Hiperbórea III (ATON)

   Hiperbórea

parte III

     -Ah… pessoas – riu o Agente 42 – A ONU, A G.S.S., todos, do mais simples cidadão ao mais poderoso magnata, tentando adiar o inadiável, controlar o incontrolável – riu – patético. Diga logo, homem, minha missão aqui.

     Impassível, o Homem Fardado continuou do ponto que havia parado, como se não houvesse sido interrompido.

     -Foram descobertos genes relacionados ao dom de liderança e a tendências bélicas. Porém, a forma de hereditariedade tem sido muito questionada. Inicialmente esta base era uma central de super computadores, trançando a linha de parentesco dos maiores generais da história, estudando suas descendências. No final da guerra fria, alguns países adotaram um sistema da vigilância genética, hoje já estendido por uma boa parte da América, Europa, alguns países da Ásia e Oceania. Desde então recebemos pessoas que apresentam indícios e os mantemos ocupados, protegendo a paz, de certa forma. Senhores, quero que conheçam a cidade que nossos prisioneiros construíram: Hiperbórea.

     Apertou um botão sobre sua mesa e uma tela surgiu em uma parede vaga ao lado. Digitou algo no computador e dezenas de imagens captadas por câmeras começaram a ser reproduzidas: casas de madeira, pequenas hortas, uma grande praça com inúmeras pessoas vestidas todas iguais. Lembraria algum lugar onírico do passado se não fossem as lâmpadas pálidas no teto e os tubos de ventilação com grades mais espeças que um homem.

     -Hiperbórea tem um dos maiores sistemas de vigilância do mundo. É, de certa forma uma prisão, mas é tão grande quanto Minerva. Ela se situa logo a oeste, sendo alimentada pelos mesmos geradores que aqui. Há um ecossistema artificial controlado por nós, ainda em fase de adaptação. Florestas e até mesmo rios podem ser encontrados lá. Os prisioneiros só têm acesso à tecnologia que conseguirem produzir. Fornecemos três vezes ao mês livros seletos. Clássicos e alguns volumes de medicina, nada que ofereça perigo. Fora isso, todo resto é por conta deles.

     As imagens que seguiam eram impressionantes: ruas de pedra, algumas bicicletas de madeira, idosos jogando xadrez ou contando histórias para crianças, lembrava uma vila medieval “moderna”, extremamente organizada.

     -Eles têm um avanço moderado sem tecnologia acessível. Mas mês passado um homem escapou. Semana passada foram outros dois. Verificamos cada metro desse lugar e nada encontramos. Esta é a sua missão, descobrir como, para onde foram, se sobreviveriam na Antártica, por que fugiram e reportar as falhas no sistema. Para isso, Agente 42, você será um prisioneiro infiltrado. Temos pressa.

     -E quais são meus assuntos aqui? – continuou o Doutor ainda sério.

     -Dr. Schwarzer. Considerado o maior polímata da atualidade. Creio que o senhor conheceu o Dr. Denker?

     -Edward Denker? Foi meu professor na faculdade em Berlim. Um dos poucos a não me discriminar pela minha descendência brasileira… Morreu sete ou oito anos atrás…

     -Na verdade, três dias atrás. Foi um dos primeiros recrutas. Mas só veio nove anos atrás, pois ainda não haviamos completado o laboratório de pesquisas. Este é o testamento dele

     Jogou um papel com umas duas linhas escritas, uma assinatura e uma impressão digital. O Dr. Schwarzer leu em vós alta: “Em caso de morte, deixo tudo (minha pesquisa e meus bens daqui) para meu grande discípulo: Marco Aurélio Carvalho Schwarzer”. Havia uma cópia, abaixo, do mesmo enunciado, em inglês e outra em alemão.

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Hiperbórea II (ATON)

Hiperbórea

parte II

     -Desculpe-nos pelo frio, mas nos andares abaixo há os geradores de energia. Por segurança mantivemos este nível sem instalações de aquecimento, assim podemos inundar aqui caso haja risco de explosões, sem comprometer a estrutura da base – seguiu explicando a tradutora, como se repetisse um discurso padrão.

     Entraram em um elevador. Após alguns minutos de subida, as paredes de concreto e aço tornaram-se de vidro e puderam ter uma ampla visão do instituto tecnológico que os cercava.

     -Minerva é a divisão secreta da G.S.S., com uma única missão: manter a verdadeira ordem mundial – enquanto elava falava passavam por dois, três, quatro níveis tão extensos como cidades inteiras, com dezenas de máquinas, computadores, processadores, prédios inteiros feitos de cabos, placas, transitors, etc..

     -Mas a G.S.S. já era uma divisão secreta… com a mesma missão… – disse o cientista a interrompendo. Quem respondeu dessa foi o Homem de farda em sua língua.

     -Mais tarde, Doutor, chegaremos logo em meu escritório – Traduziu a moça e, sem dar chance de resposta continuou sua descrição do lugar.

     – São exatos 31  léveis. Os senhores desembarcaram no 28. Do 26 ao 17 é a nossa central de processamento e armazenamento de dados. O andar 16 É ocupado pelo centro de inteligência e engenharia computacional, no qual são criadas novas tecnologias relativas a informática, possuindo esse andar seu próprio complexo industrial…

     Ela continuou descrevendo detalhadamente cada lugar pelo qual passavam: o laboratório de farmacoterápicos, o cestro de assistências humanas, o centro de desenvolvimentos alimentares, o complexo bélico, etc… Até que, finalmente, atingiram o 6º andar: Complexo residencial e financeiro.

