Medo (ATON)

Medo

Era uma pequena criança.
Com medos de criança.
Em seu pequeno mundo de criança.
E envolta desse mundo, construiu um muro.
Pobre ser, achava que se protegia.
Acontece que, em um belo dia,
a criança cresceu.
E seu pequeno espaço já não era suficiente.
Olhou por cima das paredes que o cercavam.
E viu:
seu mundinho, ser apenas uma ilha perdida num vasto oceano.
E viu:
pontes e mais pontes entre outras ilhas distantes.
Então percebeu:
era um pequeno adulto,
com medos de criança.
Percebeu que, cedo ou tarde,
todos temos que navegar.
Viver ali, como estava,
era inútil.
Viver não é preciso;
navegar é preciso.
Talvez já fosse tarde para isso.
Talvez não conseguisse ir tão longe, afinal.
Talvez morresse no meio do caminho.
Mas aquele mundinho de criança,
aquela ilhota de criança,
já não servia mais.
Ele cavou pelo muro um caminho.
Caiu na água.
e…
Talvez tenha nadado,
talvez tenha se afogado…
Agora era um grande adulto.
Com medos de criança.
Talvez tenha construído uma ponte.
Talvez ainda volte para lá.
Porque, no fim das contas,
todos os medos de adulto,
todos os medos do mundo,
são medos de criança.
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Um pequeno (grande) desabafo_-_por Claus P. Neto

Boas noites. Como semana passada, tentarei ser breve aqui. Há, entretanto, uma singular diferença dessa semana para a anterior: eu tenho algo sobre o que falar. O atraso do texto foi produto de circunstâncias externas (que deram a este humilde autor uma ótima desculpa). Na verdade, eu nem queria escrever sobre o assunto a seguir, por achar que em boa parte ele já virou notícia velha, mas de novo, circunstâncias (as quais eu acredito que ficarão melhor ocultas) contribuíram para esse desabafo. Faz bem pouco tempo, um vídeo de um assalto que terminou mal para o meliante virou a nova febre da internet brasileira. Nesse ínterim, foi notável ver como a opinião pública se dividiu a respeito do acontecido. Até onde eu pude acompanhar, a maior parte das pessoas achou, no mínimo, justa a ação policial que resultou na internação do assaltante. E sabe o quê? Concordo. Aliás, vou colocar aqui um parênteses, antes de continuar. Por princípio, defendo que toda vida tem um valor sagrado. Em hipótese alguma creio que teria sido bem feito se o ladrão morresse em decorrência dos tiros. Aliás, creio que mesmo os que mais ardentemente deixaram claro nas redes sociais o seu desprezo pelo infrator não teriam coragem de vê-lo perecer (quem dirá puxar eles mesmos o gatilho). O que toda essa situção trouxe à tona, é que o Brasil, em termos de segurança pública, está virando um verdadeiro pesadelo. É incrível como de uns tempos para cá trocamos o temor de, nos anos de chumbo, ser arrastados por nossas convicções políticas e passamos  ter pavor de ser abordado na rua. Até hoje, tenho um medo violento de usar meu celular (um aparelho semi-paleolítico que possui apenas as opções chamada, mensagem, calculadora e calendário) na rua. E porquê? Porque hoje, isso é comum. E o que é pior. Não há justiça. Cheguei ao cúmulo de ouvir de oficiais da PM detalhes de criminosos como apelidos, descrição física e até mesmo de vida pessoal dado ao grande número de vezes em que foram presos…e soltos logo em seguida. Há tanta violência nas ruas, e tãos poucos os casos em que se cumpre algo próximo do justo, que praticamente não há reação mais natural do que aplaudir um policial que, em um caso raro, conseguiu impedir que um vagabundo covarde tomasse o que era de outra pessoa só pelo fato de possuir uma arma de fogo. E antes que algum indivíduo tente advogar pelo referido covarde, já deixo claro aqui: se você acredita que violência vem pela falta de oportunidades, convido-o a pegar o computador, notebook, tablet ou smartphone de onde você lê esse texto e doá-lo gentilmente ao primeiro assaltante sem oportunidade que cruzar seu caminho, de modo que pelo menos com o dinheiro da venda ele tenha “uma oportunidade igual à sua”. Meu amigo, criminalidade ou pobreza não advém de oportunidade ou sua falta. A síndrome do coitadinho não vai ajudar ninguém a sair do buraco de lama em que ele está enfiado ou de impedir que ele tome por força covarde o que é, por direito, de outro: um celular, dinheiro, um ente querido ou sua própria vida. O fato é: aplaudimos demonstrações de justiça feita porque, no dia-a-dia, convivemos com uma realidade deprimente de crime impune. Todos gostaríamos que, em um momento como o que passou o motorista da moto, tivéssemos um PM disposto a intervir em nossa causa. Todos nós gostaríamos de poder andar nas ruas em paz. De sair de casa sabendo que, quando voltarmos, ela estará inteira. Ou então que, mesmo que quaisquer destas coisas ocorresse, fôssemos justiçados por um governo que em tese, tem o dever de nos proteger. E enquanto isso, esse mesmo estado passa a mão na cabeça daqueles que nos põe sob o signo do medo: tanto aqueles que nos abordam na rua com armas à mão, quanto aqueles que, de terno e gravata, sugam vorazmente o dinheiro de nosso hospital, de nossa escola, de nossa segurança, de nossas vidas, e ainda legislam contra aqueles que, com coragem, tentam fazer cumprir algum tipo de justiça. Gostaria que nessas duas esferas, eupudesse viver tranquilo. Mas tudo não passa de um sonho distante, que some faceiro e diáfano diante de meus olhos assim que eu acordo.

