Hiperbórea II (ATON)

Hiperbórea

parte II

     -Desculpe-nos pelo frio, mas nos andares abaixo há os geradores de energia. Por segurança mantivemos este nível sem instalações de aquecimento, assim podemos inundar aqui caso haja risco de explosões, sem comprometer a estrutura da base – seguiu explicando a tradutora, como se repetisse um discurso padrão.

     Entraram em um elevador. Após alguns minutos de subida, as paredes de concreto e aço tornaram-se de vidro e puderam ter uma ampla visão do instituto tecnológico que os cercava.

     -Minerva é a divisão secreta da G.S.S., com uma única missão: manter a verdadeira ordem mundial – enquanto elava falava passavam por dois, três, quatro níveis tão extensos como cidades inteiras, com dezenas de máquinas, computadores, processadores, prédios inteiros feitos de cabos, placas, transitors, etc..

     -Mas a G.S.S. já era uma divisão secreta… com a mesma missão… – disse o cientista a interrompendo. Quem respondeu dessa foi o Homem de farda em sua língua.

     -Mais tarde, Doutor, chegaremos logo em meu escritório – Traduziu a moça e, sem dar chance de resposta continuou sua descrição do lugar.

     – São exatos 31  léveis. Os senhores desembarcaram no 28. Do 26 ao 17 é a nossa central de processamento e armazenamento de dados. O andar 16 É ocupado pelo centro de inteligência e engenharia computacional, no qual são criadas novas tecnologias relativas a informática, possuindo esse andar seu próprio complexo industrial…

     Ela continuou descrevendo detalhadamente cada lugar pelo qual passavam: o laboratório de farmacoterápicos, o cestro de assistências humanas, o centro de desenvolvimentos alimentares, o complexo bélico, etc… Até que, finalmente, atingiram o 6º andar: Complexo residencial e financeiro.

     – Acima estão as estações de estudos climáticos, manutenção e comunicação, cujas informações no momento são restritas – finalizou a mulher. Após tanto ouvir a voz dela, o Agente 42 definiu que seu sotaque era definitivamente russo.

     O elevador cortava aproximadamente o centro de cada andar. A saída era a frente de um prédio recém pintado. Havia ruas e carros elétricos. O Homem fardado atravessou a via, abriu a porta simples de madeira, que não estava trancada e entrou. Aparentemente ali era sua casa. Havia uma escada que levava a quartos superiores, uma cozinha e uma garagem. No fundo da casa havia um quarto com uma ampla estante de livros, uma mesa modesta e um pequeno computador.

     Sentou-se em uma poltrona colonial, a russa ficou em pé, e os nossos dois protagonistas se sentaram em bancos entalhados a mão, boquiabertos com aquele enorme contraste tecnológico. Ignorando a cara de espanto o Homem fardado falou, fazendo pausas para sua tradutora o acompanhar.

     -Creio que a ONU não tenha sido inteiramente Honesta com vocês. Este lugar é uma prisão. Da qual ninguém tem a autorização de sair. Sinto, senhores, mas sua missão de uma semana se estenderá para o resto de suas vidas. Minerva é uma base militar submarina situada na região Antártica. Aqui são enviados homens, mulheres e crianças potencialmente capazes de se tornarem líderes bélicos, para que possam ser mantidos em segurança do mundo. Este lugar começou a ser construído após a II Guerra Mundial, baseado em pesquisas de rastreamento genético…

     -Isso é loucura… – o cientista estava sério, mas não elevou o tom da voz. Estavam caminhando sobre o fio de uma faca.

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Apenas mais linhas em um rio de ideias

Boas tardes a todos. Tentarei ser breve e escrever o que puder aqui. Admito que escrevo sem ter a mínima ideia do que estou fazendo. Não tenho nenhuma inspiração. Não tenho nenhum roteiro. Não tenho nada. Em circunstâncias normais, minha preguiça teria levado a melhor e me deixado sem escrever, mas não estou sob circunstâncias particularmente normais, ao menos não sob a ótica de pessoas ‘normais’. Portanto, mãos (ou antes, coração, mente e tripas) à obra. Este recado é apenas de um autor que se preocupa com seus próprios erros, e pede que seus leitores sejam mais pacientes que ele mesmo.

