J. C. da Silva (ATON)

J. C. da Silva

J. C. da Silva
tinha uma chave em mãos,
e duas portas iguais.
Nada mais.
Uma delas levava ao céu,
a outra ao inferno.
Era o destino de J. C. da Silva
abrir uma delas.
Cruel ideia…
a benção e a maldição
lado a lado, distintas apenas pela sorte,
pela ilusão.
Mas J. C. da Silva não sabia:
a chave abria ambos os caminhos.
E não havia destino algum.
Apenas a escolha. A cruel escolha.
Mas até toda essa história ser esclarecida,
mataram J. C. da Silva.
A chave se perdeu,
ou se perderam dela…
(faz diferença?)
E até hoje tudo tem dois lados indefinidos,
perdidos no meio termo,
de quem nunca foi capaz de transpassar o Hall de entrada
da vida.
E adianta escrever sobre isso?
Adianta refletir agora?
Talvez todos tenhamos essa mesma chave,
em algum lugar secreto,
e tudo que o J. C. queria,
era mostrar que o destino dele,
a qualquer homem serviria…

Quem sabe uma vez – A aranha que subiu pela parede (Aton)

Bonum noctis! NÃO ENTRE EM PÂNICO, como disse o meu guia espiritual… Por que um conto é de mentira? Por que um tanto gigantesco de filosofia se perde entre os adultos quando está tão claro em contos infantis? Este é um tema sério, então leia bem atentamente, curta nossa página do facebook, siga o blog, comente, divulgue, dance macarena e não use drogas, muito bem? Vamos então… AH! mais uma coisa, use camisinha! Agora é sério, Passarei a escrever de segundas-feiras, devido a problemas de horário. Então até dia 25. Boa leitura!

A aranha que subiu pela parede

Quem sabe uma vez a Natureza não tenha gostado de biologia e decidiu pregar uma peça através dos aracnídeos. Eis um caso de um viúvo de uma Viúva-Negra, ou pelo menos era isso que acreditava. De boa vontade ele entregaria a vida ao amor, a vida que teria passado a seus filhos, e eles aos netos. Mas naquele dia, naquela hora, chovia como se o próprio céu soubesse de toda a desgraça antes que ela acontecesse, sem que pudesse fazer nada, então se desfazia em um pranto desesperado. As aranhas foram separadas pelo vento e sem saber como ele caiu e caiu e caiu… Moravam em uma muralha.

Mas o problema não era a altura gigantesca, e sim a pedra lisa e polida que formava a parede. Isso e a chuva profética que nunca deixou de atormentá-los. O curioso disso tudo, era que todos os macho vieram para um lado e as fêmeas para o outro, todos eternamente condenados a subirem e subirem, mas caírem quando a água vinha.

Não muito tempo se passara até que alguns simplesmente desistiam, soltavam-se, jogavam-se ou paravam de comer. e por muito pouco não se extinguiu a espécie. entretanto um restou. Um que persistia, não porque era o mais forte, não porque queria ser lembrado, mas porque valia a pena. Simplesmente valia a pena saber que cada dia dava um passo a mais, mesmo que no final escorregasse e tivesse que reiniciar a mesma tarefa. Valia a penar chegar cada vez mais perto da vida.

Mas os outros faziam troça “vai esfolas as pernas até serem tocos!”, “Porque você não voa em um pássaro?”, “Se cavar um túnel chega primeiro!”, “Se perder a cabeça é tão importante, eu te ajudo!”. Fizeram até uma musiquinha, mas como ela atraía predadores e espantava presas, deixavam pra cantá-la baixinho quando ele voltava.

Mas ele não ouvia. Comia e dormia pouco, apenas para aproveitar o máximo possível das pausas que a tempestade fazia. Até que em um dia, não caiu um pingo. Subia, sem se importar com nada, nem os buracos na parede, atalhos costumavam não dar em lugar algum. Subia, as pontas de seu exoesqueleto quitinoso já estavam quebradiças e desgastadas. Subia, e nenhuma maldita troça foi lançada aquele dia. Até que as nuvens se fecharam sob seus pés e finalmente ele estava em terra plana. O som dos gritos de frustração e morte não chegavam ali. Sorriu, não como quem vence, nem como quem vinga, mas como quem vê uma pequena peça pregada pela Natureza, então seguiu em frente.