Boas noites.

Por Claus P. Neto

Apenas mais linhas em um rio de ideias

Boas tardes a todos. Tentarei ser breve e escrever o que puder aqui. Admito que escrevo sem ter a mínima ideia do que estou fazendo. Não tenho nenhuma inspiração. Não tenho nenhum roteiro. Não tenho nada. Em circunstâncias normais, minha preguiça teria levado a melhor e me deixado sem escrever, mas não estou sob circunstâncias particularmente normais, ao menos não sob a ótica de pessoas ‘normais’. Portanto, mãos (ou antes, coração, mente e tripas) à obra. Este recado é apenas de um autor que se preocupa com seus próprios erros, e pede que seus leitores sejam mais pacientes que ele mesmo.

A coisa que mais me assombra é uma folha de papel em branco. Ou no meu caso, uma tela brnca piscando no monitor. A linha vertical pisca a intervalos regulares e você sabe que alguma coisa pode sair daquela linha piscante. Um sucesso comercial. Um tratado diplomático. Uma obra prima digna das musas. Ou absolutamente nada. E é isso o que assusta. O absolutamente nada. Não há nada mais desesperador do que se sentar para criar algo e nada genuinamente bom consegue sair de você. Pelo menos para mim, a frustração de não conseguir fazer algo que, se eu lesse, ouvisse ou assistisse de um terceiro geraria em mim admiração e respeito, é no mínimo assustadora. Sou uma espécie de perfeccionista. E é por isso que a folha em branco é assustadora. Eu posso ver nela todo o potencial, toda a força, todas as ideias fluido, só esperando para serem pescadas. E tenho medo que, quando eu chegar perto, elas vão fugir de minha presença, deixando-me com as mãos vazias e o coração pesado. Mas descobri que o medo (ou o fracasso) é, de certa forma o meu preço por escrever. Se ainda não fiz algo que em mim mesmo gere aprovação, é porque ainda tenho que praticar, e muito. E no fim, o medo só vai me fazer ficar parado à margem da folha em branco, olhando as ideis sorrirem e acenarem para mim, sem que eu as toque. Por isso, agradeço ao Aton a oportunidade de, aqui nessas poucas linhas, testar minha coragem e entrar nesse rio de ideias. Mesmo que em várias situações eu ainda me frustre, o desfio de toda semana apresentar algo diferente e novo tem feito bem para mim. Quando eu tiver dominado a arte por completo, e tiver o fôlego e a disposição de escrever, mesmo que sejam mil livros, eu sei que as ideias estarão ali, já acostumadas à minha pessoa. E não. Elas não fugirão outra vez.

Por Claus P. Neto