A coisa que mais me assombra é uma folha de papel em branco. Ou no meu caso, uma tela brnca piscando no monitor. A linha vertical pisca a intervalos regulares e você sabe que alguma coisa pode sair daquela linha piscante. Um sucesso comercial. Um tratado diplomático. Uma obra prima digna das musas. Ou absolutamente nada. E é isso o que assusta. O absolutamente nada. Não há nada mais desesperador do que se sentar para criar algo e nada genuinamente bom consegue sair de você. Pelo menos para mim, a frustração de não conseguir fazer algo que, se eu lesse, ouvisse ou assistisse de um terceiro geraria em mim admiração e respeito, é no mínimo assustadora. Sou uma espécie de perfeccionista. E é por isso que a folha em branco é assustadora. Eu posso ver nela todo o potencial, toda a força, todas as ideias fluido, só esperando para serem pescadas. E tenho medo que, quando eu chegar perto, elas vão fugir de minha presença, deixando-me com as mãos vazias e o coração pesado. Mas descobri que o medo (ou o fracasso) é, de certa forma o meu preço por escrever. Se ainda não fiz algo que em mim mesmo gere aprovação, é porque ainda tenho que praticar, e muito. E no fim, o medo só vai me fazer ficar parado à margem da folha em branco, olhando as ideis sorrirem e acenarem para mim, sem que eu as toque. Por isso, agradeço ao Aton a oportunidade de, aqui nessas poucas linhas, testar minha coragem e entrar nesse rio de ideias. Mesmo que em várias situações eu ainda me frustre, o desfio de toda semana apresentar algo diferente e novo tem feito bem para mim. Quando eu tiver dominado a arte por completo, e tiver o fôlego e a disposição de escrever, mesmo que sejam mil livros, eu sei que as ideias estarão ali, já acostumadas à minha pessoa. E não. Elas não fugirão outra vez.

Por Claus P. Neto

Hiperbórea – parte I (ATON)

Hiperbórea

parte I

     – Você tem uma semana, entendeu? – disse um homem baixo que parecia ser uma espécie de cientista. Era careca, usava óculos redondos e tinha uma barba grisalha em forma de “V” que descia até o peito. Suas roupas estavam surradas e seu jaleco estava amarelado, manchado e corroído em centenas de lugares.
     – Certo. Mas eu ainda não sei qual é a minha missão – respondeu um outro homem mais alto. Queixo quadrado e barba feita. Camiseta preta e calça azul-escura. Sapatos também pretos. Nada de muito notável neste homem.
     – Nem nós. É uma ordem direta dos cinco, seu currículo foi selecionado por eles especialmente para isso. Tudo que eu sei é que te levaremos para Minerva e que você tem uma semana para cumprir o que for determinado.
     – Ser da G.S.S. enche o saco às vezes. Minerva… Eu pensei que fosse um mito.
     – É… melhor continuar pensando assim, a Global Secret Security já eliminou agentes por informações bem menores. Você sabe.
     – Não sei se eles realmente querem que eu saia de lá. Mas seja como for, alguém tem que sujar as mãos de vez em quando. Quanto tempo falta?
     – Não sei para onde estamos indo, este helicóptero parece ser teleguiado. Não vi pilotos. Mas está esfriando bastante, devemos estar já bem acima do trópico.
     Estavam sentados nos bancos de um helicóptero que tinha aspecto militar. Podia-se ver nas paredes espaço para guardar armas e coletes. Mais próximo do teto, em um dos cantos, um monitor acendeu. Uma tela branca com uma linha preta que vibrava conforme uma voz mecânica-aveludada dizia:
     – Boa noite, senhores. O armário no fim deste corredor possui vestimentas de frio. A cabine de pilotagem foi destravada. Ainda temos problema para os controladores remotos de pouso. Pela gentileza, Agente 42, aterrisse no ponto logo abaixo. Um navio os espera.
     Vestiram-se primeiro. O homem mais alto assumiu os controles e pousou. Era uma baía deserta. Havia um acúmulo de gelo por todos os lados, exceto no preciso ponto de aterrissagem. o vento estava calmo, mas as nuvens no horizonte já indicavam que logo seria uma tempestade forte, talvez uma nevada.
     Um homem fortemente agasalhado, como se tivesse acabado de deixar uma região polar os aguardava na praia ao lado de uma lancha. Foram alguns metros mar a dentro, mas não chegou a um quilômetro. Não um navio, mas um submarino os aguardava.
Este era, finalmente, tripulado. Mas não falavam a respeito de onde estavam ou para onde iam. Apesar dos aquecedores, o frio parecia penetrar como uma faca. Demoraram um período incerto de tempo para chegarem ao seu destino: Minerva.
Até então tudo que souberam é que iriam emergir, mas ainda estariam abaixo do oceano, pois adentrariam uma base secreta submarina. Saíram e o frio era, com certeza, polar. Emergiram em uma espécie de grande piscina, ao lado de outras cinco, nas quais havia outros submarinos parados.
     Uma comitiva os esperava. Traziam ainda mais agasalhos. Um Homem fardado (esses eram extremamente raros na G.S.S.) se aproximou do agente 42 e do cientista e disse:
     – Senhores, bem vindo. Perdão meu português. Esta minha tradutora – apontou para a mulher de cabelos negros e traços eslavos no rosto – ela é confiança – disse algumas palavras em uma língua saxônica, e a mulher traduziu – Sigam-nos – havia um forte sotaque.