     – Acima estão as estações de estudos climáticos, manutenção e comunicação, cujas informações no momento são restritas – finalizou a mulher. Após tanto ouvir a voz dela, o Agente 42 definiu que seu sotaque era definitivamente russo.

     O elevador cortava aproximadamente o centro de cada andar. A saída era a frente de um prédio recém pintado. Havia ruas e carros elétricos. O Homem fardado atravessou a via, abriu a porta simples de madeira, que não estava trancada e entrou. Aparentemente ali era sua casa. Havia uma escada que levava a quartos superiores, uma cozinha e uma garagem. No fundo da casa havia um quarto com uma ampla estante de livros, uma mesa modesta e um pequeno computador.

     Sentou-se em uma poltrona colonial, a russa ficou em pé, e os nossos dois protagonistas se sentaram em bancos entalhados a mão, boquiabertos com aquele enorme contraste tecnológico. Ignorando a cara de espanto o Homem fardado falou, fazendo pausas para sua tradutora o acompanhar.

     -Creio que a ONU não tenha sido inteiramente Honesta com vocês. Este lugar é uma prisão. Da qual ninguém tem a autorização de sair. Sinto, senhores, mas sua missão de uma semana se estenderá para o resto de suas vidas. Minerva é uma base militar submarina situada na região Antártica. Aqui são enviados homens, mulheres e crianças potencialmente capazes de se tornarem líderes bélicos, para que possam ser mantidos em segurança do mundo. Este lugar começou a ser construído após a II Guerra Mundial, baseado em pesquisas de rastreamento genético…

     -Isso é loucura… – o cientista estava sério, mas não elevou o tom da voz. Estavam caminhando sobre o fio de uma faca.

Hiperbórea – parte I (ATON)

Hiperbórea

parte I

     – Você tem uma semana, entendeu? – disse um homem baixo que parecia ser uma espécie de cientista. Era careca, usava óculos redondos e tinha uma barba grisalha em forma de “V” que descia até o peito. Suas roupas estavam surradas e seu jaleco estava amarelado, manchado e corroído em centenas de lugares.
     – Certo. Mas eu ainda não sei qual é a minha missão – respondeu um outro homem mais alto. Queixo quadrado e barba feita. Camiseta preta e calça azul-escura. Sapatos também pretos. Nada de muito notável neste homem.
     – Nem nós. É uma ordem direta dos cinco, seu currículo foi selecionado por eles especialmente para isso. Tudo que eu sei é que te levaremos para Minerva e que você tem uma semana para cumprir o que for determinado.
     – Ser da G.S.S. enche o saco às vezes. Minerva… Eu pensei que fosse um mito.
     – É… melhor continuar pensando assim, a Global Secret Security já eliminou agentes por informações bem menores. Você sabe.
     – Não sei se eles realmente querem que eu saia de lá. Mas seja como for, alguém tem que sujar as mãos de vez em quando. Quanto tempo falta?
     – Não sei para onde estamos indo, este helicóptero parece ser teleguiado. Não vi pilotos. Mas está esfriando bastante, devemos estar já bem acima do trópico.
     Estavam sentados nos bancos de um helicóptero que tinha aspecto militar. Podia-se ver nas paredes espaço para guardar armas e coletes. Mais próximo do teto, em um dos cantos, um monitor acendeu. Uma tela branca com uma linha preta que vibrava conforme uma voz mecânica-aveludada dizia:
     – Boa noite, senhores. O armário no fim deste corredor possui vestimentas de frio. A cabine de pilotagem foi destravada. Ainda temos problema para os controladores remotos de pouso. Pela gentileza, Agente 42, aterrisse no ponto logo abaixo. Um navio os espera.
     Vestiram-se primeiro. O homem mais alto assumiu os controles e pousou. Era uma baía deserta. Havia um acúmulo de gelo por todos os lados, exceto no preciso ponto de aterrissagem. o vento estava calmo, mas as nuvens no horizonte já indicavam que logo seria uma tempestade forte, talvez uma nevada.
     Um homem fortemente agasalhado, como se tivesse acabado de deixar uma região polar os aguardava na praia ao lado de uma lancha. Foram alguns metros mar a dentro, mas não chegou a um quilômetro. Não um navio, mas um submarino os aguardava.
Este era, finalmente, tripulado. Mas não falavam a respeito de onde estavam ou para onde iam. Apesar dos aquecedores, o frio parecia penetrar como uma faca. Demoraram um período incerto de tempo para chegarem ao seu destino: Minerva.
Até então tudo que souberam é que iriam emergir, mas ainda estariam abaixo do oceano, pois adentrariam uma base secreta submarina. Saíram e o frio era, com certeza, polar. Emergiram em uma espécie de grande piscina, ao lado de outras cinco, nas quais havia outros submarinos parados.
     Uma comitiva os esperava. Traziam ainda mais agasalhos. Um Homem fardado (esses eram extremamente raros na G.S.S.) se aproximou do agente 42 e do cientista e disse:
     – Senhores, bem vindo. Perdão meu português. Esta minha tradutora – apontou para a mulher de cabelos negros e traços eslavos no rosto – ela é confiança – disse algumas palavras em uma língua saxônica, e a mulher traduziu – Sigam-nos – havia um forte sotaque.