com o espetáculo das sombras. Então a qualidade do assento causava dores nas costas, as sombras repetiam histórias, as correntes machucavam os pulsos. Tédio. Sim, essa é a palavra perfeita. Não se podia enganar tantas pessoas por tanto tempo. Portanto o teatro começava a cansar, até que outras sensações tornavam-se mais importantes.

     E assim os velhos reclamavam, alguns jovens escutavam e reproduziam, mas nada gerava mais do que algum deboche. Até o dia que uns prisioneiros que gozavam de certa “popularidade” passaram a reclamar também. Não que de fato se sentissem incomodados, ou achassem justo que correntes, assentos e histórias melhores fossem essenciais, mas a falta de assunto com que a modernidade trouxe a caverna fez com que eles recorressem a temas como esses.

     Certamente os enganadores, sempre muito atentos aos movimentos dos presos, ouviam tudo e anotavam tudo. Passou a ser uma questão crucial a qualidade da caverna. Quanto mais confortavelmente os prisioneiros estivessem, menor a probabilidade de descobrirem o que, de fato, eram. Mas como mudar as correntes e os bancos de pedra sem serem vistos? Era necessário que eles saíssem de seus lugares e estivessem distraídos o suficiente para não perceberem a ação dos enganadores.

     Assim iniciou-se um plano digno de aplausos. As sombras passaram a falar exatamente a verdade. Tal como filósofo o fez. E, conforme ocorreu no passado, os prisioneiros se revoltaram. Levantaram de seus lugares, tiraram suas correntes e… Atacaram as sombras na parede… Esmurravam, chutavam, cabeceavam às vezes. Enquanto isso, um enganador contorcia-se na frente do fogo encenando dor, rogando pragas e dizendo a verdade, como haviam sido enganados, como a vida deles era desprezível e como um mundo inteiro existia sem qualquer ajuda deles.

     Enquanto inutilmente os presos investiam cegos contra a sombra na parede, duzias de enganadores forraram os assentos, poliram as correntes, perfumaram a caverna, pintaram as rochas. E quando esteve tudo pronto, uma segunda sombra entrou em cena “matando” a primeira, “libertando” os presos para que pudessem voltar aos seus lugares em uma caverna nova. Mudaram-se os nomes das personagens que as sombras encenavam e, assim, por muitos mais anos ninguém reclamou.

 

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O Dia que não houve dia (aton)

HAIOA! E sei que havia prometido uma crônica, mas hoje vou dar-lhes um microconto que tem arruinado minhas noites de sono nas últimas semanas. Espero que gostem. Aliás, pra quem perdeu o último post do Claus, estamos procurando escritores. Os interessados enviem um texto (qualquer gênero) para o e-mail luckpontecorreia@gmail.com Assim, boa leitura.

O Dia que não houve dia

           Um pequeno povoado formar-se a muito tempo além-mar, ainda atrás do próprio horizonte. Não era muito rico, ou vivia  de luxuosidades, mas seu habitantes tinham esse sangue denso, cujas manchas são mais difíceis de limpar e as mágoas de esquecer. Conta-se que no calhar da sorte, ou na benevolência divina, o povoado cresceu e cresceu. Não como os persas ou os romanos, mas muito além. Ali, naquele cantinho de um fim de mundo, nascia a maior civilização de todos os mundos. Aquela a qual todos devem o respeito tal como o filho com sua mãe.

           Guerras, navegação, comércio, filosofia, não havia limites para a mente e o corpo dos habitantes do povoado e, conforme conheciam outros lugares do globo, assimilavam, aprendiam, roubavam e matavam, como todos os grandes povos da nossa história. Vorazes, ambiciosos, cresciam como peste, multiplicavam-se como uma colônia de bactérias. Cada cidadão um soldado, um político, um cientista e um teólogo por si. O primeiro golpe de espada surgia junto com a primeira palavra, com o primeiro passo e o primeiro sorriso.