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes.

E eis que acaba essa pequena narrativa. Espero que gostem do resultado. Fiquei meio apreensivo de não conseguir o efeito que desejava para o conto, mas de um jeito ou de outro, ele está pronto. Desculpem a postagem longa, mas eu realmente queria acabar com ele o mais cedo o possível ao invés de ficar me estendendo muito nela, como ocorreu em outras situações. Só alertando que estarei corrigindo os pontos necessários de coerência interna do texto, especialmente a do começo, portanto não estranhem as modificações.

Boas tardes.

Atentado finale_-_Por Claus P. Neto

A resposta fora tão sincera e tão surpreendente que o delegado não conseguiu segurar o riso. Recuperou o controle rapidamente, esperando uma reprimenda do velho, que surpreendentemente pareceu não notar, continuando a um sinal de seu entrevistador. “Depois do perrengue, ele se acalmou. Enquanto a gente bebia, ele foi contando a sua situação, enquanto eu lhe falei a minha. Pelo menos concordamos que já que estávamos os dois na pior, não valia a pena brigar. Quando fui pagar a conta, depois de várias horas de conversa, o Luriel me abriu o sorriso desdentado e falou exatamente assim: ’Nem se preocupe, Aldemir. Por conta dos salgadinhos que você traz eu estou ganhando tanto dinheiro que pra você a cerveja é na canja! Fique sossegado’. Aquela fala me despertou então para um detalhe. Eu nunca tinha visto o bar tão cheio. Veja bem, eu só abastecia o bar (tanto que só ouvi o Luriel me falar isso naquele momento), mas eu nunca prestara atenção para o quanto se consumia lá dentro, já que eu sempre tinha alguma outra coisa na cabeça pra resolver. Mas realmente, eu me lembro de que quando eu comecei a vender para ele o bar era frequentado apenas por alguns senhores que pagavam apenas uma cerveja e ficavam a tarde inteira jogando conversa fora sem consumir mais nada. Naquela tarde, o estabelecimento estava fervilhando de gente, principalmente jovens, que como acompanhamento para a bebida só compravam os salgadinhos que eu vendia. Foi aí que eu juntei os pontos. Nenhuma marca de salgadinhos grande vendia na cidade. Assim, de certa forma, a Crispe detinha o monopólio na cidade. Só havia uma coisa: o maior estabelecimento comercial da cidade não comprava de nós. E uma ideia que poderia livrar a nós dois daquela situação surgiu. Saí correndo e alcancei o dono do supermercado justo quando ele estava prestes a tropeçar na calçada. Segurei-o, e mesmo sabendo o quanto ele estava bêbado, expus-lhe o plano. A velha raposa, ainda que ébria, rapidamente assimilou o plano, já sentindo o cheiro do dinheiro e de sua redenção, e concordou de pronto. No dia seguinte, ele apareceu na porta da Crispe e ofereceu um contrato de compra anual nossa. Mesmo com o repúdio público do comprador, a empresa andava mal das pernas (especialmente após eu perder um bom cliente), e a proposta era muito boa. Os detalhes do acordo foram fechados no mesmo dia. Mas teve um porém. O proprietário do Super Bom Mart tinha acordado comigo que, em troca do contrato de venda, ele me recomendaria como o mentor do negócio, de forma que eu pudesse ter o emprego de volta. Você já imagina que isso não aconteceu, naturalmente. Até hoje não sei o que levou o velho mesquinho a fazer isso, e honestamente nunca cheguei a me importar.

“O fato é que em dois meses, o público jovem, atraído pela novidade no grande mercado, fez os lucros do estabelecimento triplicarem. Como nenhum deles dava a mínima para a vida pessoal de seu proprietário, compravam sem a mesma reprimenda das velhas fofoqueiras que boicotaram o mercado à época do incidente. A Crispe também cresceu. Foi inaugurada uma nova linha de produtos bem como todo um novo galpão industrial. Mas a minha situação prosseguiu a mesma. Meu seguro desemprego já estava no fim, e para afogar as mágoas, eu comecei a frequentar o Luriel mais frequentemente. E foi numa dessas idas que a minha sorte virou.