MORAL: “Os obstáculos existem por algum motivo. Não estão ali para nos impedir de entrar. Eles existem para nos dar uma chance de mostrarmos as forças de nossas aspirações” (Randy Pausch).

Aton

Ironia metafísica (por Aton)

Segue a parte 4 da saga do Prometeu, que ainda não tem nome (¬¬)’.  Espero que gostem.

 Ironia metafísica

Quebrar a algema direita não foi o real desafio, martelara por quase seis horas até que ela se partisse. A verdadeira dificuldade era agora libertar os pés sem cair do Monte Olimpo, o que era um trabalho mais complexo, visto que o ferro unia as duas pernas de uma vez e o espaço para se equilibrar era muito pequeno, caso caísse dali poderia morrer ou ficar com sérias fraturas. Agachou-se esfolando as costas contra o rochedo, notando o elo que ligava a tornozeleira à corrente que penetrava o coração da montanha. Não havia tempo para pensar:  matara a ave símbolo do maior deus; o Sol se punha e a águia não retornaria para Zeus e logo este saberia de sua fuga.

Calculou a distância até o rio Styx que passava lá embaixo, por onde anos e anos as almas penadas eram levadas, gemendo as histórias de suas vidas e assim Prometeu assistia a impérios subirem e caírem. Poderia quebrar o elo e mergulhar naquelas águas, mas ele sabia o significado do nome daquele rio: significa ódio, e os que por ele passam são levados diretamente ao Tártaro. Se nele caísse talvez pudesse nadar, mas mesmo que saísse daquela torrente de almas e dor, provavelmente ela não sairia dele, corroendo-lhe lentamente o espírito, como fora com Aquiles. Fora que ele não era humano e perderia seus poderes se o fizesse, talvez perdesse até mesmo sua sanidade.

Olhou para cima e viu o cume sumir entre as nuvens… Se ele realmente era um Herói, era direito dele entrar no Olimpo; era direito dele encontrar a paz nos campos Elíseos. Poderia tentar uma escalada, se despencasse morreria ou viveria em ódio eterno, nada muito diferente da vida que levava. Decidiu-se. Inclinou o bico e começou a martelar o elo com certa dificuldade. Era noite quando o ligamento metálico se rompeu e as pernas foram empurradas para frente pelo peso do corpo sem ter uma corrente que as segurasse, de forma que ficou sentado na pequena plataforma a olhar o horizonte.

Esperava que uma nuvem tempestuosa cuspindo raios estivesse se aproximando, a essa altura já deveriam suspeitar de algo ou, pelo menos, estarem apreensivos. Mas não se via nenhum sinal de que algum deus desse conta do que acontecia, tudo estava normal, em paz. Apoiando-se nas rochas ao lado levantou-se, pondo a cabeça da águia entre os dentes e analisando a parede que se erguia infinitamente para o alto: era muito acidentada, mas por se tratar da moradia de todas as divindades aquelas pedras ao longo de toda história absorvera lentamente a rigidez e a imaterialidade dos seres que a cercavam. Resumindo, era perfeita para uma escalada, mesmo com os pés amarrados por uma tornozeleira estrangulante de aço, pois podia confiar todo seu peso nas suas mãos, sem precisar apoiar-se nos pés, uma vez que nenhuma pedra se desprenderia daquela montanha

Sorriu diante do desafio,  alcançar o divino por suas próprias mãos, livres de todo peso que aquele mundo impusera, ou nadar contra a corrente do desespero de pernas atadas justamente por ajudar quem a torna ainda mais forte, ainda mais desesperadora. Era a primeira vez que tinha ouvido falar de ironia metafísica, gargalhou como se fosse a primeira vez e içou-se agarrando uma ponta sobressalente na montanha. Decidira que iria ao Inferno, mas antes ele tinha o dever de rir na cara daqueles que determinaram o que era o Céu.

Aton