                 Ninguém sabe de onde veio esse sangue grosso, ferroso, mas alguns supunham que um dia o espírito da guerra desceu sobre o planeta em forma de lobo e aqui, para nossa alegria e desespero, encontrou o espírito da sabedoria sob a forma de uma coruja. Em um supremo ato de abstração teórica e ferocidade divina, os dois lutaram entre si até a morte… Se é possível que um espírito morra… Acontece que ambos morreram e, onde seus corpos jazeram nasceu uma árvore singular, que, durante toda sua vida deu um único fruto. Tal fruto teria sido comido pela família do patriarca dos habitantes do povoado. Ele espalhou esta semente sobre seus sete filhos, que tiveram netos. Estes casaram entre si e assim por diante, até que cada pessoa do povoado tivesse esse caráter lobo-coruja-fruta no sangue.

           Mas nem tudo é flores. A sorte um dia acaba, e, ao que parece, até mesmo a benevolência divina tem limites. Então, os registros dizem que uma voz Ressoou por todo o mundo. Muitos afirmam que era um deus, ou o Deus, ou ainda Os Deuses. Apesar de que outras versões diferem dizendo que era um profeta que andou gritando por todo o mundo. Mas todos sitam a seguinte passagem:

Não chegará o amanhã
E o povo que por ora fora coroado
Será, pela noite, castigado
Até que os pecados da alma vã
Embranqueçam como o Sol,
E a virtude seja, da vida, o novo farol.
           E, de fato, o Sol não voltaria a nascer. Sabemos pouco a respeito do motivo que os fez realmente acreditar nisso, ou o como o fato realmente aconteceu. Mas jaz a lenda que a anunciação foi dada no primeiro raio da manhã, de forma que uma guerra estourou durante o dia inteiro, até que o por-do-sol chegasse.
           Neste ponto as coisa ficaram realmente interessante. O a tinta rubra que corria nas veias dos habitantes do povoado escorreu pelas ruas como uma reticências exagerada que deixa um final em aberto. Conta-se que o último raio do Sol foi tão vermelho quanto um rubi. E nesse momento o desespero chegou.
           Três foram as reações relatadas.
           1- Um grande grupo saqueou as casas, as vendas, os campos, tudo, e partiu rumo ao poente, na tentativa de alcançar o Sol. Estes foram condenados a percorrer eternamente uma infinita escuridão, famintos, cansados, e imortais.
           2-Outro, vendo a traição do primeiro, trancou-se o melhor que pode em suas casas, castelos, e até cavernas. Pouco se sabe deles. A maioria concorda que estão presos até hoje como almas errantes.
           3- Por fim, um último grupo, vendo o caos, o egoísmo e a ambição dos outros, voltou-se contra a própria lógica de sobrevivência, e partiu em direção a noite. Como bravos guerreiros de espírito, e nenhuma arma ou alimento além de suas mente, avançaram pera a escuridão que tomava aquele mundo. Estes sobreviveram para ver inúmeros outros amanheceres, assim como entardeceres.

Um microconto (por Claus P. Neto)

Bom dia, noite, tarde ou o raio que o parta. Enfim, semana passada eu compartilhei um pequeno poema, então decidi hoje me voltar para a prosa. O texto é pequeno (acho que esse comentário vai ser maior que o texto), mas tenho um motivo muito nobre pra faze-los perderem o seu tempo para ver um conteúdo tão ralo: hoje começaremos também a publicar nossos textos via Facebook (http://www.facebook.com/MafiaDasLetras?ref=ts&fref=ts), o que exige um formato menor, já que praticamente ninguém tem paciência de ler posts muito longos. Prometo que será a última vez que farei isso. Como sempre, sinta-se livre para comentar o que você achou desse material medíocre.

Sobre o desprezo

Menosprezava o garoto. Xingava, diminuía, falava pelas costas, jogava pedra, jogava bosta no pobre rapaz. Mas no íntimo da moça, aqueles olhos da cor do céu, onde ela cuspia, haviam-na cativado, instantaneamente, irreversivelmnte, definitivamente.

por Claus P. Neto