“Aconteceu que um dia um dos novos funcionários da parte de entregas da Crispe chegou com os amigos para curtir o começo do fim de semana. Eu já estava lá desde o período da manhã, então você pode ter uma ideia de meu estado. Nisso, o rapaz me reconheceu da briga de alguns meses atrás. Acontece que com a ampliação do porte da empresa, a Crispe teve que contratar mais funcionários dentre o público jovem, que anteriormente ficavam de bobeira no bar o dia inteiro. Assim, o rapaz, por gozação, resolveu insultar comigo sobre aquele assunto. Eu já estava bêbado. Amargurado. Não tinha nada a perder. Aquele jovem ocupando um cargo que havia sido meu vir me humilhar já era a gota d’água. Levantei-me calmamente, já pronto para arrumar outra briga quando o Luriel, percebendo o que ia ocorrer, interferiu e me obrigou a sentar, depois chamando o rapaz para o canto, provavelmente convidando-o a se retirar. Pelo menos, foi isso o que eu supus, pois em questão de minutos ele pagou a sua conta e foi embora, deixando a sua mesa de amigos. Depois de alguns dias, recebi um telefonema do departamento de RH da Crispe. Eles apontaram o quanto havia sido uma decisão errada ter me demitido sumariamente da maneira que fizeram, e que queriam um funcionário com a minha experiência para ser gerente da área de distribuição. Desnecessário dizer que eu aceitei. Em alguns dias, já voltava ao serviço, minha mulher voltara e minha situação se estabilizou. Só depois de algum tempo é que descobri que o Luriel havia explicado a minha situação ao moço, apontando ainda que fora minha a ideia que o levara a ser contratado. Por consciência pesada, ele levou esse caso à diretoria, que após apurar a veracidade do caso, resolveu me restituir o emprego e a dignidade. “Nunca vou poder agradecer o Luriel o suficiente”. O delegado então repirou fundo, controlando a sua irritação. “Muito bom, senhor Aldemir. Mas nada disso, exceto a sua rixa com o dono do mercado, explica a razão de você ter cometido o atentado. Se você veio aqui apenas para gastar meu tempo com alguma historinha, eu vou algemá-lo por obstrução da justiça”. O velho nem se abalou com a ameaça. “É como eu disse, senhor delegado. Quando a gente envelhece, fica mais emotivo. Sem a minha velha, não tenho muita gente com quem conversar, então às vezes eu acabo exagerando na dose. Mas você vai ver senhor delegado, que tudo isso vai ajudar a entender o que aconteceu”. O delegado suspirou de novo e respondeu de modo um tanto ríspido: “Então seja breve e fale o que aconteceu”. O velho deu de ombros. “Nada de mais. Um dia, fazendo minhas compras regulares no mercado, houve um problema com o meu cartão de crédito. Insisti que não havia nenhuma irregularidade e a moça do caixa saiu para averiguar. Duas horas depois de ela me deixar plantado ali, resolvi sair para tirar satisfação com ela e descobri que nesse meio tempo a preguiçosa ficou batendo papo com um rapaz do setor de empacotamento. Se você prestou atenção à minha história anterior, acho que sabe o quanto eu odeio que me deixem esperando à toa. A resposta da moça quando fui reclamar foi a gota d’água: ‘Fique calmo aí, vovô! Nossa, velho grosso, e eu pensando que aposentado tinha todo o tempo do mundo’. Ela e o rapaz riram deliberadamente. Ambos eram uns mimados que só trabalhavam por coerção dos pais ricos, mas pra mim esse detalhe não importava. Depois de algum tempo na Crispe, fui promovido a diretor de estoque. Assim, foi fácil convencer o nosso fornecedor a nos vender hidrogênio, para uma suposta nova linha de produtos. Depois, sob o pretexto de que tinha serviço a fazer, fiquei até tarde da noite colocando o gás explosivo nos tanques de nitrogênio. Assim, quando retornaram os tanques de hidrogênio, eles já estavam vazios. Eu ainda fiz com que as embalagens recebessem um jato mais grosso de tinta e coloquei pesos escondidos nos pacotes, de modo que seria mais difícil perceberem a diferença de peso. Eu já sabia que o zelador do lugar tinha o hábito de roubar alguns salgadinhos escondido durante o seu turno, além de fumar como uma chaminé. Seria só uma questão de tempo até a coisa toda explodir. Eu mesmo fiz a entrega, e ninguém percebeu até agora. Se você fizer alguma investigação no assunto, verá que falo a verdade”. O oficial ainda não se dera por vencido. “Mas o seu motivo é completamente estúpido! Não tem praticamente nenhuma relação entre você ser mal atendido e explodir o estabelecimento”. O velho retribuiu o olhar, os olhos brilhando: “E daí? Você com certeza já viu matarem por bem menos que isso. Não seria o primeiro caso de um psicopata ou incendiário que perde o controle. A questão não é que o meu motivo é fraco, apenas que ele é suficiente para eu ter feito uma coisa dessas”.

O oficial o encarou longamente. Não acreditava na história. Havia vários pontos que não se encaixavam de jeito nenhum, e ele não podia acreditar numa causa tão absurda. No entanto, ele sabia que talvez não adiantasse discutir. Prenderia o homem por algum tempo antes de os resultados da perícia e os mandatos chegassem. Depois poderia fazer um interrogatório mais decente e extrair a verdade. De um modo ou de outro, ele precisava de um bode expiatório para acalmar os ânimos da população, e ele se voluntariara. Assim, resolveu entrar no jogo e enrolar o velho só méis um pouco antes de prendê-lo. “E então é isso?”, perguntou. “E então é isso. Essa é a história toda”, concluiu o velho. O delegado olhou para o suspeito, com a incredulidade ainda estampada na cara, apesar do esforço. O suspeito pareceu perceber. “Você não acredita em nada disso, não é?”. Na mosca. “Não, não acredito”, replicou o oficial da lei, “Não que o relato seja absurdo, muito pelo contrário. É totalmente plausível, e até agora foi o que melhor explicou tudo o que aconteceu”. “Então por que não acredita?”, provocou o interrogado, com uma expressão faceira na cara velha, como se estivesse ansiando por contar o fim de uma piada particularmente engraçada. O delegado ficou ainda mais irritado com aquela expressão, mas conteve-se, e respondeu em tom calmo: “Porque ainda está faltando um ponto importante”. Fez uma pequena pausa e olhou nos olhos do velho à sua frente. “Por que você se entregou?”. O suspeito abriu um largo sorriso. Finalmente poderia contar o final da piada.

O delegado havia feito a pergunta apenas para enrolar um pouco mais o senhor de idade, mas aparentemente o funcionário da Crispe viu isso como uma deixa esperada há muito tempo. “19/06/1995”. Respondeu o velho. “Como?”, perguntou o delegado confuso. O velho pareceu se irritar ligeiramente. “Como assim senhor delegado? Então não se lembra?”. O oficial tentou se lembrar, mas não conseguia. Vendo isso, o senhor continuou “Esse foi o dia em que eu vim aqui prestar queixa de um roubo, senhor delegado. O senhor era recém-empossado no cargo no lugar do Jurandir. Mas não só roubo. Latrocínio. Foi o dia em que a minha velha foi esfaqueada sem piedade só porque se recusou a entregar a caixa de joias de sua mãe, a última lembrança dela da minha finada sogra. Eu fiquei aqui durante horas enquanto você deixava o maldito escapar, só pra depois de dias me avisar que não era possível mais pegá-lo”. O delegado então se lembrou. O crime tinha sido cometido por um forasteiro até onde as evidências indicavam. O carro em que o suspeito havia sido visto era roubado, e havia sido abandonado em uma cidade distante dali. O sujeito simplesmente desaparecera, e não havia nada que ele pudesse fazer, já que não havia testemunhas que pudessem descrever o assassino. A demora foi por conta de um detalhe da burocracia, e ele só chegou a saber qual era o carro quando este já estava bem longe. Ele sentiu a ameaça suspensa no ar, sustentada pelo olhar faiscante do velho e pelo seu sorriso de canto de boca. “Eu gastei boa parte do meu dinheiro tentando achar o desgraçado, mas nunca tive resultados. Mas eu não me esqueci do senhor”. Instintivamente, o delegado tentou se justificar, mas o olhar do homem sentado à sua frente era tão intenso que ele não encontrou a coragem para falar. “E sabe o que é mais curioso, delegado? Um dos poucos detalhes que eu percebi em minha visita aqui foi o Jair afanando um dos salgadinhos que eu deixei no balcão. Ele ainda fuma, não é?”. O delegado então ligou os pontos. Saiu correndo para fora, mas assim que tocou a maçaneta, a delegacia explodiu.

Fim.

Por Claus P. Neto

Ovelha negra (ATON)

Ovelha negra

Há essa lei universal que cerca os estudantes de humanas do Brasil, determinando cabalmente que todos eles devem ser marxistas, usar barba, ter gostos alternativos e coisas do gênero. E tem eu. Alguém totalmente desprovido dessa tara pelo cunho social, a ovelha negra, como um colega disse outro dia, fazendo uma alusão ao fascismo. Mas ta aí, gostei do nome.

Decidira escrever essa crônica desde março. Mas o título só surgiu essa semana (vulgo hoje, já que domingo não faz parte da semana, obviamente). Estava um grupo de estudantes de exatas discutindo sobre o universo e coisas da metafísica midiática. Eu meio quieto e observador fui entrando na conversa, o que levou, no dia, a questionamentos muito bons, com os quais realmente eu não me importo, porque não lembro o que eram. Mas desse assunto veio a pergunta, “Que engenharia você presta mesmo?”, “Nenhuma. Sou de Humanas”.

Desde esse dia, incessantemente, alguns colegas tentam me convencer a trocar de time. E devo dizer que a proposta é até tentadora. Digo, o pessoal de humanas é meio irritante, quando quer, o problema é que eles querem isso o tempo todo. Mas todos temos defeitos. Uns menos, outros mais…

Aí eu imagino como seria a faculdade. Chegaria em um grupo e ouviria coisas a respeito do PT, do PC, do PSol? Então eu diria, “sabe aquele economista…” e veria caras de repúdio, quase como se tivesse aspergido água benta sobre um grupo de vampiros em uma plantação de alho durante o meio-dia ao lado de uma igreja celebrando o domingo de ramos. Pior que isso seria “Marx errou quando…”. Imagino que não viveria para terminar a frase. Sério.

Na verdade, olhando para o esteriótipo dos meus futuros “camaradas & companheiros S.A.” passo a acreditar na teoria do bom selvagem do Rousseau. Até um neandertal parece mais civilizado do que esse pessoal de humanas “da gema”. Sabe, os caras de exatas não são muito diferentes. Mas quando discutem algo, não é para impor uma opinião abstrata e, de certa forma, inútil (como toda opinião social é), e sim para compartilhar “conhecimento” (apesar de isso ser raro).

Talvez devesse dizer algumas linhas também sobre o pessoal de biológicas. São bem legais e têm essa aura mágica a respeito do saber que faz tudo parecer meio místico… Talvez seja o LSD, mas fora isso são gente boa… O pessoal de humanas gosta bastante deles, afinal ensinam grandes técnicas milenares de herbicultura, se me entendem…

É legal que, no que tange os entorpecentes, o grupo de exatas poderia se dividir em: playboy+graxa de motor+futebol; ou asiáticos. Já que ser oriental já o coloca em um estado de espírito superior a qualquer um gerado por efeitos sensoriais conhecidos pelo homem.  Porque, você sabe, o japa/china/coreano não é bem um humano. Nesse sentido eu sigo aquela música do Ultraje a rigor “Vamos progredir de vez/ vamos virar japonês!”.

É claro que, porém, o japa de humanas é aquele que não é o 80. Visto tudo isso, por que continuar nessa área? Boa pergunta, eu sou de humanas, não preciso de motivos.

Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

Boas tardes. Estamos chegando à conclusão dessa breve história. Com alguma sorte, ela estará fechada em mais um ou dois posts. Claro que raramente a sorte me favorece, mas ainda assim, é interessante supor o melhor. De uma maneira ou de outra, boa leitura. Só vou fazer mais um apelo: por favor, estou tentando ser um narrador melhor. Recebi algumas críticas de textos antigos que me fizeram refletir o quanto eu ainda estou longe de alcançar um padrão de excelência (pelo menos como eu concebo). Assim, feedbacks que me auxiliem a escrever melhor são totalmente bem vindos.

Boas tardes.

Atentado parte III_-_Por Claus P. Neto

“Comecei na Crispe em 1957. Eu contava com 30 anos e já era o meu sexto emprego. Não tinha muita expectativa de subir no cargo ou de me manter na empresa por muito tempo, mas aconteceu. Na época, para o senhor ter uma ideia, a Crispe fazia comida enlatada. Só em 1986, quando o neto do dono original da fábrica assumiu, é que passamos a fazer os salgadinhos. Bom, nessa época eu já era o entregador do produto, já que era um dos poucos da cidade que sabia dirigir. E foi mais ou menos nessa época que começou a nossa história com o Super Bom Mart.” O velho fez uma pequena pausa e tossiu. “Como o senhor já sabe, o mercado já estava em atividade já fazia algum tempo, mas nunca nos contatou para vender nossos produtos, o que, considerando o caráter turrão do proprietário, não era nenhuma surpresa. Então, eu viajava muito para fora da cidade, entregando a mercadoria para mercados de cidades grandes que só queriam um salgadinho de baixo custo. Aqui na vila mesmo, só fornecíamos para duas vendas pequenas que já fecharam e para o bar do Luriel, onde até hoje eu não preciso pagar a cerveja. A patroa não gostava muito, sempre achava que eu estava indo pra farra, mas eu sou um homem de honra senhor delegado. Ainda assim, isso quase que destruiu meu casamento com Gunercindes, Deus a tenha, minha veia!”. O senhor, emocionado pela lembrança, levou um dos dedos grossos aos olhos, e sem se incomodar com a presença do delegado, de lá tirou uma brilhante e cristalina lágrima. “Desculpa senhor delegado! A gente quando envelhece dá de ficar emotivo com qualquer coisa”, disse, justificando um tanto timidamente o gesto de saudade. Inspirou fundo, acalmando-se, e continuou. “Enfim, essas minhas viagens a trabalho estavam colocando meu casamento por um triz. Eu já não sabia o que fazer. Estava na empresa há muito tempo, ganhava bem. Ia ser difícil trocar de serviço àquela altura do campeonato, mesmo com todos os filhos já criados e fora de casa. Numa dessas viagens, eu estava estressado mais do que o normal. Tinha dormido pouco, saído cedo (por volta de 04h30minh) e nem mesmo tinha tomado o meu tradicional gole de café já que minha mulher estava dormindo. Saí esbaforido. Chegando à cidade em que eu ia fazer a entrega, peguei um trânsito infernal. Mas sabe o que realmente me deixou louco, senhor delegado?”, disse Aldemir num tom já irritadiço, “Assim que cheguei ao mercado para quem fornecíamos, às 09h20minh em ponto, dez minutos antes do horário combinado, me disseram para esperar alguns minutinhos. E assim, esperei. Fiquei lá até as 20h15minh. Sem almoço, janta, nada. Mesmo reclamando 16 vezes com os funcionários do lugar, que se fizeram de sonsos e me deixaram de chá de cadeira. Descobri depois que era porque o rapaz responsável pelo estoque estava com infecção urinária. Mas não me falaram nada. Simplesmente me deixaram lá, a ver navios, sem nem mesmo ter a dignidade de me pagar um pão com mortadela. No fim, fui bater na porta do dono do lugar e joguei toda a carga do caminhão na porta da casa dele, e dirigi-lhe algumas verdades bastante rudes. Desnecessário dizer que meu emprego como entregador tinha ido pro saco. Assim , na volta, você já imagina que meu estado de espírito não era exatamente disposto. Pois bem, na entrada da cidade, logo depois do pasto do seu Ramos, tinha um bordel famoso. Fechou quando um cliente particularmente importante e vingativo contraiu gonorreia, mesmo pagando extras para não usar preservativos. Mas na época, ainda era bem frequentado. Não tanto pelos homens da cidade, que por ser pequena, abria brechas para as fofocas se espalharem rapidamente, mas isso não significava que alguns dos nossos ilustres representantes  não visitassem a casa. Naquela noite, ao passar pelo lugar, descobri que um desses ilustres representantes era ninguém menos que o proprietário do Super Bom Mart. Aconteceu que eu, já desesperado por chegar em casa tarde e já antecipando o conflito com minha esposa, estava correndo que nem um louco pela estrada. Só que nesse cenário, o dono do mercado, já completamente embriagado, saiu também correndo, segundo ouvi por conta de uma desavença com uma das ‘funcionárias’ do local. O resultado você imagina. Até hoje eu não entendo como nós dois não morremos naquele acidente. Só me lembro de que acordei no dia seguinte na Santa Casa, com o tubo de soro no braço e o dono do Super Bom Mart gritando com a enfermeira porque se sentia perfeitamente bem e queria ir logo para casa, de camisola e tudo. Aquele incidente só fez a minha vida ficar ainda pior. No dia em que voltei para casa, a carta de demissão da Crispe já estava em cima da mesa. O fato de eu ter batido o caminhão na frente de um bordel tarde da noite não só deu motivo para a demissão por justa causa como também piorou meu relacionamento com Gunercindes, que foi pra casa da mãe. Eu estava em parafuso, senhor delegado. Pensei em um monte de coisas que eu poderia fazer pra solucionar a besteira. No fim, escolhi a pior: fui ao bar. Chegando lá, encontro ninguém mais, ninguém menos que o homem com quem tinha batido alguns dias atrás. O indivíduo também estava amargurado porque o acidente revelara a sua relação com o prostíbulo e não só as vendas não paravam de cair como suas relações com o sogro, principal fonte de capital para investimento, também não andavam muito bem. “Assim, logo que me viu, ele, que já estava meio ébrio, saltou pra cima de mim”. O velho pigarreou mais um pouco, fruto do pulmão fraco, deixando soltar depois uma ligeira risada. “Juro pro senhor, delegado, nunca me senti tão apavorado quanto naquele momento. Ele estava com muito sangue nos olhos mesmo. No fim, o dono do bar teve que nos expulsar pra resolver a rixa na rua. Num dado momento da briga, ele se descontrolou e puxou um canivete. Aí, movido pelo medo de morrer, eu lutei com mais força ainda e consegui derrubá-lo com um golpe bem acertado no queixo”. O velho ficou algum tempo com um sorriso no rosto, como que apreciando a façanha, e o delegado teve que pressioná-lo a continuar. “E então foi isso? Foi por causa dessa rixa entre vocês dois que você, depois de tantos anos, resolveu se vingar e explodir seu estabelecimento?”. Aldemir saiu de seu transe e respondeu, em tom indignado. “Nada disso! Se o senhor parasse de fazer interrupções e ouvisse a história inteira, não ficaria supondo esse tipo de bobagens”. O delegado engoliu a raiva, e tentando não apontar que fora o próprio velho quem interrompera o depoimento, perguntou: “E então o que aconteceu em seguida?”. O interrogado deu de ombros e respondeu: “Eu esperei ele acordar e paguei uma cerveja pra ele”.

Ensaio Apolíneo (ATON)

Ensaio Apolíneo

Olá, eu sou um deus. Não, espere, não sou “O” Deus Maiúsculo. Sou a personagem de “um deus”, aquele do Nietzesche, sabe? O que morreu… É, esse mesmo. Mas como? Explicarei mais abaixo. Por enquanto, chamar-me-ei de Apollo (sim, como todo bom profeta usarei mesóclises em excesso), não que haja algo de especial nesse nome, qualquer outro serviria, Bob, por exemplo. Acontece que as pessoas gostam muito de nomes, embora pudessem viver muito bem sem eles.

Enfim, a minha morte, falar-lha-emos agora (olha só). Esse filosofozinho alemão, o maior de todos, Nietzesche, declarou meu óbito com a incrível perícia dos médicos legistas (dã?). Mas não é a ele a quem concedo o crédito de carrasco, e sim a um outro, o Descartes. Não só fez do ensino fundamental um inferno, como elucidou o princípio de existência supremo: “duvido, logo penso. Penso, logo existo”.

Ora, se eu sou um deus, e eu existo, eu penso. Se eu penso, eu duvido… Mas eu sou um deus?! Então, eu não tenho certeza de tudo, não sou onisciente. Consequentemente, existindo “objetos” alheios a minha sabedoria, não posso ser onipotente, uma vez que não os conhecendo, não posso reproduzi-los. E, portanto, esses “objetos” existem contrários a minha vontade, não fazendo parte de minha criação, de forma que eu não estou presente em suas existências, não sendo onipresente.

Sendo assim, Se eu sou um deus, eu não sou um deus ao mesmo tempo. Seu eu existo, eu não existo. Se eu sou intangível, eu posso ser qualquer um. Posso ser você, inclusive. Mas enfim, pra que venho eu, do meu túmulo, “perturba-lhes

-ando” (erro proposital ~haters gonna hate~) com essas considerações imbecis? Para falar de algo igualmente imbecil: O Brasil.

Eu sei. Antipatriotismo ultimamente não anda na moda. Mas não há muita coisa para se importar quando se está vivo/morto. Comecemos (de novo) falando de lógica. Aborrecê-los-ia também ser morto por uma linha de argumentação impecável, fruto de uma grande capacidade de raciocínio, já existente no sec. XVII, mas, quatro séculos depois, ver tamanha ignorância ainda existir. Mais que ignorância, incoerência.

R$0,20 insuflaram a “consciência” “política” (ironias distintas) dos brasileiros uns meses atrás. Mas, quando os maiores bandidos do país recebem um aval para a impunidade, o que é feito? Muito bem, nada. E os Trilhões que continuarão sendo roubados? Isso não é odioso, revoltante, digno de protesto?

Falo do julgamento do mensalão. Tão revoltante que até um deus se revira em sua cova, levanta-se e dá um tapa no rosto mascarado na nação. Esses que, no dia seguinte, jogaram pedaços de pizza no prédio do STF, tem uma suíte presidencial cativa no céu e mais cem anos de perdão. Nação que pune ladrão, tem mil anos de evolução! Enquanto aqueles que dizem “o gigante acordou”, dizer-lhes-ei (ok, isso já me cansou) que esse gigante é, muito provavelmente, uma criança mimada que se irritou com algo que lhe foi negado/imposto, mas que, contudo, não sabe pelo que, de fato, vale a pena “Chorar”.

AH! Fossem outras épocas, quando eu ainda era vivo, teriam vindo pragas, dilúvios, catástrofes. Fossem outras épocas, talvez eu nem precisasse ameaçar destruir o mundo, os homens o fariam sozinhos, e de bom grado! Mas hoje, “jogaram mentos na geração coca-cola” e agora ela está “sem gás”. O pior, eu avisei. Não, o autor deste texto avisou. Mas concordo com ele. Sabe, quando Nietzesche confirmou meu óbito, certamente havia ali toda sua raiva contra a religião, mas sua proposta era criar cinco minutos, para que as pessoas se sentissem deusas de si, propelidas a mudar o que vissem de errado. Hoje, nem sequer minha existência é questionada…

Temos um grande avanço na ciência, é fato. Mas, infelizmente, a ciência só é boa para os cientistas. Não para essas mulas que acreditam serem inteligentes, revolucionárias, corretas, apenas por criarem um evento no facebook. Meu caro leitor, você será sempre ignorante (O autor deste texto incluso), e essa é a lição mais difícil desta vida. O conhecimento, por enquanto, é infinito. Não há, portanto, certezas concretas, apenas opiniões menos/mais orientadas pela lógica. E, meu amigo, a lógica me matou. É lógico que, quem realmente está lutando por um brasil melhor, já teria saído às ruas, se o alvoroço dos R$0,20, algo muito menor, já o fizera.

Só que isso não foi observado. Imagina o por quê?